O período de amamentação dos bezerros é, comparativamente, o mais caro de todo o período de criação. Isto se deve ao fato do leite representar um custo bastante elevado, quando comparado aos outros possíveis alimentos utilizados para ruminantes. Mesmo assim, muitos criadores preferem fornecer grandes quantidades de leite aos bezerros, argumentando que seu desenvolvimento é superior.
Foi realizado um experimento na Universidade Federal de Santa Maria (RS), que pode trazer algum esclarecimento a esta questão. Doze bezerros holandeses (machos e fêmeas), foram sorteados aleatoriamente e criados até os 60 dias de vida. Seis bezerros receberam 180 litros de leite (T180), sendo: quatro litros diários até o 30o dia e dois litros do 31o ao 60o dia; outros seis bezerros receberam um total de 240 litros de leite (T240), divididos em seis litros até o 15o dia; quatro litros do 16o ao 45o dia e apenas dois litros do 46o ao 60o dia. A partir do quarto dia, todos os animais receberam feno de alfafa picado (15,86% de PB e 2,32 Mcal de ED/kg de matéria seca), concentrado (15,94% de PB e 3,19 Mcal de ED/kg) e água à vontade. Foram avaliados o consumo de cada um dos alimentos e o ganho de peso dos bezerros. Os resultados podem ser observados nas tabelas 1 e 2.
Tabela 1: Médias de consumo, probabilidade do teste F e coeficiente de variação nos diferentes tratamentos

Tabela 2: Médias de peso final (PF), ganho médio diário (GMD) e conversão alimentar (CA), probabilidade do teste F e coeficiente de variação nos diferentes tratamentos

Destes resultados os autores tiraram várias conclusões. Em primeiro lugar eles argumentam que a formulação do concentrado foi feita tendo como base a composição dos alimentos do NRC americano e que no final, ao se analisar a mistura sua composição foi aquém do esperado (teores mais baixos). Realmente a recomendação para concentrados "iniciais" é de 18% de proteína bruta e 3,53 Mcal de energia digestível por quilo. Isto pode ter influenciado o desempenho dos bezerros. Os autores recomendam portanto a análise prévia dos alimentos.
É interessante observar, que entre os dois tratamentos, as únicas variáveis que apresentaram diferença estatística foram o consumo de concentrado (CMSC) e de fibras (CFDN e CFDA). Apesar do maior consumo de leite no tratamento T240, houve uma compensação nos consumos de matéria seca de feno e concentrado que fizeram com que o consumo total fosse semelhante. A diferença no consumo de fibras, se deve ao consumo de feno e do próprio concentrado, já que o leite não possui fibra. É importante ressaltar que este maior consumo de alimentos sólidos é de fundamental importância para tornar o rúmen funcional e permitir que se possa desmamar o bezerro precocemente.
O peso final dos animais aos 60 dias e o ganho de peso observado no período foram abaixo do desejável para bezerros desta raça. O ideal seria que os animais desmamassem com pelo menos 10 a 15 kg a mais de peso. Os autores atribuem tais resultados ao consumo de matéria seca total dos animais que, segundo eles, foi abaixo do previsto pelo NRC, determinando menor ingestão de nutrientes que aquela necessária para o adequado desenvolvimento dos animais.
Comentário MilkPoint: seria interessante dispor de outras informações como a forma de alojamento dos animais, além da incidência de diarréia ou outras doenças, que podem ter afetado os resultados. A realização de experimentos com bezerros recém nascidos é sempre difícil por se tratar de um período delicado da vida e portanto o número de animais para este tipo de avaliação talvez devesse ser maior. Nada foi comentado também sobre outros parâmetros de desenvolvimento como altura na cernelha. Tudo isto no entanto, não tira o mérito do trabalho, do qual se pode fazer várias observações interessantes: uma vez que o consumo total de matéria seca é limitado nesta fase, a importância da qualidade do concentrado fica ressaltada (no trabalho não foram apresentados os ingredientes do concentrado). Ele deve ser constituído de ingredientes de alta qualidade (evitar subprodutos fibrosos) e deve possuir correta concentração de nutrientes para permitir desenvolvimento adequado. Na minha opinião este trabalho reforça a idéia de que não se deve fornecer feno até os 60 dias de idade. A capacidade de consumo é limitada e a qualidade do feno (mesmo de alfafa) é inferior à de um bom concentrado. Isto limita a ingestão de nutrientes preciosos, que podem fazer a diferença para um melhor desempenho. Outra conclusão que se pode tirar é que o fornecimento de grande quantidade de leite não traz benefício, desde que o bezerro tenha acesso a concentrado de boa qualidade. Isto tem um impacto financeiro na propriedade. Como exemplo, utilizando os dados deste teste para estimar custo de alimentação neste período, e atribuindo um custo de R$ 0,30 por litro de leite; R$ 0,30 por quilo de concentrado; e R$ 0,40 por quilo de feno de alfafa, seria possível uma economia de R$ 15,00 por bezerro nascido. Pode parecer pouco, mas quando se soma todos os bezerros isto faz diferença.
fonte: VELHO, J.P. et alii., 2000. Quantificação das necessidades diárias de leite para bezerros holandeses até dois meses de idade. XXXVII Reunião Anual da SBZ, Viçosa - MG.