Marcelo Simão da Rosa 1,2,3 e Mateus J. R. Paranhos da Costa 2,4
Este trabalho defende a tese de que a interação positiva humanos-bovinos eleva o bem-estar e produtividade animal.
A interação humanos-bovinos começou a ser fortalecida com o processo de domesticação desta espécie, iniciado há cerca de 6.000 A.C. (Stricklim et al., 1984). Porém, a interação humanos-animais já datava antes mesmo desta época, com a domesticação de outras espécies. Esta ação tem sido mais freqüente entre humanos e animais de companhia, principalmente cães, havendo estudo que associou a interação com animais a uma melhor qualidade de vida para o homem (Blackshaw, 1996). Entretanto, como citado por Hemsworth & Coleman (1998), muitos estudiosos não reconhecem o relacionamento entre humanos e bovinos como valioso para ambas partes; consideram que estes animais são tratados puramente como objetos de trabalho, máquinas de produção que não se alteram com o comportamento dos humanos.
Apesar dessa visão mecanicista, Hemsworth & Coleman (1998) destacaram que humanos e bovinos apresentam vários momentos de interação durante o desenvolvimento das atividades de rotina (ordenha, alimentação, cuidados sanitários e outras práticas zootécnicas), com reflexos no comportamento, fisiologia e produtividade animal (Hemsworth et al., 1993). Tal afirmação é corroborada por Krohn et al. (2001) que acrescentaram ainda, como reflexo da interação, o bem-estar dos animais.
O estudo das causas e efeitos da interação humanos-animais está sendo desvendado aos poucos. Já é sabido que é através da qualidade e quantidade das diversas maneiras de se interagir (tátil, visual, olfativa, gustativa e auditiva) e do momento em que a interação ocorre (Krohn et al., 2001), que há a formação do relacionamento, o que possibilita a aproximação ou afastamento das partes, o que podemos chamar de relacionamento mais íntimo e menos íntimo, respectivamente. A intimidade desse relacionamento pode ser avaliada e medida pelas respostas comportamentais do animal ao tratador (Hemsworth & Coleman, 1998), o que pode alterar o bem-estar animal.
Com relação às atividades de rotinas, algumas delas proporcionam vários momentos de contato entre humanos e bovinos. Contatos obtidos durante o aleitamento artificial, o fornecimento de ração, observação de cio, inseminação artificial e a ordenha permitem um estreito relacionamento das partes, que, através de ações positivas, pode refletir beneficamente na elevação do bem-estar animal. Entretanto, quando estas atividades são desenvolvidas mecanicamente (quando as oportunidades de contatos são ignoradas pelo homem), ou ainda são desenvolvidas com ações negativas, não há condições para elevação do bem-estar animal, podendo até haver prejuízo deste, tornando o relacionamento menos íntimo ou aversivo.
Vários estudos experimentais e de campo foram realizados para referendar ações de contato físico isoladas ou concomitantes à ação de manejo, que poderiam ser refletidas no bem-estar e produtividade animal. Arave et al. (1985) ao estudarem os efeitos da criação, registraram que bezerras criadas em grupo de 6, que não receberam contatos positivos durante o período o aleitamento, foram mais agressivas e apresentaram maior hierarquia social na disputa por alimento, bebida e local de descanso e maiores freqüências de defecação e micção quando colocadas em local não habitual em relação àquelas criadas isoladas, mas que receberam ações positivas (carícias) na fase de aleitamento, se mostrando mais dóceis. Boivin et al. (1992) registraram que os contatos positivos adicionais (toques suaves, fornecimento de feno e concentrado) recebidos pelas bezerras no período de aleitamento natural, foram essenciais na supressão do comportamento agressivo, mesmo após meses e registraram também que os contatos fornecidos no período de desmame provocaram melhores comportamentos dos animais, quando adultos, do que aqueles recebidos durante os primeiros meses de amamentação. Estudos como estes demonstram a importância da interação positiva individualizada no período sensitivo de animais jovens, interação esta que influenciará no comportamento de animais jovens, possibilitando o desenvolvimento das práticas zootécnicas de maneira mais segura, e até de animais adultos, promovendo uma melhor socialização com humanos no momento da ordenha.
