O nascimento do bezerro é o final do processo reprodutivo. Aquela vaca que muitas vezes deu trabalho para conceber não pode ter sua cria perdida no momento do parto. Mesmo porque, normalmente até o nascimento não se sabe se esta cria será um macho, de pouco valor econômico, ou uma fêmea, que pode vir a melhorar o rebanho ou ser comercializada por um bom preço no futuro. Sendo assim, é importante que se tenha conhecimento de alguns princípios e procedimentos simples que podem salvar alguns animais no momento do parto. Estes cuidados requerem pouquíssimo senão nenhum investimento em dinheiro, mas é preciso que alguém tenha o conhecimento e a incumbência de colocá-los em prática.
Primeiro princípio: tenha em mente que o processo de parto sob condições normais é um evento continuamente progressivo. Existem três estágios gerais neste processo: 1) relaxamento e dilatação da cérvix; 2) contrações ativas para expulsão do bezerro e 3) liberação da placenta e involução do útero. Cada estágio conduz ao próximo.
Estágio 1 - Existem poucos sinais de atividade uterina sendo que a vaca pode somente demonstrar alguma impaciência, levantar o rabo ocasionalmente ou parecer desconfortável. Durante todo este período o útero estará contraindo de forma a forçar as membranas cheias de fluidos através da cérvix que está dilatando. Este estágio pode durar até 24 horas.
Estágio 2 - Este estágio inicia quando a placenta ou as membranas aparecem através da vulva e termina quando o bezerro nasce. Neste ponto, o "cronômetro" que determina se o bezerro irá sobreviver começa a contar. Quanto mais tempo levar, maior a mortalidade. Vacas adultas normalmente levam 30 minutos à 1 hora para dar a luz aos bezerros a partir do aparecimento das membranas. Novilhas de primeira cria freqüentemente levam mais tempo, em média 1 a 4 horas. Uma vez despontado o bezerro, ele nunca deve voltar para dentro. Conforme o tempo passa, mais e mais do bezerro deve ser visto enquanto a vaca continua a contrair.
Estágio 3 - Liberação da placenta ou membranas. Idealmente deve ocorrer, no máximo, nas primeiras 24 horas após o parto.
Segundo princípio: Mantenha uma prancheta com papel e caneta à mão nas proximidades da maternidade para anotar quando a membrana aparece. Também anote o momento da ruptura das membranas. Se a vaca for recolhida a uma baia maternidade, anote de forma visível na baia seu número e os horários. Controle o tempo decorrido desde o aparecimento das membranas. Lembre-se que a falta de progresso no processo de parto é um sinal muito forte da existência de algum problema. Examine vacas adultas dentro de uma hora após o aparecimento das membranas caso o bezerro não tenha "despontado" ou então se o bezerro apareceu mas não houve progresso na sua saída através da vulva nesse período. Dê às novilhas no máximo 2 horas antes de examiná-las para identificação de problemas. O cronômetro da sobrevivência está correndo todo este tempo! A espera muito longa é uma das maiores causas de morte ao nascer.
Terceiro princípio: Seja muito higiênico ao examinar as vacas para possíveis problemas. Após prender a vaca, coloque luvas e limpe a vulva e toda a traseira da vaca intensamente com muita água morna e sabão desinfetante. É sempre aconselhável amarrar o rabo da vaca a ela mesma para mantê-lo fora do caminho. Não amarre o rabo a cercas ou pilares já que isto pode machucar a vaca no caso dela se deitar ou escapar. Estando você e a vaca limpos, aplique lubrificante nos seus braços e à vulva da vaca e gentilmente examine a colocação do bezerro dentro do canal.
Quarto princípio: Determine a posição do bezerro e, se necessário e sendo possível, coloque-o na posição correta para o nascimento, com a cabeça entre as patas dianteiras ou, no caso de estar virado, com ambas as patas traseiras entrando no canal uterino. Tenha em mente que pode ser necessário empurrar o bezerro novamente para dentro para ter espaço para a manipulação das patas e cabeça. Também fique atento para a possibilidade de mais de um bezerro, especialmente se parece ter pernas demais no canal. Lembre-se que as patas dianteiras têm três juntas até o cotovelo, enquanto as patas traseiras têm somente duas juntas até o jarrete.
Quinto princípio: Antes de tentar puxar o bezerro, aplique pelo menos 4 litros de lubrificante no canal vaginal. Isso mesmo: neste caso é melhor pecar pelo exagero que pela falta. Após começar a puxar, será muito difícil adicionar mais lubrificante quando o bezerro estiver entalado.
Sexto princípio: Não tenha muita pressa para tirar o bezerro. Deixe a vaca auxiliá-lo na retirada. Quando a vaca contrair, você puxa. Quando a vaca relaxar, apenas mantenha pressão suficiente para que o bezerro não volte para dentro. Contenha o entusiasmo de usar qualquer outro equipamento que não uma corrente ou corda apropriados e no máximo duas pessoas puxando. Quando os ombros ou ancas do bezerro tiverem passado através da vulva, puxe na forma de um arco em direção aos pés da vaca. Isto deve prevenir injúrias à coluna. Sempre confira se não há um segundo bezerro, especialmente se o primeiro parecer muito pequeno.
Sétimo princípio: Se o útero parecer virado quando você examinar o bezerro; o bezerro parecer muito grande; ou você não for capaz de puxar facilmente o bezerro após tê-lo colocado na posição apropriada, PARE! Simplesmente pare e chame o veterinário para dar assistência. Tentativas de forçar a saída do bezerro irão unicamente levar à morte do bezerro e complicações pós-parto para a vaca.
Lembre-se que o parto é um processo progressivo e, portanto mantenha controle do tempo de ocorrência dos eventos. Mantenha a higiene ao examinar a vaca para identificar problemas. Deixe a vaca auxiliá-lo a retirar o bezerro e peça ajuda antes de aplicar força excessiva.
Se a mortalidade ao nascer parecer muito elevada em sua fazenda considere contratar uma pessoa especificamente para esta finalidade. O salvamento de uma bezerra por semana muitas vezes paga esta despesa adicional. Gaste algum tempo no treinamento dos funcionários, juntamente com seu veterinário. Isso irá evitar a perda de bezerros.
Comentário Milkpoint: vale a pena frisar que o controle do tempo do processo de parto é importante para evitar mortes, mas também é essencial que se respeite o tempo mínimo para que todo o processo de expulsão seja desencadeado. A pressa em "puxar" os bezerros também pode ser prejudicial ao bezerro e à vaca, que normalmente acaba tendo complicações pós -parto.
Fonte: Kirk, John H., 2000. Reducing the Number of DOA Calves. Veterinary Medicine Extension Fact Sheets & Info. University of Califórnia Davis. August.
Dicas para reduzir o número de bezerros "mortos ao nascer"
Publicado por: José Roberto Peres
Publicado em: - 5 minutos de leitura
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José Roberto Peres
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