Vacas Jersey, bem-estar animal e constância
A escolha da raça dos animais veio alinhada à estratégia. Desde o início, Lucas optou pelas vacas Jersey, reconhecidas pela maior concentração de sólidos totais no leite. “Para nós, produzir um leite rico em gordura e proteínas faz toda a diferença no rendimento do produto acabado. Além disso, é um animal mais dócil e que se adapta muito bem ao sistema de produção escolhido”, explica.
Hoje, a fazenda trabalha com sistema free stall e concentra esforços em conforto, rotina bem estabelecida e manejo organizado. Segundo Lucas, esses pilares se refletem diretamente na saúde do úbere e na qualidade do leite ao longo de todo o ano. A nutrição também é ajustada com frequência, buscando estabilidade e padronização da produção.
Os resultados aparecem nos indicadores. A contagem de células somáticas (CCS) se mantém uniforme ao longo do ano, os casos de mastite são praticamente inexistentes e a propriedade ainda conta com tecnologias que apoiam a melhoria contínua da qualidade do leite.
Se a raça definiu o perfil produtivo, o leite A2A2 consolidou o posicionamento da marca
A decisão nasceu junto com o projeto da queijaria e, segundo Lucas, nunca foi aleatória. “Desde o começo, quando decidimos montar a queijaria dentro da fazenda, eu já tinha muito claro que queria trabalhar com leite A2A2 para agregar ainda mais valor ao produto final”, afirma. Todos os animais foram testados individualmente e, em 2024, veio um movimento estratégico: a venda de todas as vacas que não eram A2A2.
Desde então, apenas touros A2A2 são utilizados nos acasalamentos, garantindo a padronização total do rebanho. Mais do que um diferencial técnico, o A2A2 passou a integrar a própria identidade da marca. “Trabalhar com uma matéria-prima totalmente selecionada, com origem controlada e padrão genético definido, reforça quem somos e o que entregamos ao consumidor”, completa o produtor.
Na Fazenda Buritis, o controle começa antes da indústria.
A transformação da matéria-prima em queijo começa ainda na ordenha. O leite segue imediatamente para o resfriamento e, na sequência, para a queijaria, sempre sob controle rigoroso de higiene, tempo e temperatura.
Para Lucas, a consistência do produto nasce no campo. “Tudo começa no manejo. A qualidade precisa estar garantida na origem. Na fabricação, cada queijo segue um padrão bem definido. Fazemos a padronização do leite, principalmente no ajuste de gordura, para evitar variações. Mesmo mudando o lote ou a época do ano, o queijo precisa manter a mesma identidade. O cliente tem que reconhecê-lo pelo sabor”, reforça.
É essa integração entre produção e processamento que sustenta a regularidade do produto final — da vaca à maturação, cada etapa é pensada para que o queijo entregue sempre a mesma experiência ao consumidor.
Essa regularidade exige atenção permanente à nutrição do rebanho.
“Quando a dieta oscila, o leite oscila também — e isso interfere diretamente na produção dos queijos. A estabilidade de gordura e proteína não é apenas um indicador zootécnico, é uma variável tecnológica”, explica Lucas. Produzir o leite, fabricar o queijo e comercializar tudo dentro da mesma estrutura amplia — e muito — a responsabilidade. “Precisamos acertar em tudo ao mesmo tempo. Não é só produzir leite, não é só fazer queijo. Qualquer detalhe fora do lugar impacta lá na frente.”
A verticalização aumenta a complexidade da operação, mas entrega aquilo que Lucas mais valoriza: controle. Controle sobre o padrão, a qualidade, a narrativa e o posicionamento do produto
O portfólio atual da queijaria inclui queijo meia cura, maturado por mais de 60 dias, minas padrão, minas frescal, tipo grana com 12 meses de maturação e tipo Gruyère com 120 dias — todos produzidos exclusivamente com leite da própria fazenda e comercializados inclusive por loja online. A diversidade de maturações exige constância ainda maior na matéria-prima, reforçando a importância do sistema construído desde a base.
O mercado de queijos artesanais de origem controlada segue aquecido, e o diferencial A2A2 amplia essa percepção de cuidado. Ainda assim, Lucas mantém o pé no chão. A expectativa é crescer 50% neste ano, mas sem abrir mão da essência. “Não adianta crescer e perder a nossa identidade. A base sempre vai ser produzir bem feito.”
Na Fazenda Buritis, o queijo não nasce na forma. Ele começa muito antes — na escolha da vaca, na genética definida, na dieta equilibrada e na rotina que sustenta constância. E talvez seja justamente essa coerência entre planejamento, manejo e execução que transforma leite em marca — e projeto em posicionamento.
