Custos indiretos: I - Setor agrícola

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Compreende-se que em todo empreendimento agropecuário cabe à equipe de gerência (proprietários, equipe técnica e administradores) coordenar os trabalhos de forma a potencializar o desempenho econômico, quer seja através da busca constante por uma maior produtividade e/ou pela redução dos custos de produção.

Porém, todo processo produtivo está envolto em uma série de custos indiretos, em geral relacionados a perdas. Estes custos são muitas vezes difíceis de serem identificados, mensurados e cerceados, podendo tomar vulto a ponto de comprometer a viabilidade da atividade como um todo. Fica, portanto, nas mãos da gerência promover o combate às perdas e ao desperdício. Compreendam ainda, que quando numa dada prática não atingimos todo seu potencial, estamos tendo um custo indireto, não por perda física de alguma coisa, mas por aquilo que se deixou de ganhar.

Para facilitar a identificação desses custos indiretos no universo da atividade leiteira, vamos pinçar os principais deles dentro dos principais setores da Propriedade. No presente artigo a idéia é comentar sobre o setor agrícola, responsável pela produção, preparo e conservação dos alimentos utilizados na dieta do rebanho. A abordagem do setor pecuário, responsável pela criação e manejo dos animais, ficará para o artigo subseqüente.

O setor agrícola apresenta algumas particularidades que, uma vez compreendidas, auxiliam em muito a gerência no controle das perdas e redução do desperdício. Alguns dos pontos mais importantes a serem observados são:

SISTEMA DE PRODUÇÃO

Com base nas características levantadas numa avaliação criteriosa das condições ambientais disponíveis na propriedade (relevo, fertilidade e classificação dos solos e aspectos climáticos), do perfil do proprietário e do quadro de funcionários (capacitação, envolvimento, tempo de dedicação e número), do parque de máquinas e implementos agrícolas (potência, autonomia e número), da infra-estrutura de apoio (barracões, silos, depósitos, etc.), e do plantel disponível ou desejado (produção média, tamanho, raça e outros), é preciso definir em linhas gerais que sistema de produção será adotado.

É fundamental que todos os membros da gerência compreendam bem o funcionamento do sistema selecionado, os investimentos necessários e o tempo de resposta deles. Muitos são os casos onde proprietários modificam continuadamente o sistema de produção almejando respostas imediatas; no entanto não dão o tempo necessário para que o sistema dê o retorno esperado. Em outros casos ocorre a tentativa de copiar modelos de sucesso de outros, porém, sem o cuidado de avaliar a viabilidade dos mesmos nem tampouco adaptá-los as particularidades de cada propriedade. Com isso grandes somas de dinheiro são literalmente desperdiçadas (custos diretos e indiretos), e muitas práticas de manejo importantes caem em descrédito. Um bom exemplo, são as propriedades que exploram de maneira equivocada os sistemas de pastejo rotacionado e ao invés de benefícios, conquistam a diminuição da produtividade dos pastos e acabam oferecendo aos animais alimentos com pior valor nutricional, reduzindo também a produção geral. Portanto, ao adotar uma "nova tecnologia" certifique-se de estar fazendo da forma correta, caso contrário, somente aumentarão os custos enquanto os resultados permanecerão iguais ou piores.

ESCOLHA DAS ESPÉCIES FORRAGEIRAS - PASTOS, CAPINEIRAS E LAVOURAS

É preciso que os pecuaristas parem com a eterna busca por uma planta forrageira ideal, ou seja, àquela planta "milagrosa" que produz um excelente alimento em fartas quantidades sem requerer cuidado algum com sua adubação e manejo e adaptando-se as mais severas condições de clima e solo. Ao deixar essa busca insana de lado, o produtor consciente verificará que ao selecionar de forma técnica plantas forrageiras mais adequadas para sua propriedade, poderá encontrar no rol muitas daquelas que já utilizou ou ainda utiliza, e que quando elas são conduzidas de forma correta, tem potencial para lhe proporcionar grandes respostas em produção e qualidade.

Quantas são as histórias de produtores que copiaram sistemas de produção vistos em revistas e televisão sem o cuidado de averiguar se aquelas plantas utilizadas eram adaptadas às condições de clima e de solo de suas propriedades, e ao manejo a elas imposto. O resultado? Ineficiência gerando grandes custos indiretos.

ÉPOCA DE CULTIVO

Cada planta tem um momento ótimo de plantio, tratos culturais e colheita, que possibilita os melhores resultados em termos de produtividade (Figura 1). Para chegar próximo a esse momento ideal, é preciso que o produtor e sua equipe técnica cerquem-se de um bom conhecimento do ciclo de desenvolvimento da planta em uso e das características da localização do campo de produção (solo e histórico climático), com base em todas essas informações pode-se determinar o momento adequado para estabelecer o cultivo, verificando sempre se há riscos dos tratos culturais e, principalmente, da colheita caírem em épocas inadequadas, gerando atrasos que culminam em perdas em produtividade e, consequentemente, em mais custos indiretos.



Figura 1 - Relação entre a época de cultivo e a produtividade da planta forrageira.


