Visando proteger seu sustento econômico seria mais conveniente que você firmasse contrato com um grande laticínio ou com seus colegas produtores? Essa e outras questões fizeram parte do artigo do Dr. Richard A. Levins, publicado no periódico Hoard’s Dairyman de novembro último.
Nesse artigo o autor questiona a importância da eficiência produtiva como caminho para a prosperidade de fazendas leiteiras. De que adianta um maior número de vacas, vacas de alta produção, manejo criterioso e outras tecnologias se, no momento da comercialização da produção, o lucro é dizimado pelos preços baixos pagos ao produtor.
Cita ainda que a “Eficiência é o conselho do homem rico para o homem pobre”. Esse conceito baseia-se na realidade dos grandes laticínios norte-americanos que, para elevar seus lucros, fazem uso muito mais de seus “músculos” que da eficiência produtiva. Some a esses laticínios a pressão que as grandes redes de comércio varejista impõem nos preços, e é contra esses gigantes que o produtor aparece isolado para negociar. Nessas condições, esses grandes grupos com elevado poder econômico manipulam os preços pagos ao produtor em seu favor.
Como estratégia de sobrevivência, visando assegurar sua receita, esse produtor acaba se refugiando na busca incansável pela máxima eficiência, quando na verdade é a falta de expressividade do produtor, quando isolado, que o coloca numa condição extremamente desfavorável em qualquer negociação.
Na atual conjuntura, é fundamental compreender que o poder econômico pode ser utilizado para manipular preços, para determinar termos em contratos, e até mesmo para pressionar como as “regras do jogo” serão estabelecidas pelas agências governamentais. Através do uso do poder econômico permite-se que o lucro que cabe aos produtores não seja explorado por outrem, porém, analisando as características das atuais negociações, percebemos que o produtor ainda é destituído desse poder.
A extremada competitividade entre os produtores, num mundo de gigantes, trabalha contra sua própria lucratividade de diferentes formas. É comum verificar produtores que adotam determinadas medidas que lhe trarão benefícios em curto prazo, mas que prejudicarão aos demais colegas em espaço de tempo maior. Essa acirrada competição não os deixa perceber com clareza que assim eles são minados da possibilidade de elevar seu poder econômico e consequentemente de barganha.
Numa situação onde os produtores, ao invés de competirem entre si, almejam conjuntamente outra causa, negociando de forma coletiva, surge um elevado potencial de melhorar o poder econômico da classe e a possibilidade de um maior controle sobre sua situação econômica.
Nesse novo conceito coletivo de negociação, é possível impor aos grandes grupos que nenhum leite será comercializado junto àquela companhia caso o preço pré-acordado não seja respeitado.
Grupos fortes de produtores podem ainda pleitear junto aos governos (municipal, estadual e até mesmo federal) leis mais harmoniosas em relação aos seus interesses e a necessidade destas estarem no topo da lista das prioridades legislativas. Ao invés de apenas solicitar socorro econômico, essas associações podem barganhar com maior força benefícios políticos e até mesmo econômicos, como exemplo a prioridade aos seus produtos nas merendas escolares e em outros programas públicos.
Surge uma objeção quanto ao grande número de produtores e a enorme dificuldade de agrupá-los, considerando sua independência e competitividade. Em relação a isso, é possível visualizar boas e más notícias. Saber que apenas um número reduzido de produtores estaria disposto a aderir a idéia do trabalho conjunto é realmente triste. No entanto, um grupo menor é geralmente mais coeso, e consegue de forma mais fácil constituir um forte poder econômico, ao qual os demais produtores lentamente vão se unindo. As dificuldades para tanto são imensas, mas o exemplo de muitos outros setores da economia que passaram por circunstâncias comerciais semelhantes mostra que não é impossível.
