O processo de ordenha é definido como o ato de coletar leite após estímulo adequado para liberação do leite retido no úbere das vacas. Para que a ordenha seja bem sucedida, é fundamental que ocorra uma boa interação entre as vacas, os equipamentos de ordenha e os ordenhadores. Uma ordenha rápida e completa depende dos estímulos que a vaca recebe do ambiente. A audição das vocalizações, a visão e/ou o cheiro do próprio bezerro, o contato físico do bezerro mamando, a audição do som dos equipamentos de ordenha, o toque da mão do ordenhador durante o teste de mastite, a limpeza dos tetos e a colocação das teteiras, entre outros estímulos positivos, possibilitam o desencadeamento de impulsos nervosos que são interpretados pelo cérebro, favorecendo a liberação do hormônio ocitocina na corrente sanguínea (Figuras 1 a 4).
Figuras 1 a 4: Diferentes estímulos presentes no ambiente podem promover a produção de leite: a visão e o som dos equipamentos de ordenha, a mamada do bezerro e o toque da mão do ordenhador. Fontes: Fazenda Santa Luzia, Passos-MG (3,5 e 6); Fazenda São José do Can Can, São José da Barra-MG (4).
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No úbere, a ocitocina é responsável pela contração de células mioepiteliais, favorecendo a ejeção do leite. Essas contrações começam a ocorrer em torno de 20 a 60 segundos após a vaca receber o estímulo inicial. A ação da ocitocina dura somente de seis a oito minutos, portanto, para maximizar a quantidade de leite coletada, a colocação e a retirada do conjunto de teteiras devem levar em consideração esses limites de tempo.
Assim como estímulos adequados promovem a ejeção do leite, estímulos inadequados podem inibir a liberação da ocitocina, reduzindo a quantidade de leite ordenhada. Em geral, a falta de adaptação à sala de ordenha, ordenhadores “estressados”, a falta de manutenção dos equipamentos de ordenha, entre outros, são situações que transmitem estímulos negativos para os animais. A excitação, o medo e a dor favorecem a liberação do hormônio adrenalina, a qual é responsável pela constrição dos vasos sanguíneos e das células mioepiteliais, reduzindo o fluxo sanguíneo, a ação da ocitocina no úbere e a produção de leite.
Além disso, verifica-se aumento da concentração de cortisol na circulação sanguínea de vacas agitadas durante a ordenha. Esse hormônio também é responsável pela inibição do reflexo de ejeção do leite. Porcionato et al. (2005) verificaram que as vacas meio sangue Holandês x Gir apresentaram maior concentração de cortisol durante a ordenha, entre 40 e 45 dias após o parto, quando comparadas às vacas ¾ Holandês x Gir e às vacas Holandesas, em sistema mecanizado. Os três grupos não haviam sido adaptados a esse tipo de ordenha previamente. As vacas foram ordenhadas sem a presença do bezerro e não foi utilizada ocitocina exógena (Figura 5).
Figura 5. Médias das concentrações de cortisol circulante em vacas meio sangue Holandês x Gir (círculo), ¾ Holandês x Gir (quadrado) e Holandesas (triângulo) durante o processo de ordenha em sistema mecanizado, entre 40 e 45 dias após o parto. Fonte: Porcionato et al. (2005)
No estudo anterior, o aumento da concentração de ocitocina ocorreu, em média, três minutos, dois minutos e um minuto após o início da ordenha nos grupos de vacas F1, ¾ e Holandesas, respectivamente. As vacas meio sangue apresentaram maior quantidade de leite residual (leite retido no úbere após o término da ordenha) quando comparadas aos demais grupos.
Uma característica da lactação das vacas mestiças é o aumento mais rápido da produção de leite nas primeiras semanas após a lactação. Ao analisarmos o comportamento da curva de lactação das vacas mestiças, verifica-se que o pico de produção ocorre na quarta semana de lactação, em média, duas semanas antes do pico de produção das vacas Holandesas (Figura 6).
