Há pouco menos de um ano, o MilkPoint se adiantou e publicou dois artigos que apresentavam uma previsão do que seria o recém publicado NRC de gado leiteiro (Veja os artigos: "Uma visão do novo NRC para gado leiteiro - Partes I e II").
Só em meados de janeiro foi feita a apresentação oficial das novas recomendações para formulações de dietas. Praticamente tudo o que foi previsto naqueles artigos se concretizou e o resultado foi um aperfeiçoamento do método de formulação que, espera-se, quando corretamente utilizado, represente uma importante ferramenta para melhorar o desempenho animal e o resultado financeiro das propriedades leiteiras.
Talvez a mudança mais radical destas novas recomendações é que elas deixam de ser estáticas, com tabelas representando tanto o valor nutricional dos alimentos quanto as exigências animais, para se transformarem num modelo matemático dinâmico, no qual os valores utilizados nos cálculos são variáveis em função de um conjunto de condições que envolvem tanto a vaca, os alimentos, o manejo e o ambiente. Sendo assim, fica impraticável o cálculo de dietas manualmente. A partir de agora é essencial o uso do computador e do programa que acompanha as recomendações. Ainda existem as tabelas com valores médios, que por si só já foram corrigidas para as novas regras, mas este tipo de cálculo não permitiria usufruir todas as vantagens do novo sistema.
Para que se entenda melhor, serão feitos alguns comentários sobre alguns itens do novo sistema, de acordo com a apresentação feita na última semana pelo Dr. Ric Grummer, professor da Universidade de Wisconsin, EUA, no "V Curso Novos Enfoques na Produção e Reprodução de Bovinos", em Uberlândia, MG.
As diferenças começam pelo cálculo da estimativa de consumo de matéria seca, fator primordial para um perfeito balanceamento, já que a densidade de nutrientes necessária na dieta é função da capacidade de ingestão do animal. Anteriormente, esta estimativa baseava-se no equilíbrio energético do animal a longo prazo, ou seja, o consumo de energia deveria se igual a seu dispêndio, e o consumo era função disso (energia necessária/concentração energética da dieta). O modelo atual utiliza para o cálculo uma equação criada para estimar o consumo a curto prazo, que leva em conta o estágio de lactação do animal; sendo assim, cada fase da lactação determina uma diferente estimativa de consumo e consequentemente requer uma formulação distinta. Esta equação possui um termo exponencial que ajusta para a diminuição de consumo observados tanto no início quanto no final da lactação. Isto pode representar grande avanço na precisão do balanceamento.
Outro avanço nos cálculos refere-se às estimativas das exigências animais e do valor dos alimentos em relação à proteína. Segundo o Dr. Grummer, inúmeras pesquisas demonstraram que o fornecimento de proteína microbiana para o intestino delgado havia sido superestimado na edição do NRC 1989, para os níveis de consumo típicos de vacas leiteiras em produção. Isto foi corrigido na nova edição. Em contrapartida, a estimativa de proteína não degradável no rúmen (by-pass) que passa para o intestino, que era um valor constante para qualquer nível de consumo, passou a variar no novo modelo. Em outras palavras, com maior consumo, os alimentos ficam menos tempo no rúmen e a quantidade de proteína que escapa da degradação aumenta. O resultado disso é que uma dieta fornecida a uma vaca de alta produção (maior consumo e taxa de passagem) irá conter mais proteína by-pass que o estimado anteriormente. Este é um bom exemplo da dinâmica do modelo, que altera os valores em função de cada situação específica. Um exemplo numérico pode ser visto na tabela 1.
Tabela 1: Efeito do consumo de matéria seca no teor de proteína não degradável no rúmen

Somado a isto, adotaram-se também valores variáveis para a digestibilidade da proteína não degradável de cada alimento. O valor anteriormente constante de 80% foi substituído por outros específicos a cada alimento, aumentando também a precisão dos cálculos.
Os cálculos relativos à energia sofreram grandes modificações e devem ter grande impacto nas formulações. O comitê da edição do NRC 2001 concluiu que os valores de energia nos alimentos vinham sendo superestimados. Anteriormente os valores de energia líquida eram calculados por equações a partir do NDT, que era constante para cada alimento. No novo modelo a eficiência de conversão da energia digerível em energia líquida é variável e se pode calcular a energia líquida para qualquer nível de consumo.