Apenas os produtores podem decidir entre partir para uma ação coletiva ou continuar a negociar de forma isolada. Os produtores sabem que, com a globalização, cada vez mais terão de negociar com gigantes econômicos, contudo, eles não estão certos do que fazer a respeito. Quantifique o valor de seu isolamento, e avalie se você é mais independente negociando os termos de um contrato com uma grande companhia sozinho ou em conjunto com seus colegas produtores, em que condição você poderá assegurar os melhores termos possíveis.
A força econômica exigida pelo mercado está diretamente ligada ao poder de negociação e a pressão política das partes envolvidas. É preciso reconhecer que nenhum produtor sozinho será grande o suficiente para enfrentar as grandes corporações. No entanto, agindo unidos em escala nacional, serão os grandes que virão ao encontro dos produtores para negociação de um preço justo pelo leite.
Adaptado do texto do Dr. Richard A. Levins publicado no periódico Hoard’s Dairyman, Novembro 2001
Material escrito por:
Alexandre de Campos Gonçalves
Acessar todos os materiaisPaulo Araripe
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REINALDO
PONTES E LACERDA - MATO GROSSO - PRODUÇÃO DE GADO DE CORTE
EM 22/01/2002
Gostei muito, continuem. Parabéns.

MARCUS DOS SANTOS KEMP
OUTRO - RIO DE JANEIRO - PRODUÇÃO DE GADO DE CORTE
EM 17/01/2002
Estão certas as colocações feitas no presente artigo. Temos operado com um grupo de 8 produtores vendendo aproximadamente 12000 litros por dia e conseguido alguma vantagem nas negociações com a indústria. Porém existe muita dificuldade em alongarmos os prazos nas negociações, como vender a produção para os próximos 60 ou 90 ias, aparecendo sempre como motivos a instabilidade do mercado, volatilidade do dólar e outros argumentos que não são conviencentes a produtores que não são novos no mercado (+ de 10 anos).
A impressão que tenho é que a indústria não quer sair da confortável situação de, em primeiro lugar, fechar seu preço de venda do mês e, após este evento, fechar o preço a ser pago aos produtores, garantindo sua margem de lucro.
Gostaria de saber se esta equipe tem algum exemplo de contrato de comercialização celebrado com sucesso nos últimos 3 anos no Brasil.
Para mim é inaceitável que produtores e indústria não consigam vislumbrar quanto vale o litro de leite para os próximos três meses, estando todos dentro da atividade há bastante tempo, insistindo em manter as negociações num horizonte de trinta dias.
Um forte abraço e até mais, Marcus dos Santos Kemp
Resposta MilkPoint: <i><font color="#006666">de fato, não temos conhecimento de contratos de longo prazo que não tenham sido rompidos quando sobra leite ou quando as condições de mercado se deterioram. Houve um contrato entre a EMBRAPA - CNPGL e um latícinio privado (Parmalat, se não me engano), mas creio ser uma exceção no mercado, inclusive pelo fato de se tratar da EMBRAPA. Marcelo P. Carvalho</i></font>
A impressão que tenho é que a indústria não quer sair da confortável situação de, em primeiro lugar, fechar seu preço de venda do mês e, após este evento, fechar o preço a ser pago aos produtores, garantindo sua margem de lucro.
Gostaria de saber se esta equipe tem algum exemplo de contrato de comercialização celebrado com sucesso nos últimos 3 anos no Brasil.
Para mim é inaceitável que produtores e indústria não consigam vislumbrar quanto vale o litro de leite para os próximos três meses, estando todos dentro da atividade há bastante tempo, insistindo em manter as negociações num horizonte de trinta dias.
Um forte abraço e até mais, Marcus dos Santos Kemp
Resposta MilkPoint: <i><font color="#006666">de fato, não temos conhecimento de contratos de longo prazo que não tenham sido rompidos quando sobra leite ou quando as condições de mercado se deterioram. Houve um contrato entre a EMBRAPA - CNPGL e um latícinio privado (Parmalat, se não me engano), mas creio ser uma exceção no mercado, inclusive pelo fato de se tratar da EMBRAPA. Marcelo P. Carvalho</i></font>