A polpa de citros é um alimento energético, sub-produto da indústrica de suco de laranja, e nos últimos anos ganhou popularidade entre os criadores de bovinos de corte e leite. Com frequência nota-se diferenças (na aparência) entre os produtos dos diferentes fornecedores e até mesmo entre as diversas "partidas" de uma mesma empresa. A secagem da polpa é realizada em secadores a óleo ou a vapor e dependo da combinação de tempo e temperatura de secagem pode resultar em produtos variando de tonalidades bastante claras a polpas totalmente carbonizadas.
Um experimento conduzido na UNESP de Jaboticabal avaliou o efeito da utilização de polpa de citros peletizada "normal" (PCN) ou "queimada" (PCQ) na digestibilidade de dietas para bovinos. Para tal foram utilizados 10 bovinos machos castrados (holandês x zebú), confinados, que receberam dietas à base de silagem de milho, levedura de cana, uréia, sal mineral e polpa de citros "normal" ou "queimada". Além do tratamento testemunha, o experimento comparou dois níveis de polpa na dieta: 40 ou 60%.
A começar pela composição bromatológica, as diferentes polpas apresentaram características distintas. Os teores de fibra detergente neutro (FDN) e fibra detergente ácido (FDA) foram superiores na PCQ (21,0 e 28,5% para o FDN e 22,6 e 26,8% para o FDA respectivamente na PCN e PCQ). Estes valores superiores possivelmente são resultado da contaminação destas frações com proteína que se ligou à fibra, conforme apontam os valores de proteína insolúvel em detergente neutro (22% da PB na PCN e 27% da PB na PCQ), e proteína insolúvel em detergente ácido (6% da PB na PCN e 19% da PB na PCQ), que foram superiores na polpa queimada. Esta proteína ligada à fibra tem baixa disponibilidade ao animal e o processo de secagem excessiva contribuiu para aumentar ainda mais esta fração.
Segundo os autores, as análises estatísticas demonstraram que não ocorreu interação entre as duas variáveis experimentais: tipo de polpa cítrica x nível de inclusão na dieta e, portanto, os efeitos destas variáveis foram analisados independentemente.
Não houve diferença significativa quando se comparou a digestibilidade aparente das dietas com diferentes níveis de polpa (40 ou 60%), com exceção da digestibilidade da proteína bruta, que foi inferior no tratamento com maior inclusão de polpa de laranja. Quando comparadas à dieta testemunha (sem polpa), as duas dietas apresentaram maior digestibilidade da matéria seca, FDA, FDN e carboidratos não estruturais, além de maior concentração energética (NDT e EB), mas apresentaram digestibilidade significativamente inferior para as frações de proteína bruta, e proteínas insolúveis em detergentes ácido e neutro.
Quando a avaliação foi feita em relação ao tipo de polpa (normal x queimada), os coeficientes de digestibilidade foram superiores nos dois tratamentos com polpa de laranja se comparados à testemunha, novamente com exceção da proteína bruta, e proteínas insolúveis em detergentes ácido e neutro. Por sua vez, a polpa de citros "normal" foi superior à polpa de citros "queimada" para todos os parâmetros avaliados, conforme pode ser observado na tabela 1 abaixo.

Estes menores coeficientes de digestibilidade da proteína em dietas com inclusão de polpa de citros estão em concordância com vários outros experimentos e pelo presente trabalho parecem estar condicionados ao processo de secagem. Em contrapartida o trabalho confirma a alta digestibilidade da fração fibrosa da polpa e seu alto valor energético.
Os coeficientes de digestibilidade da polpa de citros, obtidos por diferença (dietas com polpa - dieta controle), também apontam para maior digestibilidade da polpa "normal" em comparação à polpa "queimada", conforme pode ser constatado na tabela 2.

Comentário do autor: Estes dados demonstram a importância da qualidade dos ingredientes de uma dieta. O produtor precisa ficar atento e passar a exigir qualidade constante de seus fornecedores. A dificuldade neste caso talvez seja estabelecer com precisão e de forma prática a diferença entre uma polpa "normal" de outra "queimada".
As dietas deste experimento não eram isonitrogenadas, sendo que as dietas com maior participação de polpa tinham menor teor (respectivamente 13,8, 11,1 e 9,8% de PB para as dietas testemunha, com 40 e 60% de polpa) e suplementação protéica (através da levedura e uréia), o que pode ter influenciado a grande diferença de digestibilidade da fração protéica das dietas, já que estas ficaram progressivamente mais dependentes proteína oriunda da polpa, sabidamente de baixa qualidade.
fonte: BRUNO, J. R. e MORENO, T. T. B., 2000. Monografia apresentada à Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias para graduação em Zootecnia. UNESP - Jaboticabal.