Farelo de glúten de milho pode substituir parte da silagem de milho em rações para vacas em lactação

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Nessa época do ano o preço do farelo de glúten de milho 21 (FGM-21) começa a ficar interessante, e esse subproduto passa a ser uma boa opção para compor rações de vacas leiteiras, em regiões onde haja disponibilidade. Normalmente o FGM-21 substitui parte do milho em grãos e das fontes de proteína das rações, em função de suas características bromatológicas (21-23% PB, 78-80% NDT). Mas como trata-se de um sub-produto fibroso, também pode ser utilizado como substituto de parte do volumoso das rações.

FELLNER & BELYA (1991) dizem que em função de suas características - pobre em gordura e amido, e bastante rico em fibra altamente digestível - o FGM-21 constitui-se numa ótima alternativa para inclusão em rações baseadas em grãos e silagem de milho. Segundo os autores, por ter mais FDA e FDN que os grãos de cereais, a utilização do FGM-21 poderia limitar a concentração energética e o consumo das rações, mas os teores reduzidos de amido e elevados de fibra digestível podem ajudar a manter o pH ruminal em níveis mais desejáveis, o que pode compensar possíveis diferenças na digestibilidade total das rações.

Mas, além da questão nutricional, o grande interesse está na possibilidade de se formular rações mais econômicas com o FGM-21, tanto se substituindo parte do concentrado como da silagem de milho. Neste radar já abordamos a substituição dos grãos de milho pelo FGM-21 em artigo anterior (clique aqui para ler), e agora vamos apresentar a possibilidade de substituição de parte da silagem de milho pelo FGM-21, a partir de trabalho recente realizado na ESALQ/USP (ALVES et al., 2005).

Os autores trabalharam com 33 vacas holandesas confinadas, no terço final de lactação. Foram formuladas três rações diferentes, onde o FGM-21 substituía em 2 níveis a silagem de milho (8 e 16% da MS total). As rações foram formuladas utilizando-se o NRC (2001) e foram balanceadas para serem isoprotéicas. Os resultados mostraram que a substituição da silagem pelo FGM-21 não afetou a produção nem a composição do leite, apesar de haver um aumento numérico no teor de gordura do leite com a inclusão do FGM-21 (dados na tabela 1).

Tabela 1. Composição química e ingredientes das rações experimentais

Figura 1

Infelizmente não foram incluídos no trabalho os dados de consumo, e aqui tenho que fazer um parêntese, pois sou um dos co-autores, mas, como tal, sei que não houve diferenças entre os tratamentos e que os valores ficaram em torno dos 20 kg MS/vaca/dia. Considerando que eram vacas já no terço final de lactação, recuperando condição corporal, esse nível de consumo, apesar de elevado, é aceitável para o nível de produção observado.

Pelos resultados obtidos, a substituição da silagem pelo subproduto é viável, nutricionalmente. Mas será que isso vale a pena? Para tentar responder a essa questão fiz uma análise de custo das rações experimentais, considerando um consumo médio de 20 kg MS/vaca/dia, e custos que podemos conseguir aqui na região de Piracicaba/SP para os alimentos concentrados. Para a silagem de milho considerei o custo apresentado na última edição do informativo A Nata do Leite, que é de R$ 61,00/ton MO, o que dá em torno de R$ 185,00/ton MS, para uma silagem com 33% MS. Os dados estão na tabela 2.

Tabela 2. Análise econômica das rações experimentais - CMS = 20 kg MS/vaca/dia

Figura 2

Custos dos alimentos, em R$/ton MO: Silagem de milho=60,84; FGM-21=260,00; Milho moído=300,00; Polpa cítrica=200,00; Farelo de Algodão=330,00; Uréia=950,00; Núcleo Mineral=1.000,00; Bicarbonato Na=1.200,00

Com esses valores, podemos considerar que a substituição da silagem pelo FGM-21 é desvantajosa, uma vez que o custo de alimentação aumentou com a inclusão do sub-produto. No entanto, temos que considerar que esse quadro pode ser diferente. Muitos pesquisadores consideram que os custos para produção de silagem de milho apresentados em boa parte das planilhas e boletins de mercado são bastante subestimados. Dados levantados pelo CEPEA, em parceria com o Departamento de Zootecnia da ESALQ (Nussio, 2005 - comunicação pessoal), apontam para valores bem superiores para a produção desse volumoso.

Os pesquisadores acreditam que se forem consideradas corretamente as perdas relativas ao processo de ensilagem, perdas pós-abertura do silo, e perdas no fornecimento, o custo de produção de uma silagem de milho de boa qualidade pode ultrapassar os R$ 80-85,00/ton MO. Se na análise anterior considerarmos um custo de R$ 80,00/ton MO para a silagem, o custo de alimentação fica o mesmo para as 3 rações, em R$ 6,23/vaca/dia.

Se, além disso, considerarmos um custo de R$ 230,00/ton MO para o FGM-21, valor muito próximo ao praticado no final de 2004, e que pode ser real dentro de algumas semanas, o custo de alimentação para a ração com 16% de FGM-21 cai para R$ 6,12/vaca/dia, sendo que o da ração sem o subproduto fica R$ 6,23, apontando para uma clara vantagem da substituição. Num rebanho hipotético com 100 vacas em lactação, isso representa uma economia de R$ 4.000,00 no ano. Se forem 500 vacas...

Outro aspecto há ser considerado, mas que é muito complicado de ser mensurado e valorado, é a economia que se pode fazer em área plantada e na necessidade de espaço em silos com a substituição da silagem de milho pelo subproduto. No caso de um rebanho com 100 vacas, consumindo cada uma 10 kg MS de silagem de milho ao dia, durante o ano todo, a necessidade de área plantada é da ordem de 28 ha, se a produtividade for de 13 ton MS/ha. A utilização de 16% de FGM-21 em substituição à silagem representaria uma economia teórica de 4,5 ha na área de milho a ser plantada, e de 177 ton de capacidade no silo.

Com base nos resultados e considerações apresentados, a utilização do FGM-21 em substituição à silagem de milho pode ser considerada, sempre que a relação de custo entre ambos for interessante.

Referências Bibliográfica

ALVES, A. C. N.; MATTOS, W.; SANTOS, F. A. P.; PEDROSO, A. M.; BALESTRINI, D. C. "Composição e Produção de Leite de Vacas Holandesas Alimentadas com Farelo de Glúten de Milho Desidratado em Substituição Parcial à Silagem de Milho". In: 42ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Zootecnia, Goiânia/GO, 2005. CD/ROM

FELLNER, V.; R. L., BELYA. Maximizing gluten feed in corn silage diets for dairy cows. Journal of Dairy Science, 74(3):996-1005, 1991.

NATIONAL RESEARCH COUNCIL.. Nutrient Requirements of Dairy Cattle. Washington, D.C.: National Academy Press, 2001, 381p.
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Material escrito por:

Alexandre M. Pedroso

Alexandre M. Pedroso

Doutor em Ciência Animal e Pastagens, CowSignals Expert, especialista em nutrição, manejo e bem-estar de bovinos leiteiros.

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