Dando seqüência ao artigo anterior, seguiremos abordando os custos indiretos que rondam a atividade leiteira, relacionados em sua maior parte às perdas de eficiência e qualidade do processo de produção. Este artigo tem por foco alguns dos principais pontos onde os custos indiretos acometem o Setor Pecuário (responsável pela criação e manejo dos animais) podendo gerar grandes déficits financeiros, caso não sejam coibidos com veemência.
TIPO DE REBANHO E SISTEMA DE PRODUÇÃO
Adequar um determinado "tipo" de animal ao sistema de produção específico de cada Fazenda pode ser complexo a ponto de inviabilizar a atividade. Um exemplo claro disso são os diversos produtores que exploram animais de menor potencial de produção de leite em sistemas confinados, com fartas porções de concentrados na dieta, onde o maior custo de manutenção de cada vaca acaba, inúmeras vezes, não sendo coberto pela receita com o leite que o animal produz. Por outro lado, também é comum verificar produtores que adquirem animais caros e de grande potencial de produção de leite, e os submetem a condições de manejo e alimentação que não permitem que este potencial seja atingido, não justificando o emprego de um animal tão caro quando outro mais em conta poderia ser utilizado com, no mínimo, o mesmo sucesso. Dessa forma, é preciso ficar claro que para cada modelo de exploração, característico de cada propriedade rural, existe um "tipo" de animal que melhor se adapta, possibilitando os melhores resultados econômicos. Portanto, procure os técnicos que atendem sua propriedade e verifique se seu sistema de produção e seu rebanho estão compatíveis.
DIETA, PRODUÇÃO E CATEGORIA ANIMAL
Cada animal tem uma determinada exigência nutricional que varia conforme suas necessidades de manutenção e produção de leite, que é atendida através da combinação equilibrada de diferentes alimentos. Por isso, muito cuidado com aquelas receitas caseiras do tipo: "dê um quilo de concentrado para cada 3 litros de leite produzido" ou "forneça 4 quilos do alimento "z" que eu dei pro meu rebanho e o pêlo alisou" . Cuidado também com aquelas situações onde o produtor adota o uso de alimentos volumosos de baixa qualidade e para suprir as deficiências desse pior alimento passa a utilizar quantidades cada vez maiores de alimentos concentrados. Existem ainda os casos onde a falta do planejamento da alimentação do plantel como um todo, leva a um gasto excessivo com a alimentação dos animais menos exigentes e ao não atendimento das necessidades dos mais exigentes. Portanto, lembre-se sempre que dieta boa e barata é aquela balanceada para assegurar a produção de leite planejada e permitir aos animais que permaneçam em boas condições de saúde e reprodução. Cada vez que há um problema nutricional, isso repercute diretamente na produção, reprodução ou saúde do animal, e com isso, inúmeros custos indiretos vêm à tona.
Um exemplo claro disso tudo, ocorreu numa determinada propriedade no Vale do Ribeira, onde um produtor fornecia cerca de 8 quilos de concentrado para cada animal de seu rebanho diariamente independente de sua categoria, e chegara a essa quantia por perceber que cada vez que diminuía o concentrado, a produção se reduzia. Neste caso, foi diagnosticado que o maior entrave era a baixíssima qualidade do alimento volumoso fornecido somado à total falta de balanceamento nutricional da dieta. A solução foi reordenar todo plano de manejo, corte e fornecimento de capim picado e de exploração das pastagens e formular um alimento concentrado que atendesse as características deste plantel conforme cada lote de animais. O resultado final implicou numa economia de 4 a 5 quilos de concentrado por animal diariamente, numa melhor condição de saúde de todo plantel e, mesmo com o pequeno incremento nos gastos com a assistência técnica e para manutenção das pastagens e capineiras, num saldo econômico que permitiu que pela primeira vez em 9 anos de exploração da pecuária leiteira a Fazenda saísse do vermelho.
