Existe saída para o produtor de leite?

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O tempo todo nos deparamos com reclamações, por parte dos diversos segmentos da cadeia produtiva de lácteos, quanto à falta de uma política governamental clara e adequada para o setor. Apesar da solicitação ser de extrema importância, parece não despertar muito interesse e nem muita atitude por parte dos órgãos competentes.

Mesmo engrossando as fileiras que clamam por mudanças, não acreditamos que essas ocorram em curto prazo. Estudiosos do tema postulam que numa condição de globalização não devemos esperar atitudes paternalistas ou subsídios por parte do governo, principalmente ao lembrar que estamos em um país com sérias restrições orçamentárias e com economia ainda delicada.

Contudo, enquanto a política do setor não sofre mudanças significativas, é preciso trabalhar dentro da propriedade reduzindo custos para conseguir assegurar retorno econômico mínimo que permita a continuidade na atividade.

Em primeiro lugar, é crucial incorporar uma visão de cadeia produtiva em todas as decisões, para garantir seu sucesso individual como produtor e ao mesmo tempo integrar-se de forma harmônica no competitivo mundo do "agronegócio".

Partindo dessa visão global, o passo seguinte é buscar a elevação da rentabilidade com a atividade, que passa obrigatoriamente pela implementação de algumas das seguintes medidas:

* priorizar a introdução de conhecimento, almejando constante aprendizado e profissionalização;

* melhorar a qualidade do produto obtido efetuando ao menos algum processamento primário (resfriamento) e, se possível agregando valor pelo mesmo;

* reduzir ao mínimo o custo unitário de produção, otimizando o aproveitamento dos recursos produtivos (terra, animais, máquinas, insumos, etc.) antes de adquirí-los em maior quantidade, melhorando assim sua relação benefício:custo.

Por exemplo, buscar primeiro reduzir o intervalo entre partos do plantel para depois cogitar a aquisição de mais animais;

* reduzir e diluir os custos fixos buscando um módulo mínimo de produção. Cuidado, em primeiro lugar equacione seu sistema de produção para determinar o módulo adequado; é comum ver produtores buscando a solução no aumento do plantel, quando o problema da falta de retorno econômico é outra e acabarem com um déficit econômico ainda maior;

* reduzir todo tipo de perdas antes, durante e após a obtenção do produto;

* monitoramento constante de todas as etapas do processo de produção.
Concentre-se em identificar as ineficiências técnicas, gerenciais e organizacionais do processo produtivo de sua propriedade. Inúmeros estudos apontam que elas são as principais vilãs do balanço econômico de qualquer atividade. É necessário assumir a tarefa de sanar essas ineficiências, e isso requer mudanças e atitude para sair da condição de inércia a que fora lançado pela descrença numa saída para sua situação de penúria. Arregace as mangas.

Os principais e mais representativos pontos de ineficiência são em geral primários, como por exemplo: a falta de anotações sobre aquilo que ocorre na propriedade, ausência de controle de despesas e receitas por mais simples que seja, não adoção de calendário sanitário profilático, ausência de um plano de reprodução e seleção do plantel, falta de manutenção e regulagem das máquinas e equipamentos, controle inadequado de plantas daninhas e pragas nas lavouras, uso de espécie vegetal inadequada a região e/ou ao sistema de produção escolhido, ausência de conservação e manejo dos solos, e outros.

Sem o adequado controle e planejamento, as atividades ficam atribuladas e acabam gerando custos secundários, também chamados de "custos da última hora" e "custos de imprevistos", que por sua vez consomem boa parte das receitas. Note ainda, que a correção dessas ineficiências não necessariamente requer crédito, insumos e equipamentos de alto custo, carecendo mais de força de vontade e organização que qualquer outra coisa. A renda extra obtida com as mudanças impostas, deve ser destinada a aquisição de insumos externos, permitindo a fuga ao crédito oficial e a introdução de outras transformações que requeiram maior capital.

É claro que no papel tudo é muito fácil, e que algumas das mudanças propostas necessitam de conhecimentos específicos (técnicos). No entanto é fundamental que todo produtor perceba que ele é o principal agente de transformação de sua propriedade e que, se necessário, ele deve buscar as informações necessárias via órgãos governamentais ou através da iniciativa privada (empresas de consultoria e profissionais liberais).

Apenas compreendendo seu sistema produtivo e seu fluxo de caixa será possível identificar os pontos falhos, equacionar e melhorar a eficiência de todas as etapas da produção, e desta forma conseguir algum fôlego para aguardar as necessárias medidas governamentais para o setor. Boa Sorte!

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1Colaborou

Alexandre de Campos Gonçalves - Mestrando Depto. Produção Animal ESALQ/USP.
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