O resíduo de cervejaria úmido, vulgarmente denominado de "cevada", é um subproduto da produção de cerveja com larga utilização na alimentação de gado leiteiro. Por se tratar de material extremamente úmido, sua conservação na fazenda é bastante delicada. Com freqüência se constata o fornecimento de resíduo já deteriorado, o que diminui seu valor nutritivo e deprime o consumo, além de constituir-se num fator de risco à saúde dos animais, já que o desenvolvimento de fungos (e suas possíveis toxinas) é fácil de ser observado.
Estudos demonstram que, sem o uso de conservantes, o resíduo úmido de cervejaria não deveria ser estocado por mais que 2 a 3 dias no verão (americano). No Brasil, onde as condições de temperatura e umidade são muito mais desfavoráveis, é comum o armazenamento por mais de 15 dias. Na tentativa de contornar o problema o produto é submerso em água. Este procedimento não impede sua deterioração.
Os processos de fabricação de cerveja vêm sendo modificados e as cervejarias mais novas têm comercializado um resíduo com teor de matéria seca superior (acima de 25% de matéria seca). Isto, além de permitir o transporte a distâncias maiores, abre oportunidade para sua conservação na forma de ensilagem. Neste sentido foi realizado um experimento na Universidade de Lavras.
O trabalho teve duas etapas. Na primeira etapa avaliou-se a conservação do material ensilado, com o uso de 150 silos de laboratório (PVC). Foram testados cinco níveis de adição de milho desintegrado com palha e sabugo (0; 2,5; 5,0; 7,5 e 10% de MDPS) e seis tempos de fermentação (15, 30, 45, 60, 75 e 90 dias), em cinco repetições. Na segunda etapa a degradabilidade ruminal do material foi estudada com o auxílio de 3 vacas nelore fistuladas no rúmen.
A composição das silagens em função do nível de aditivo pode ser observada na tabela 1.
Tabela 1: Composição bromatológica das silagens em função do porcentual de aditivo.

A análise de variância dos dados demonstrou efeito significativo (P<0,01) tanto para o porcentual do aditivo (tratamento) como para o tempo de fermentação e para a interação entre estes dois fatores (com exceção da matéria mineral que não apresentou interação).
Como era de se esperar, a adição do rolão de milho, aumentou a matéria seca do material ensilado, o que certamente contribuiu para melhor conservação da massa. Os teores de proteína bruta, FDN, FDA, lignina e matéria mineral de forma geral diminuíram possivelmente por um efeito de diluição (têm menor concentração no rolão) e também por possíveis transformações na composição química da massa durante o processo de fermentação, como é o caso das proteínas, que são, em parte, utilizadas pelas bactérias e a FDN, que pode ter a hemicelulose, um de seus componentes, desdobrada até pentoses.
Um ponto que chama atenção, no entanto, é o pH do material ensilado. O próprio autor comenta que "os valores ficaram excessivamente baixos". Observe que mesmo o material sem aditivação possui um pH 3,8, que teoricamente seria suficiente para a adequada conservação de silagens úmidas. O autor argumenta que isto demonstra que "praticamente houve ausência de aminoácidos residuais e cátions como K+, Ca++ e Mg++, os quais devem ter sido extraídos no processo de industrialização da cerveja. A presença dos mesmos possivelmente neutralizaria parte dos ácidos orgânicos formados durante o processo de fermentação no silo e, com seu poder tampão, contribuiriam para dificultar a redução do pH para níveis tão baixos".
Este fato nos permite inferir que, desde que o resíduo possua um teor mínimo de matéria seca (acima de 25%), a ensilagem seria um bom método de conservação do resíduo de cervejaria, possivelmente mesmo sem aditivação.
Por outro lado, a avaliação dos teores de ácidos orgânicos nas silagens, indicam que uma pequena aditivação (2,5% de rolão) pode ter efeito significativo na qualidade e conservação do material (tabela 2).
Tabela 2: Valores médios de ácidos orgânicos encontrados nas silagens

A silagem sem aditivos apresentou teores significativamente menores de ácido lático (indicando fermentação limitada) e teor significativamente maior de ácido butírico (indicativo de má conservação), praticamente ausente nas demais silagens a partir da inclusão de 2,5% de rolão ao resíduo. O autor argumenta que a queda no teor de ácido butírico deve ter sido resultado do aumento da pressão osmótica decorrente da maior matéria seca do material aditivado. Isto novamente permite a inferência de que resíduos originalmente mais secos (acima de 25% de MS) dispensariam a aditivação.
O autor conclui que a aditivação com 2,5% de MDPS foi suficiente e os tempos de fermentação indicam que o resíduo ensilado pode ser utilizado a partir dos 15 dias de fermentação.
No que se refere à segunda etapa do experimento, a inclusão de MDPS nas silagens só sugere maior degradabilidade efetiva para a matéria seca. Os tempos de fermentação não alteraram a degradabilidade potencial e efetiva da matéria seca, proteína bruta, e FDN das silagens testadas.
Comentário MilkPoint: estes dados demonstram a possibilidade de ensilagem do resíduo de cervejaria, prática já comum em vários outros países. Para isto é necessário que as indústrias disponibilizem um material com maior teor de matéria seca (entre 25 e 30%), o que já ocorre onde indústrias mais modernas foram instaladas. Isto resolveria os entraves na utilização deste alimento: excesso de umidade, má conservação e até mesmo a inconstância no fornecimento pois seria possível a armazenagem para um período prolongado. Estes dados devem ser avaliados com certo resguardo pois o material foi compactado nos silos experimentais (para obtenção de 1 ton/m3), o que favorece a conservação, mas não é possível de se realizar na prática. A aditivação de silagens pode promover melhor conservação, mas quem já tentou sabe da dificuldade de realização nas condições de fazenda.
fonte: ARONOVICH, M., 1999. Composição Bromatológica e Degradabilidade de Silagens de Resíduo Úmido de Cervejaria. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal de Lavras.