Níveis de uréia no sangue (plasma) de vacas mestiças em pastejo rotacionado

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A concentração de uréia plasmática (e também no leite) em ruminantes está diretamente relacionada com o consumo e eficiência de utilização da proteína da dieta e tem sido usada em diversos estudos na tentativa de monitorar a adequação da dieta dos animais.

Isto tem se mostrado efetivo porque grande parte da proteína que chega ao rúmen é transformada em amônia, para que possa ser utilizada pela flora ruminal na produção de proteína microbiana. Quando há excesso de proteína (ou falta de carboidratos) na dieta para a completa utilização desta amônia, ela é absorvida pela parede ruminal e levada ao fígado pela corrente sanguínea onde é transformada em uréia. A uréia também circula no organismo através do sangue. Parte é "reciclada" para o rúmen e parte é eliminada através da urina.

Eventuais excessos de uréia circulante têm sido relacionados a problemas reprodutivos em vacas leiteiras. Isso parece ocorrer principalmente porque a uréia teria um efeito "tóxico" no tecido reprodutor, influenciando negativamente o pH uterino, o que impede a implantação do embrião. É interessante que nestes casos as vacas continuam ciclando normalmente, mas não há concepção (repetem o cio). Níveis de uréia plasmática superiores a 40 mg/dl, o que corresponde a 19 mg/dl de nitrogênio uréico são tidos como limites máximos antes que efeitos deletérios significativos sejam observados na reprodução de vacas leiteiras.

Um experimento realizado no Instituto de Zootecnia de Ribeirão Preto/SP avaliou os níveis de uréia plasmática de vacas leiteiras mestiças (Holandês x Gir), com produção média de 10,3 kg de leite/dia, mantidas em duas áreas de pastejo rotacionado, uma de capim Elefante var. Guaçú, subdividida em 21 piquetes, manejados com dois dias de ocupação por 40 dias de descanso e outra de capim Tanzânia subdividida em 13 piquetes, com 3 dias de ocupação e 33 dias de descanso, ambas com bebedouros e sobra natural. Além da pastagem as vacas receberam 1,5 kg de concentrado por dia.

O sangue foi coletado em quatro épocas distintas utilizando 17 vacas por pasto. As análises foram feitas utilizando um kit color comercial (Bio Systems Reagents & Instruments) e as leituras foram feitas em espectofotômetro com filtro de 600 nm.

Os resultados médios encontrados para concentração de uréia no plasma sanguíneo são apresentados na tabela 1. Para se calcular os correspondentes valores de nitrogênio uréico basta multiplicar estes valores pelo fator 0,466 (teor de nitrogênio na uréia).

Tabela 1: Níveis de uréia plasmática no sangue de vacas leiteira a pasto



Médias seguidas de letras distintas diferem entre si (P<0,001) pelo teste de Tukey.

Não houve diferença significativa entre os capins estudados. Houve sim, diferença (P<0,001) entre as épocas de amostragem, não havendo interação entre o tipo de capim e a época do ano. Segundo os autores, esses resultados indicam que houve alteração nos níveis de proteína bruta das pastagens nas diferentes épocas, refletindo no aumento ou diminuição dos níveis de uréia plasmática das vacas. O valores superiores de uréia plasmática encontrados no início de abril foram justificados pelo maior nível de chuvas observado em março o que permitiu a elevação do nível de proteína bruta dos capins. Os valores médios de proteína bruta encontrados nessa época, nas folhas, foram de 14,28% para o capim Tanzânia e 14,49% para o capim elefante. De forma oposta, nos meses de janeiro e fevereiro a falta de chuvas regulares deve ter diminuído a qualidade do capim.

As quedas nos níveis de uréia plasmática observadas no mês de maio coincidem com a entrada da estação seca e conseqüente queda no valor nutritivo dos capins, principalmente do capim Tanzânia que tem floração mais precoce, e numericamente se correlacionou com a maior variação no teor de uréia plasmática.

Os autores afirmam ainda que os valores encontrados foram bastante inferiores aos 40 mg/dl de uréia plasmática (18,6 mg/dl de nitrogênio uréico) que, segundo alguns experimentos, poderiam afetar o desempenho reprodutivo das vacas.

Comentário do autor: a avaliação dos níveis de uréia sanguínea ou no leite parece ser uma nova opção de ferramenta para o monitoramento da adequação da dieta. Além de estar relacionada à eficiência reprodutiva, ela pode ainda permitir ganhos em produção (quando o nitrogênio for limitante) ou então economia de ingredientes de alto custo (fontes de proteína), quando o problema estiver relacionado ao excesso de nitrogênio. Já existe pelo menos um laboratório (Clínica do Leite - ESALQ - USP) com equipamento capaz de analisar o nível de nitrogênio uréico no leite de forma rápida a um custo razoável. Em regiões distantes é possível a análise por outros métodos, mas é importante que se tenha conhecimento daquilo que a análise avalia: existe diferença entre uréia e nitrogênio uréico (sejam eles no sangue ou no leite). Cada qual tem valores de referência distintos.

É importante ficar claro que ao se afirmar que níveis elevados de uréia sanguínea podem prejudicar a reprodução nos ruminantes, não significa que o uso de uréia em rações não é indicado. Desde que exista balanço entre as fontes de proteína e carboidratos, a uréia pode ser uma opção no balanceamento das dietas sem qualquer prejuízo ao animal (na maioria das vezes com redução de custos).


Fonte: LIMA, M. L. et al., 2001. Níveis de uréia plasmática de vacas leiteiras mestiças em pastejo rotacionado de capim Elefante var. Guaçú (Pennisetum purpureum) e capim Tanzânia (Panicum maximum). In: Anais da 38a Reunião da Sociedade Brasileira de Zootecnia. Piracicaba - SP. Pág. 1300.
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Material escrito por:

José Roberto Peres

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