Dentre os vários obstáculos para o desenvolvimento da pecuária leiteira no País, dificilmente alguém imaginaria que o consumo de energia elétrica pudesse passar a ser mais um deles. Se já não bastasse a alta carga de impostos, o baixo valor de remuneração da produção, os problemas culturais que provocam baixo consumo de produtos agrícolas pelo povo brasileiro (especialmente leite), a falta de financiamentos mais justos para a agropecuária e a importação desleal de alguns produtos agrícolas, a situação atual se tornou ainda mais desesperadora para quem investiu em equipamentos e na ampliação da produção. Neste tocante, é bom lembrar que, com o início do Programa Nacional de Melhoria da Qualidade do Leite (PNMQL), o próprio governo vai incrementar a utilização de mais equipamentos elétricos, como tanques de expansão e ordenhadeiras mecânicas.
Na verdade o maior prejudicado nesta história toda é o produtor consciente, que sempre economizou, em respeito ao meio ambiente e também para diminuir custos. Estes produtores, que já trabalhavam com valores baixos de consumo de energia, se viram com grandes problemas e praticamente sem saída. O consumidor de leite também deve ser outro grande prejudicado, pois, segundo alguns especialistas em elaboração de projetos elétricos, o alto preço dos geradores disponíveis no mercado provoca a instalação de sistemas mal dimensionados, que trabalham sem folga. A conseqüência é a impossibilidade de se manter a temperatura de um tanque de expansão estabilizada enquanto a ordenha está ligada ao mesmo tempo. Isto significa que, com a oscilação da temperatura do leite no tanque, a qualidade do produto deva cair também.
Assim, é imperativo na situação atual que o produtor passe a conhecer alguns valores de consumo de seus equipamentos e a realizar planejamento estratégico para otimizar e economizar a energia elétrica na propriedade. No quadro abaixo apresentamos o consumo de energia de alguns dos principais equipamentos utilizados em propriedades leiteiras. Salientamos que cada modelo de equipamento tem um consumo particular e que o ideal é questionar os revendedores e as fábricas quanto ao valor de cada um, dimensionando-o para o seu projeto leiteiro.

* média, depende do número de horas em funcionamento
Fontes: Boletim do Leite (edição nº 87) - CEPEA/ESALQ/USP e Agropecuária Casa da Roça - Piracicaba/SP
Mesmo com equipamentos mais econômicos e eficientes, é recomendação geral a verificação da situação da fiação elétrica por toda a propriedade, procurando por fugas de corrente. A troca das lâmpadas incandescentes pelas fluorescentes também ocasiona grande economia de energia elétrica. Para se ter uma idéia, uma lâmpada incandescente de 60 watts ligada 6 horas por dia chega a gastar 32 kwh por mês, enquanto que a fluorescente de 54 watts só 9,72 kwh.
Com alguns ajustes no manejo dos equipamentos, também é possível aumentar a eficiência e a economia na utilização de energia elétrica. Um bom exemplo disso é o uso de placas solares para aquecer a água de lavagem dos equipamentos de ordenha e processamento de leite. Estes aquecedores solares funcionam muito bem, tem baixo custo de manutenção e, mesmo que a água não atinja temperaturas muito elevadas, o sistema contribui de forma significativa na diminuição dos gastos com o aquecimento da água pela energia comprada fora.
Outra alternativa interessante para quem faz uso de ordenhadeiras balde ao pé, reside em adaptar a bomba de vácuo na tomada de potência do trator. A transformação é simples e barata, possibilitando a reversão a qualquer momento, apenas alterando um conjunto de polias e correias.
No caso do bombeamento de água, também existem alternativas para economizar de forma inteligente e definitiva. A instalação de rodas d'água na propriedade pode substituir as bombas elétricas com bastante eficiência. Se distância e pressão a serem vencidas não forem muito grandes, o uso de carneiros hidráulicos ou de bombas de alavanca pode resolver o problema.
Quando existe a necessidade de se produzir energia elétrica na propriedade as sugestões se ampliam. No quadro a seguir são apresentadas algumas delas, que se diferenciam pelo montante de capital a ser empregado na instalação e na quantidade de energia produzida.

FONTE: Suplemento Agrícola (edição nº 2.382) - Jornal "O Estado de S. Paulo"
Na produção de calor para o ambiente, as alternativas para economizar energia elétrica ainda são o gás GLP (de cozinha) e a madeira. O bagaço de cana também pode ser utilizado, mas depende da disponibilidade na região, sendo seu uso mais recomendado em caldeiras, produzindo vapor.
Com relação aos geradores, é importante frisar que, quando se projetam sistemas para ordenhas, devemos verificar se estes foram feitos com base na amperagem requerida na partida do motor, ou na sua exigência máxima em operação. O que acontece com certa frequência em projetos mal dimensionados, que trabalham sem folgas, é que toda vez que há entrada de ar no sistema de ordenha (colocação, retirada ou queda de teteiras), a válvula reguladora de ar se fecha e a bomba de vácuo "recebe" uma carga de trabalho maior, necessitando de maior amperagem para realizar esta função rapidamente. Se o gerador foi projetado para trabalhar na sua capacidade máxima, a bomba responderá com lentidão, ocasionando uma maior flutuação de vácuo no sistema, podendo acarretar sérios problemas à saúde da glândula mamária.
O ideal para avaliar os diferentes casos de demanda e consumo de energia elétrica na propriedade é solicitar a visita de um especialista em projetos para instalações elétricas. A manutenção dos equipamentos de ordenha e processamento de leite sempre regulados também resultam em economia de energia e devem ser realizados por profissionais capacitados e autorizados pelas empresas fabricantes.
Salientamos ainda que a crise de energia elétrica no Brasil esconde por trás de si um outro problema de maiores proporções: o da falta de água. Assim como neste momento, onde quem produz sua própria energia elétrica conseguirá ter custos menores, a conservação e otimização da água na propriedade terão grande valor dentro de pouquíssimos anos.
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1Colaboraram
Alexandre de Campos Gonçalves - Mestrando Depto. Produção Animal ESALQ/USP.
Carlos Gomes de Oliveira - Agropecuária Casa da Roça - Piracicaba/SP