Segundo dados da pesquisa de custo de produção na Nova Zelândia e dados levantados pela FAO, juntamente com o Cepea Esalq - USP, foram construídas as figuras 1 e 2, comparativas, entre os itens do custo de produção brasileiro em 5 diferentes estados e na Nova Zelândia em duas propriedades.
Na figura 1 estão os custos operacionais efetivos, COE, que seriam os custos que impactam diretamente no bolso do produtor, o desembolso direto que o produtor tem com a atividade. A figura 2 contabiliza também os custos com depreciações de máquinas, terras, construções e animais, custos com remuneração de capital e custos relativos à mão de obra familiar, sendo designado como custo operacional total - COT.
Esses gráficos comparam as quantidades gastas pelo produtor nos diferentes itens de produção. Nas propriedades nacionais foram selecionadas as propriedades que produzem mais que 1000 litros por dia, nos estados do RS, PR, SP, MG, e em GO, em uma propriedade comercial na Nova Zelândia, e em uma propriedade experimental da Universidade da Nova Zelândia, a Lincoln University Dairy Farm.
Figura 1. Distribuição dos itens que compõem o Custo Operacional Efetivo (Nova Zelândia / Brasil).

Fonte: Cepea / FAO; dados da pesquisa
Através da figura 1 nota-se que um dos itens de maior impacto nos custos operacionais efetivos no Brasil é a alimentação concentrada, que é responsável por volta de 30% do custo, muito maior que na Nova Zelândia, onde os gastos com concentrados não chegam, a 5%. Isso se deve ao manejo da produção que é predominantemente a pasto.
Outro item da alimentação, o volumoso, apresenta diferenças na própria Nova Zelândia, porque o volumoso pode ser produzido na fazenda ou comprado, e esse fator influencia muito no preço. A propriedade Casey & Solly produz todo o volumoso utilizado na fazenda, portanto gasta menos de 5% do COE com volumoso, ao passo que a fazenda experimental da universidade Lincoln, gasta mais de 10% com volumoso. Isso se deve à compra de uma porcentagem do volumoso utilizado na fazenda, devido à área desta fazenda ser menor e não disponibilizar de área suficiente para a produção de volumosos.
Com relação ao item mão-de-obra, a Nova Zelândia apresenta um valor relativamente expressivo por ser bastante escassa neste país e, portanto, bastante valorizada, como nota-se na fazenda da universidade, Lincoln University Dairy Farm, que apresenta sua mão-de-obra exclusivamente contratada, chegando a 15% dos custos. Porém, nas propriedades comuns, os valores se equiparam aos custos com este item no Brasil. Isso porque a mão-de-obra contratada é muito otimizada e todo o trabalho da fazenda tende a ser o mais prático possível, além da mão-de-obra familiar, em que o dono e sua esposa trabalham na atividade em tempo integral. Isso proporciona uma redução de contratados e, assim, redução do custo, equiparando-se aos gastos nacionais com mão-de-obra contratada.
No Brasil, o item que ocupa o quinto lugar no ranking dos custos operacionais efetivos é o frete, que compõe em média 5% do COE. Isso é devido a diversos fatores, como custo do combustível, pedágios, condições de tráfego, longas distâncias, enfim, uma rede logística nada favorável ao transporte de um produto perecível. Dessa forma, o gasto com frete no Brasil é um item de alto custo para o produtor. Em contrapartida, na Nova Zelândia os custos com frete do leite são pagos pela cooperativa, não entrando nos custos do produtor, assim se explica a grande diferença de gastos com frete entre o Brasil (na média mais de 5% do COE) e a Nova Zelândia (menos de 0,5% do COE).