PRÁTICAS SANITÁRIAS
Da mesma forma que fora dito no artigo anterior para o manejo dos defensivos no trato das lavouras, é imprescindível que o uso de produtos veterinários seja feito de forma consciente e correta, evitando assim danos fisiológicos aos animais, contaminação do meio ambiente e do próprio leite, além do prejuízo econômico (custo indireto) derivado destes e do maior gasto, por vezes desnecessário, com esses produtos e sua aplicação. O ideal é elaborar com o veterinário que atende a propriedade um calendário sanitário preventivo e definir quais as práticas que devem ser adotadas em casos de emergência.
PRÁTICAS DE MANEJO - ORDENHA, BEZERROS, ETC.
Dentro das inúmeras práticas realizadas no manejo dos animais, uma infinidade de custos indiretos podem surgir. Equipamentos e instalações mal dimensionados, conservados e limpos são responsáveis por muitos deles, desde lesões físicas nos animais até a perda maior de tempo com determinada operação que, embora mais difícil de quantificar, acaba onerando mais ainda a atividade. Mantenha as coisas em ordem; mesmo que isso possa representar um gasto momentâneo, a economia futura certamente é bem maior. Nunca adquira um produto ou equipamento sem certificar-se de sua eficácia e adequação às condições específicas de seu plantel; é comum encontrar "grandes" equipamentos em rebanhos pequenos sendo que ficam sub-utilizados, ou pior, casos onde se adota de forma completamente equivocada o uso de um dado equipamento quando ele nem sequer serve àquele fim.
CONTROLE ZOOTÉCNICO
Manter um controle zootécnico rigoroso do plantel, quanto às coberturas, parições, produção de leite, aspectos sanitários e outros é imprescindível. Mas isso tudo não vale nada se não servir de base para a tomada de decisões sobre o manejo na propriedade. Atualmente existem programas de computador com diversos recursos gráficos e relatórios que causam grande impacto visual, mas que só vão ter seu valor reconhecido se forem efetivamente analisados e utilizados para direcionar o manejo. Contudo, não se importe se as informações de seu plantel ainda são anotadas em cadernos; preocupe-se primeiro em como utilizá-las adequadamente para conhecer melhor seus animais, e para definir quais práticas devem ser efetuadas, em que proporção e quando.
QUALIFICAÇÃO DA MÃO-DE-OBRA
Esse é um ponto delicado e que já mereceu, inclusive, um artigo à parte. No entanto, dada a importância daqueles que efetivamente "tocam" a atividade, algumas considerações precisam ser feitas. Cada vez que um serviço é realizado de forma correta, ele provoca uma série de economias ligadas à não necessidade de promover reparos e "quebra-galhos", e com isso o menor gasto com material e tempo que sua mão-de-obra fica retida com sua execução.
Agora procure imaginar que ao investir na capacitação de seus funcionários, além do benefício gerado pela melhoria na execução das tarefas diárias, este cidadão sentir-se-á valorizado e com isso provavelmente irá cada vez mais "vestir a camisa" de sua Fazenda. Por fim, o grande medo do proprietário, isto é, no caso dele solicitar um aumento de salário, faça as contas, veja se ele gerou uma efetiva redução nas despesas e/ou aumento da eficiência do processo de produção, e também se realmente aumentou a responsabilidade dele para com a atividade. Nessas circunstâncias, é até justo que ele receba algum adicional.
Nem sempre as despesas são claras numa atividade, seja ela urbana ou rural. Portanto, observe com mais atenção as nuances de cada etapa do processo produtivo, e procure identificar os pontos onde é possível realizar as tarefas com maior rapidez, qualidade e economia. Ao fazer isso, você estará caminhando para reduzir os custos indiretos da atividade, ou seja, os custos da ineficiência, e desta forma estará caminhando para compreender melhor seu sistema de produção e extrair dele o melhor possível. E mais uma vez, repito, não fique surpreso se esses custos indiretos apresentarem-se como os grandes vilões de sua atividade.
Custos indiretos: II - Setor pecuário
Publicado por: Alexandre de Campos Gonçalves
Publicado em: - 6 minutos de leitura
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Alexandre de Campos Gonçalves
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