Figura 6. Curvas de lactação de vacas Holandesas e mestiças. Fonte: Coelho et al. (2013)
Portanto, para diminuir o efeito do “estresse” e maximizar a produção de leite nas primeiras ordenhas, é muito importante que as fêmeas mestiças já estejam mansas e adaptadas ao sistema de ordenha antes do parto.
Para promover a ação da ocitocina nas primeiras ordenhas das primíparas, o ordenhador deve ser bem instruído quanto à importância de respeitar o tempo de deslocamento dos animais, evitar bater e empurrar, evitar a utilização de choques elétricos, varas e ferrões, evitar torcer a cauda das vacas, evitar falar alto ou gritar na sala de ordenha, evitar movimentos bruscos, evitar atrasar a colocação e a retirada das teteiras, além de estar atento ao bom funcionamento dos equipamentos de ordenha. Vacas agitadas, com medo ou com dor podem apresentar redução de até 20% na produção de leite. Essa redução pode estar relacionada com a maior quantidade de leite residual devido à menor eficiência da ordenha. É necessário considerar também a maior incidência de mastite em animais que apresentam maiores volumes de leite residual.
Outro ponto importante á a rotina das ordenhas. O leite é secretado de forma contínua e armazenado no úbere. Para favorecer a máxima produção de leite, a ordenha deve ser realizada em intervalos regulares, evitando dessa forma a diminuição da secreção devido ao acúmulo de leite no úbere. Manter a rotina dos intervalos de ordenha é ainda mais importante para as primíparas, devido ao tamanho limitado do úbere, e para as vacas de alta produção, por causa da alta taxa de secreção de leite.
Para que as ordenhas sejam eficientes, além de manter os intervalos entre elas, é necessário manter a rotina dos procedimentos durante a ordenha. Todas as etapas devem ser realizadas de maneira gentil, sem causar traumas às vacas. Manter a tranquilidade no ambiente de ordenha é fundamental para maximizar a produção de leite. Para saber mais detalhes sobre os procedimentos de ordenha, recomendamos a leitura do Manual de Boas Práticas de Manejo na Ordenha, elaborado por pesquisadores da UNESP.
Ao fazer essas considerações, começamos a entender por que além de ter funcionários bem instruídos, é muito importante ter vacas mansas na sala de ordenha, principalmente para os sistemas que adotam rebanhos mestiços. Para os sistemas que utilizam vacas especializadas, a preocupação deve ser fazer uma boa adaptação das novilhas à sala de ordenha antes do primeiro parto, uma vez que esses animais, geralmente, já interagem positivamente com o homem desde a fase de aleitamento, e, geneticamente, são mais mansos.
Leia o artigo: Como maximizar a produção de leite e o bem-estar das vacas mestiças? Parte 1
Referências bibliográficas
COELHO, S. G.; CAMPOS, B. G.; LIMA, J. A. M.; CARVALHO, A. U. Mecanismos de ação do BSTr e uso em vacas mestiças. Rev. VeZ Minas, v. 116, p. 6-15, 2013.
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ROSA, M. S.; COSTA, M. J. R. P.; SANT’ANNA A. C.; MADUREIRA, A. P. Manual de Boas Práticas de Manejo na Ordenha. Editora Funep: Jaboticabal-SP, 2009. 46 p.
Wattiaux, M. A. Princípios da ordenha. University of Wisconsin-Madison: Instituto Babcock para Pesquisa e Desenvolvimento da Pecuária Leiteira Internacional. Essenciais em gado de leite, capítulo 21. Disponível em:
Wattiaux, M. A. Princípios da ordenha. University of Wisconsin-Madison: Instituto Babcock para Pesquisa e Desenvolvimento da Pecuária Leiteira Internacional. Essenciais em gado de leite, capítulo 25. Disponível em:
