José Roberto Peres
As recomendações atuais são de dietas para vacas de alta produção contendo 1,72 a 1,76 megacalorias (Mcal) de energia líquida (EL) por kg de matéria seca (MS). Todavia, muitos nutricionistas provavelmente podem relatar casos de vacas produzindo muito leite e mantendo razoável condição corporal em dietas com 1,63 a 1,65 Mcal El/ kg MS calculada no papel. No outro extremo, também podem ter experimentado dietas teoricamente contendo 1,76 Mcal EL/ kg MS e, ainda assim, as vacas não produziram o esperado. Tudo isto leva à conclusão que podem existir diferenças significativas entre os valores calculados no papel e a realidade.
Muitas destas discrepâncias são devidas à grande confiança que se deposita nas análises de alimentos, em especial àquelas por infravermelho (abreviação: NIR - feita em uns poucos laboratórios no país). Distintamente da proteína ou fibra, os valores de energia não são realmente medidos, mas sim estimados com base em outros nutrientes. Como exemplo, a análise básica por NIR usa uma equação de cálculo da energia baseada no teor de fibra detergente ácido (FDA) da amostra. Existem, no entanto, muitos outros fatores que afetam o teor de energia de um alimento, que não são levados em conta.
A silagem de milho, por exemplo, possui várias características que afetam seu teor energético. Um baixo nível de umidade (material mais maduro) afeta significativamente o teor energético da silagem por estar relacionado a grãos mais duros e forragem mais velha, ambos com menor digestibilidade. Mesmo assim, o teor de matéria seca normalmente não é considerado no cálculo do valor energético.
Da mesma forma, algumas variedades novas de silagem de milho trazem outros desafios. As variedades com nervura da folha marrom (brown midrib) têm maior teor de energia devido ao reduzido teor de lignina. Menor teor de lignina não implica necessariamente em menores teores de FDA e FDN. Como o cálculo normalmente é feito a partir do FDA, estas silagens não seriam diferenciadas.
Equipamentos modernos para corte de silagens processam (quebram) os grãos tornando-os mais digestíveis em cerca de 8 a 10%. Novamente esta vantagem não será contabilizada até que se desenvolva novas equações para cálculo do teor de energia baseadas nestas condições.
O milho grão também pode ser difícil de ter seu valor energético determinado. Dois fatores complicantes são o teor de umidade e o tamanho das partículas. Pesquisas nos EUA reportam cerca de 15% mais energia para os grãos de milho úmido (conservado como silagem - ganhando adeptos no Brasil) quando comparado ao seco. Mas é difícil determinar exatamente em que teor de umidade o milho seco passaria a ser considerado milho úmido.
Uma situação comum ocorre quando o objetivo é obter milho com 28% de umidade mas, por problemas climáticos o que se obtém é 23%. A energia líquida calculada não irá se alterar, mas a produção de leite indicará uma significativa redução no real teor de energia da dieta.
O tamanho das partículas de milho influi no teor de energia e digestibilidade do amido. Um exemplo extremo é que uma amostra de grãos de milho quebrado e outra de milho moído (fubá) terão o mesmo teor energético numa análise bromatológica. A produção de leite normalmente aumenta quando o milho é moído, ao invés de quebrado. Pesquisadores já demonstraram que a digestibilidade do amido no trato digestivo é freqüentemente aumentada em 10 a 15% quando o milho moído substitui o quebrado.
O teor real de energia das forragens (gramíneas ou leguminosas) também podem ser diferentes daqueles sugeridos pelas análises. Uma situação comum é quando se procura por razões pelas quais as vacas não estão produzindo bem, num ano em particular. A teoria freqüentemente leva a concluir que, pelas condições climáticas daquele ano, o teor de lignina das forragens acabou superior ao normal.
O FDA e FDN podem até parecer normais, mas é possível que a lignina componha uma porção maior da fibra que o normal. Uma vez que a lignina é indigestível, isto obviamente iria diminuir o teor de energia. Novamente as análises bromatológicas básicas (especialmente a NIR) normalmente não levam isto em conta. A NIR já provou ser de grande valia, por ser relativamente precisa e rápida. Todavia, devemos estar cientes daquilo que ela pode e não pode oferecer.
Existem outras opções disponíveis para se obter valores mais precisos de energia. Uma é solicitar análises que incluam avaliações de matéria mineral, lignina e extrato etéreo e calcular a energia através de equações que considerem estes fatores.
Outra opção é realizar um teste de digestibilidade "in vitro" da matéria seca e do FDN, oferecido por alguns laboratórios. As amostras de alimentos são incubadas em fluido ruminal por 30 horas para simular as condições reais.
Existem diferenças definidas na forma como os nutricionistas contornam este problema da energia. Alguns simplesmente utilizam os valores apresentados nas análises independente de sua precisão. Outros aplicam fatores de correção próprios, na tentativa de obter resultados mais confiáveis. Isto não permite ao produtor comparar sugestões de dietas de dois nutricionistas diferentes.
O melhor método, continua sendo deixar as vacas julgarem a dieta. Se elas estão produzindo bem, mantendo boa condição corporal e reproduzindo dentro do tempo esperado, é grande a chance do nível de energia estar adequado, independente do que dizem os cálculos.
Comentário MilkPoint: esta questão do cálculo do valor energético é ainda mais grave nas nossas condições, já que as equações utilizadas são oriundas de outros países, com condições de produção às vezes totalmente distintas às nossas. Dessa forma, os alimentos/experimentos utilizados para gerar as equações não representam nossa realidade o que sugere que elas não deveriam ser utilizadas com tal finalidade.
fonte: Adaptado de: MUNNEKE, R., 2000. Living with ration-energy confusion. Hoard’s Dairyman, June.
Convivendo com as Confusões do Teor Energético das Rações
Publicado por: José Roberto Peres
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