Estudos também foram desenvolvidos com a finalidade de determinar a relevância entre a ação de manejo (por exemplo o fornecimento de alimento) e a ação de contato (por exemplo: coçadinhas, palmadinhas, carícias e voz) e a importância de experiências prévias, que influenciam o bem-estar e produtividade animais. Assim, Murphey & Moura Duarte (1983) concluíram que o comando de voz, chamando o animal pelo seu nome, só era efetivo quando o animal o associava à recompensa. Jago et al. (1999) combinaram diversas formas de ações (fornecimento de leite, permitindo a visualização da pessoa, acompanhado de tapinhas e palmadinhas; fornecimento de leite, com visualização da pessoa, sem contato físico; fornecimento de leite, sem a visualização da pessoa, e após, contatos de carícia e fornecimento de leite, sem a visualização da pessoa, e sem contato físico) e concluíram que o fornecimento de leite, com a visualização da pessoa, resultou em menor medo dos animais em relação ao contato físico ofertado isoladamente da ação de manejo. Isto demonstra que, muitas vezes, devido a ação de manejo ser mecanizada, o que é perfeitamente exemplificada pelo fornecimento de alimento através de caçambas forrageiras, perde-se a oportunidade de uma interação humano-animal mais efetiva, o que proporcionaria relacionamento positivo mais íntimo que, por sua vez, beneficiaria o bem-estar animal.
Outro exemplo desta situação, talvez, poderia ser a ordenha mecanizada, que dispensa a necessidade do retireiro de chamar a vaca pelo seu nome durante a ordenha e a oportunidade do fortalecimento da interação tátil, auditiva e visual de retireiro e vaca leiteira durante os procedimentos de ordenha, fatos que podem estar refletindo negativamente no bem-estar da vaca. Lewis & Hurnik (1998) ressaltaram a importância da experiência prévia dos bovinos em seus comportamentos durante o manejo, registrando que a maior porcentagem dos animais que tentaram escapar durante a ação desenvolvida, era daqueles que nunca haviam participado de tal ação, fato este que desperta a atenção, por exemplo, para a vantagem de conduzirmos as novilhas, antes do parto, até à sala de ordenha, o que foi previamente testado e validado no estudo realizado por Albright & Arave (1997).
Alguns estudiosos, já dedicam parte de seu tempo em estudos de campo, para revelar os efeitos da interação retireiro-vaca leiteira no comportamento e bem-estar da vaca na ordenha. Breuer et al. (2000) concluiram que o tipo de interação retireiro-vaca leiteira no momento da ordenha pode causar mudanças comportamentais da vaca na ordenha, uma vez que interações negativas entre retireiros e vacas resultaram numa maior reatividade da vaca durante a ordenha, apesar da produção de leite não ter sido alterada. Entretanto, os resultados obtidos por Hemsworth et al. (2000) não confirmaram tal conclusão, uma vez que a interação negativa, durante a ordenha, foi significativa e negativamente correlacionada com a produção de leite, teores de proteína e gordura, e foi significativa e positivamente correlacionada com a concentração de cortisol, o que indica a possibilidade de aumentar a produtividade da vaca através de interação positiva retireiro-vaca leiteira.
Em estudos mais recentes, Munksgaard et al. (2001) e Rosa (2002) registraram menor reatividade naquelas vacas que receberam interação negativa de seus retireiros, mas que não havia correlação significativa entre o tipo de interação e a produção de leite, demonstrando a complexidade entre interação - produtividade - bem-estar animal. Hemsworth et al. (2002) objetivaram examinar se era possível melhorar as atitudes e comportamento do retireiro para com suas vacas, examinando as conseqüências dessas mudanças no comportamento e produtividade de vacas leiteiras. Neste, concluíram que após a intervenção cognitiva-comportamental os retireiros desempenharam mais ações positivas para com suas vacas, diminuindo a distância de fuga, que foi correlacionada significativamente com a produção de leite. Este estudo chama a atenção para a importância do treinamento do trabalhador, o que pode melhorar suas atitudes para com os animais, gerando um relacionamento mais íntimo e promovendo uma interação mais positiva entre humanos e animais de produção, que pode resultar na elevação do bem-estar animal, da produtividade e da rentabilidade da empresa.
Contudo, ainda há muito para aprender. As pesquisas, que estão desvendando a interação humanos-bovinos, têm resgatado (pelo menos em parte) o conhecimento empírico do bovinocultor. A combinação desses conhecimentos pode ser articulada de forma a alterar a rotina da fazenda, promovendo melhorias no trinômio bem-estar animal - produtividade - rentabilidade.
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1 Escola Agrotécnica Federal de Muzambinho - MG / rosaefreitas@uol.com.br
2 ETCO - Grupo de Estudos e Pesquisas em Etologia e Ecologia Animal
3 Programa de Pós-Graduação em Zootecnia - Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias - UNESP - Jaboticabal - SP
4Departamento de Zootecnia, Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias - UNESP
14880-900 Jaboticabal-SP
Publicado por:
MilkPoint
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