Pesquisadores já constataram que a seleção realizada durante muitos anos para características produtivas resultou, paralelamente, em aumento da sensibilidade ao ambiente. Sinais da pressão que os animais estão sendo submetidos podem ser observados em diferentes setores da produção. Um destes sinais é a longevidade dos bovinos, que é baixa e vem sofrendo redução ao longo dos últimos anos. Uma vida útil curta é um indicador de problemas no bem-estar das vacas leiteiras. Outro importante indicador do bem-estar animal é a incidência de doenças. Já se sabe que a saúde e a resistência às doenças estão intimamente associadas ao bem-estar e conforto. O desempenho reprodutivo é outro importante sinalizador do "stress" ao qual os animais são submetidos. Os baixos índices reprodutivos nas vacas leiteiras são atualmente um problema que afeta a exploração leiteira em todo mundo.
Pesquisadores da Universidade de Missouri, USA, destacam que a modernização dos sistemas de produção nos últimos 50 anos afetou a eficiência reprodutiva das vacas que, durante este período, sofreu um nítido declínio. Os autores relatam que ao examinar a literatura publicada no periódico Journal Dairy Science é possível identificar a redução dos índices reprodutivos. São citados como exemplo dados da redução da taxa de concepção no primeiro serviço de 65% em 1951 para 40% em 1996; taxa de concepção de 55% em 1961 para 45% em 1998 (inseminações ocorridas após estros espontâneos) e o número de doses por concepção que variou de 1,62 em 1972 para 2,91 em 1996.
Outra maneira de observar os efeitos negativos do "stress" é comparando animais sadios e afetados por algum tipo de distúrbio que cause desconforto. Com base nos índices atuais de rebanhos leiteiros, é possível observar que quando o desempenho reprodutivo de vacas sadias e vacas acometidas por alguma enfermidade são comparados fica claro notar os efeitos negativos desses fatores sobre a fertilidade (Tabela 1).
Tabela 1- Índices de vacas leiteiras sadias e vacas com problemas clínicos no pós-parto, 2000.

Pesquisar o mecanismo pelo qual o "stress" afeta os fatores destacados acima (longevidade, sanidade e fertilidade) constitui um estudo complexo. Na rotina de uma fazenda com manejo intensivo, os animais são expostos simultaneamente a diferentes tipos de estímulos que podem causar "stress". E, além disso, a resposta de cada indivíduo pode ser diferente a cada tipo de estímulo. Mas, em resumo, pode-se sugerir que o sistema endócrino é a rota ideal para coordenar as alterações sofridas por um organismo submetido ao "stress".
Em relação ao sistema reprodutivo é possível encontrar na literatura algumas hipóteses que tentam esclarecer os efeitos do "stress" sobre a fertilidade da vaca leiteira. Um dos mecanismos estudados é a associação dos animais submetidos à dor ou estresse e a conseqüente liberação de altos níveis de catecolaminas e glicocorticóides. O estresse pode também induzir as glândulas adrenais a liberarem progesterona. O aumento do ACTH e o leve aumento da progesterona têm sido associados com o atraso ou a inibição do GnRH e/ou dos picos de LH e com a alteração da atividade folicular, podendo induzir a formação de folículos ovarianos persistentes.
Outro mecanismo estudado está associado à intensa modificação de manejo, alimentação e nível de produção no pós-parto e o agravamento do balanço energético negativo. O balanço energético negativo é apontado com um causador de efeito inibitório no desenvolvimento do folículo ovariano. Vacas magras ou perdendo peso possuem menores pulsos de LH e/ou menores concentrações de IGF-1. Além destes fatores, os folículos dominantes que ocorrem durante a fase de balanço energético negativo necessitam de mais tempo e uma maior dimensão para alcançar os níveis de estrógeno suficientes para induzir o processo de ovulação.
Os pesquisadores deixam claro que ainda faltam muitos pontos a serem esclarecidos e muitos caminhos a serem avaliados na relação do estresse e o desempenho das vacas leiteiras. Mas, hipóteses como os exemplos acima mostram que o caminho tem fundamento e merece atenção e investimentos de pesquisa para que, futuramente, possamos produzir com maior orientação sobre os mecanismos associados ao "stress" e sobre a melhor forma de trabalhar com eficiência com a vaca leiteira.
Fonte:
DE VRIES, M. J.; VEERKAMP, R. F. Energy balance of dairy cattle in relation to milk production variables and fertility. J. Dairy Sci., v. 83, p. 62-69, 2000.
DOBSON, H; SMITH, R. F. What is stress and how does it affect reproduction? Anim. Reprod. Sci., v. 60/61, p. 743-752, 2000.
LUCY, M. C. Reproductive loss in high-producing dairy cattle: where will it end? J. Dairy Sci., v. 84, p. 1277-1293, 2001.
VAN der WAAIJ, E. H. A resource allocation model describing consequences of artificial selection under metabolic stress. J. Animal Sci., v. 82, p. 973-981, 2004.