Como resultado do novo sistema, os valores de energia líquida ficaram, em média, 2% menores que na edição do NRC 1989. Esse desconto será maior para as forragens, sobretudo as de baixa qualidade, o que deve ter grande impacto particularmente nas nossas formulações, mas por outro lado poderá permitir melhor conhecimento das deficiências de nossas dietas e sua conseqüente correção. Alimentos ricos em proteína poderão apresentar valores de energia mais altos. Haverá mudanças dramáticas no caso de alguns alimentos como as sementes oleaginosas. Bom exemplo disso é o caroço de algodão, cuja energia líquida estimada será 16% menor e os grãos de soja tostados que terão seu valor energético aumentado em 25%.
As necessidades energéticas receberam ajustes mais complexos para a atividade do animal. Até agora admitia-se um aumento de 10% nos requerimentos energéticos de manutenção para vacas mantidas em boas pastagens e 20% quando o pasto era escasso. A nova edição faz ajustes variáveis. Como exemplo, o incremento nas exigências de energia para manutenção podem variar de 15% para vacas em pastagens planas próximas à sala de ordenha em comparação a até 50% para vacas em pastagens íngremes distantes da sala de ordenha.
As exigências de energia para produção passam a ser calculadas em função dos teores de gordura, proteína e lactose do leite e seus respectivos valores de energia combustível. Anteriormente se calculava exclusivamente em função do teor de gordura. As necessidades de energia durante a gestação foram ajustadas e passam a considerar o estágio da gestação.
No que se refere às vitaminas, tradicionalmente a prevenção de sintomas de deficiência era o principal critério para estabelecer as necessidades. A partir de agora foram priorizados os efeitos potenciais farmacológicos das vitaminas ou seus efeitos na produção de leite, na reprodução e na saúde. Além disso, as recomendações anteriores eram para o total de vitaminas (dieta basal mais suplementar). Por raramente se conhecer a real concentração de vitaminas nos alimentos, as novas recomendações são totalmente para fins de suplementação. Em resumo, as recomendações de vitamina A para vacas em lactação aumentaram de cerca de 67 kUI/dia para 100 kUI/dia; as de vitamina E aumentaram de 150 UI/dia para 1000 UI/dia, no caso de vacas secas e de 300 UI/dia para 500 UI/dia, no caso de vacas em lactação.
No caso dos minerais, foi usada uma abordagem fatorial, onde as necessidades de minerais absorvíveis para manutenção, crescimento, prenhez e lactação são somadas e então divididas pelo coeficiente de absorção dos minerais da dieta. Até o momento se atribuía um único coeficiente de absorção para cada mineral. Agora se reconhece que a absorção depende da fonte utilizada. Conseqüentemente, as necessidades de minerais variam de acordo com suas fontes nas dietas.
Comentário do autor: sem dúvida nenhuma estas novas normas de balanceamento representam um avanço na formulação de dietas. Elas devem proporcionar melhor desempenho aliado a menor desperdício de nutrientes (que estariam contaminando o ambiente). No entanto, para que se tire proveito disso, é preciso melhor caracterizar os alimentos através de análises locais e com maior número de informações, ao invés das tabelas usuais. Isto já é possível de ser feito em vários laboratórios nacionais mas ainda tem custo elevado e normalmente demora mais do que se gostaria. Além disso, outras questões interessantes devem surgir com o crescente uso desta metodologia. Um exemplo disso é a utilização de formulações comerciais de rações e suplementos minerais, dos quais não se conhece os componentes e suas proporções, tornando impossível qualquer tipo de cálculo neste sistema, já que diversas variáveis são dependentes do tipo de alimento em questão (como exemplo podemos citar as diferentes taxas de absorção atribuídas às diversas fontes de um mesmo mineral). Também é preciso estar ciente que o programa que acompanha as recomendações não faz formulações, ele simplesmente as avalia, devendo as correções serem feitas em função do conhecimento e experiência do nutricionista .
fonte: GRUMMER, R, 2001. NRC 2001 de Gado de Leite: O Que Há de Novo?. In: Anais do V Curso "Novos Enfoques na Produção e Reprodução de Bovinos". 15 a 17 de Março, Uberlândia - MG.