A estreita margem de lucro da pecuária leiteira força o produtor a buscar o máximo aproveitamento de todos os recursos, visando que a economicidade da atividade não seja comprometida. Nesse contexto, é preciso despender toda atenção possível para que um grande inimigo, o desperdício, não interfira negativamente no processo de produção.
O Sistema Toyota de Produção elaborado pelo Dr. Eiji Toyoda e Dr. Taiichi Ohno, é hoje considerado um dos melhores modelos administrativos. Esse modelo postula que é o desperdício um dos maiores entraves ao sucesso dos empreendimentos, levando à ineficiência do processo produtivo e onerando todo sistema, chegando até mesmo a inviabilizar a atividade. Esses autores explicam que o desperdício pode se manifestar de diferentes formas estando normalmente relacionado ao esforço humano, a materiais (insumos, rebanho, etc.), ao espaço e ao tempo. São sete os tipos principais de desperdício identificados para indústria automobilística, no entanto, todos eles cabem perfeitamente para o setor agropecuário.
1o TIPO --> Tempo perdido refazendo serviços ou consertando aquilo que foi mal feito - ocorrência comum em praticamente todo tipo de atividade humana, por exemplo, aquele velho portão da fazenda que foi remendado inúmeras vezes antes que acabasse machucando alguém ou algum animal, para só então finalmente ser consertado de forma correta.
2o TIPO --> Produção além do necessário ou em época inadequada - são comuns as reclamações devido ao baixo valor do leite "extra cota", porém menos comum é o produtor atento a um bom planejamento da atividade visando adequar a produção ao longo do ano todo. Outro fato é a busca desenfreada de alguns pecuaristas por uma máxima produção individual do animal esquecendo, por vezes, que ela pode derivar de uma despesa além do benefício adicional gerado.
3o TIPO --> Operações desnecessárias no processo de produção - um bom exemplo são aquelas propriedades que acabam gastando demasiadamente com produtos veterinários e operações de manejo pelo simples fato de não adotar um plano de controle sanitário preventivo.
4o TIPO --> Transporte - programar as compras de insumos e as "viagens" à cidade para buscá-los pode representar uma economia muito grande de tempo e recursos.
5o TIPO --> Armazenamento (estoque) - armazenamento incorreto de insumos e até mesmo da produção normalmente leva a perda da qualidade do produto e a contaminação do mesmo. Grandes estoques são um sério problema pelo espaço físico que tomam e pelos riscos de perdas a que estão submetidos.
6o TIPO --> Movimento humano - planejando as atividades diárias é possível maximizar o desempenho dos funcionários e evitar que enquanto um trabalha outros apenas observam e dão palpite.
7o TIPO --> Espera - quantas vezes o mal estado de conservação de ferramentas ou a procura por elas provocou desperdício de tempo, quando guardando-as em local adequado e cuidando para mantê-las sempre em ordem poderia evitar atrasos?
Dentre as formas de desperdício algumas podem ser consideradas inevitáveis, como, por exemplo, determinados gastos com espera, transporte, deslocamentos e outros. Entretanto, a grande maioria deles é passível de correção e deve ser combatida com afinco para evitar que prejudiquem a atividade. O modelo projetado para Toyota prevê as seguintes práticas de controle do desperdício:
1o PASSO --> Racionalização da força de trabalho - formação de grupos de trabalho com líder ao invés de supervisor (chefe), de forma que esse líder também auxilie na execução do serviço. Essa prática leva a uma forte mentalidade de trabalho de equipe baseado no compromisso com o resultado e na autogestão do grupo.
2o PASSO --> Fazer certo da primeira vez - funcionários responsáveis, engajados e bem capacitados dispensam a necessidade de supervisores; toda etapa deve ser encarada como a última antes da entrega do produto pronto, de modo que cada qual faça sempre o melhor trabalho possível visando assegurar a qualidade do produto, a satisfação do cliente e o sistema de produção ao qual está inserido.
3o PASSO --> "Just in time" - é fundamental trabalhar com o mínimo de estoque possível, estabelecendo uma grande sintonia entre a necessidade de insumos, o estoque disponível e os prazos de entrega dos fornecedores. A Toyota adotou o "kanban" que são fichas onde são anotadas as necessidades de insumos, a disponibilidade dos mesmos nos estoques, a retirada deles para uso e a necessidade de reposição do estoque e época em que deve ocorrer.
4o PASSO --> Produção flexível - acompanhando a demanda e os valores pagos pelo produto, permitindo assim a adequação do sistema de produção ao mercado. O exemplo disso é o impacto que uma sobrevalorização de determinados insumos causa no setor lácteo, onde por vezes uma redução na produção pode ser benéfica pela grande redução nos custos de aquisição de dado insumo que proporciona.
5o PASSO --> Corrigir causa fundamental dos erros - sempre que surgir um problema é preciso perguntar insistentemente a razão até encontrar a raiz do problema e corrigi-la, evitando desta forma medidas paliativas.
6o PASSO --> Utilização de círculos de qualidade - formados por grupos de funcionários ligados a área de trabalho que se reúnem regularmente para estudar e propor soluções aos problemas que comprometem a qualidade e a eficiência dos produtos e do sistema de produção. São esses círculos de qualidade o modelo japonês de administração participativa onde todos, absolutamente todos, se envolvem no processo.
Com base no que foi exposto, cabe a cada produtor estabelecer um plano de controle do desperdício em sua propriedade, buscando anular os efeitos nocivos que este vilão é capaz de embutir no processo de produção. Por fim, fica a metodologia apregoada pelo Dr. Kaoru Ishikawa para coibir o desperdício, onde todo problema identificado deve ser questionado quanto às causas que levam a ele:
1o --> Identificar as fontes de prejuízo;
2o --> Identificar quais os problemas que causam esses prejuízos;
3o --> Determinar quais são os problemas prioritários e que, portanto, precisam de maior atenção;
4o --> Propor soluções e formas de implementá-las para corrigir os problemas detectados.
Material escrito por:
Alexandre de Campos Gonçalves
Acessar todos os materiaisPaulo Araripe
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CELSO PEREIRA DE MATOS
JUNDIAÍ - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 16/03/2003
Gostaria de parabenizar pelo excelente artigo e comentar que os princípios elucidados, com adaptações, podem ser aplicados em qualquer parte. Não sou produtor rural (se Deus quiser, um dia...), mas a lógica do que foi levantado fala por si só. O foco tem que ser na rentabilidade (até de tempo livre se for o caso). Sempre é preciso fazer contas.