Com relação ao item energia, os gastos entre Brasil e a propriedade Casey & Solly são relativamente próximos, não ultrapassando os 3%. Porém, na "Lincoln University Dairy Farm" (LUDF) os gastos com energia chegam a 13%. Essa grande diferença deve-se ao sistema de irrigação utilizado. A fazenda da universidade conta com dois pivôs centrais, o que impacta num alto gasto com energia. Os gastos de energia com irrigação chegam próximos de 70% de toda a energia gasta nesta fazenda, o que não acontece na Casey & Solly, onde a maior parte da irrigação é feita no sistema de inundação, onde não há gastos com energia.
Com relação à reprodução, a inseminação artificial é terceirizada na Nova Zelândia e é feita pela Livestock Improvement, porém apenas as vacas são inseminadas. No caso das novilhas a reprodução normalmente é por monta natural e é responsabilidade do produtor. Na maior parte das vezes, o produtor, como é o caso da fazenda Casey & Solly, compra touros para a cobertura das novilhas no período de estação de monta, e no final do período vende esses touros por volta de 60% do valor inicial, não precisando trabalhar com manejo de touros.
Já na fazenda experimental, a LUDF, não existe monta natural, toda a cobertura é por inseminação artificial e apresentam um manejo mais exigente com relação a testes do rebanho e de prenhêz, que são feito pela empresa terceirizada. Isso torna o item reprodução para esta fazenda mais caro.
No caso do Brasil, a reprodução é feita através da inseminação artificial. Normalmente é um empregado treinado da fazenda que a executa, ou o próprio dono, e caso a inseminação não seja uma opção do produtor, ele pode comprar ou emprestar touros, tendo assim um menor custo, por isso neste item o Brasil apresenta menores custos que a Nova Zelândia.
Figura 2. Distribuição dos itens que compõem o Custo Operacional Total (Nova Zelândia / Brasil).

Fonte: Cepea / FAO; dados da pesquisa
A figura 2 apresenta a distribuição dos custos operacionais totais, que contabiliza também os gastos com mão-de-obra familiar, depreciações e remuneração do capital. Os custos relativos à mão-de-obra familiar, no caso da Nova Zelândia, tem-se apenas a propriedade Casey & Solly como exemplo, que são relativamente próximos aos das propriedades brasileiras, principalmente aquelas situadas no estado de GO, em que o item mão-de-obra familiar representa 6,8% do COT.
Os custos relativos às depreciações de máquinas, equipamentos e construções também são semelhantes nos dois países. Já o item remuneração do capital apresenta uma diferença muito significativa, devido principalmente a dois fatores que a Nova Zelândia tem em particular, como o alto custo da terra e as cotas que os produtores são obrigados a comprar para se tornarem sócios e fornecedores da cooperativa Fonterra. Esses custos chegam a representar mais de 35% do COT, como na propriedade "Casey & Solly", que fornece mais de 410.000 quilos de "MilkSolids" por ano. O valor da cota varia em função da quantidade fornecida de leite pelo produtor.
Considerando as análises da pesquisa, pode-se concluir que o sistema de produção neozelandês, comparando-se apenas os itens do custo de produção, pode ser viável no Brasil, porém apenas nas regiões do RS e PR. Nestas regiões, o custo médio por litro de leite está na casa dos R$ 0,45/litro (COT) e R$ 0,3977 (COE). Isso devido ao clima mais parecido com o da Nova Zelândia, podendo ser viável principalmente no uso da pastagem como azevém e o trevo.
Vale ressaltar, que nos demais estados produtores de leite como SP; MG, e GO há dificuldade em se produzir pastos de inverno. Isso faz com que, tanto os custos como os riscos sejam maiores.
Entretanto, antes mesmo de falar em sistema de manejo de pastagem, alimentação, ou mesmo custo de produção, o principal ponto a ser mudado para o início deste sistema, é o modo estruturado e organizado, que o sistema de comercialização do leite na Nova Zelândia se apresenta.
Este estudo abre espaço para novas pesquisas para o setor leiteiro brasileiro, se este modelo for realmente sustentável e competitivo no mercado internacional.
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1 Engenheira Agrônoma - ESALQ/USP