PRÁTICAS DE MANEJO, SELEÇÃO E USO DE INSUMOS

Planeje adequadamente todas as operações que possam ser necessárias para condução de sua planta forrageira. Levante os insumos necessários e as quantidades de acordo com as recomendações de sua equipe técnica, e determine o momento em que serão necessários. Comece antecipadamente a compra buscando preços e condições de pagamento mais atraentes. Nunca deixe as coisas para última hora, pois nessas condições a falta de tempo ou a limitação da oferta no mercado podem exigir uma busca mais acirrada pelos insumos, forçando-o muitas vezes a substituí-los por outros menos eficientes e/ou mais caros. Uma vez comprados, os insumos ou equipamentos devem ser armazenados corretamente para não dar espaço as perdas.

Lembre-se que existe uma maneira e momento ideal para realização de determinadas operações (pulverizações, adubações, etc.), e que qualquer atraso ou adiantamento pode implicar em queda de eficácia da prática e, consequentemente, em aumento dos custos indiretos. Exemplo disso é uma aplicação desordenada de inseticidas, que acabam tendo seu efeito limitado conforme o estágio de desenvolvimento dos insetos, forçando o produtor a lançar mão de novas pulverizações para coibir que o ataque das pragas leve a um volume de perdas muito grande. Neste exemplo, além dos prejuízos econômicos pelo aumento das operações necessárias e pela redução da produção, pede o ambiente pela maior aplicação de defensivos químicos e/ou pela maior compactação do solo.

Em hipótese alguma sabote seu sistema deixando de realizar alguma operação ou aplicação de insumos, isso certamente resultará em um aumento exagerado dos custos indiretos pela queda abrupta em produtividade.

SELEÇÃO E USO DO PARQUE DE MÁQUINAS

É crucial adequar todas as operações agrícolas necessárias dentro do calendário previsto, visando evitar que qualquer imprevisto venha a comprometer toda a logística de condução da cultura. Outro aspecto importantíssimo é o ritmo com que as operações são realizadas, ou seja, a taxa de serviço ou velocidade de execução dos serviços, essa deve considerar finais de semana (folgas) e dias de chuva e de impossibilidade de trânsito de máquinas devido à lama.

Para tanto, faça uma listagem de todas as operações agrícolas para o cultivo das plantas forrageiras e do tempo gasto com elas. Defina então quais são as máquinas e equipamentos necessários e verifique no atual parque de máquinas aqueles que são realmente úteis e troque o excedente por aqueles que faltam, lembrando sempre que de nada adianta um número grande de equipamentos e máquinas se eles não são adequados às características de sua atividade e propriedade.

Máquina sem manutenção é certeza de prejuízos, quer pela baixa eficiência com que trabalham, ou pior, por falharem em ocasiões importantes exigindo gastos ainda maiores com reparos e reformas e com serviços de terceiros enquanto estão sem condições de uso. Também, aquelas paradas e sem destino apenas geram despesas com a sua manutenção e depreciação.

COLHEITA E CONSERVAÇÃO DAS FORRAGENS

A colheita é um ponto que merece atenção redobrada, uma vez que ela encerra uma grande quantidade de custos indiretos. As principais perdas nessa operação estão relacionadas a: (I) queda no solo por fatores climáticos (ventanias) ou deficiência na colheita gerando perda direta ou contaminação (queda em qualidade); (II) maceração pela plataforma de colheita ou triagem levando a contaminação e perda de valor nutritivo; (III) desajuste no ponto ideal de colheita (Figura 2) gerando queda no valor nutritivo (colheita tardia) e dificuldades e maiores gastos com conservação (colheita precoce e tardia), sendo o correto efetuar a colheita de forma balanceada começando e terminando o mais próximo do momento ideal.



Figura 2 - Relação entre o momento das operações agrícolas e as perdas em produtividade das plantas forrageiras.


Existem ainda os custos relativos às perdas durante a conservação da forragem (ensilagem, pré-secado, fenação, outros), geralmente relacionadas a falhas no momento da armazenagem levando a contaminação e/ou ao apodrecimento parcial ou total do material.

USO E CONSERVAÇÃO DOS SOLOS

Práticas conservacionistas são vistas por diversos produtores como desnecessárias ou excessivamente dispendiosas. Provavelmente estes indivíduos não fizeram ainda as contas do quanto perdem ou deixam de ganhar em virtude do mau uso e conservação do solo. Citando alguns exemplos, será que eles já quantificaram quanto de adubo e solo são perdidos com as enxurradas, e pior, quanto isso prejudica os cursos d'água? Quanto custa para descompactar um solo e qual a efetividade desta operação? Por fim, em quanto está sendo limitada a produção das plantas forrageira pelas restrições das condições do solo surgidas com o uso inadequado e a falta de conservação?

Com esse artigo tivemos a intenção de forçar o leitor a refletir sobre os muitos custos indiretos que rondam a atividade leiteira, e observar com mais atenção aqueles que acometem seu sistema de produção. Não fique surpreso se esses custos oriundos das perdas em produção e eficiência aparecerem como grandes vilões de sua atividade.
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Material escrito por:

Alexandre de Campos Gonçalves

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