No último artigo publicado nesta seção, entitulado "Criação intensiva de bezerros, um antigo novo conceito", foram apresentados os princípios de uma forma de criação de bezerros que mais se assemelha àquela observada na natureza, com o fornecimento de maior quantidade de "leite" (na realidade sucedâneos lácteos especiais).
Nos EUA, quando esta forma de criação "acelerada" é discutida, três perguntas básicas costumam aparecer:
Como os bezerros são desmamados?
O fornecimento de maior quantidade de sucedâneo lácteo provoca mais diarréia?
O sistema é economicamente viável?
Alguns pesquisadores americanos respondem estas perguntas e dão algumas dicas àqueles que pretendem "experimentar" o sistema.
Segundo eles a desmama é relativamente simples mesmo neste sistema, mas as regras para a desmama são outras. Ao invés do bezerro dizer ao tratador quando pode ser desmamado (pelo consumo de concentrado), o tratador determina o momento da desmama, admitindo-se que ele esteja saudável e bem desenvolvido.
As pesquisas atuais dizem que, com 5 semanas, os bezerros que recebem esta maior quantidade de leite ainda não estarão consumindo quantidade suficiente de concentrado, mas já deverão estar consumindo pequenas quantidades prontamente. Isto ocorrendo, uma das mamadas deve ser cortada repentinamente. Em outras palavras, um bezerro que vinha recebendo cerca de 7 litros de leite/dia (ou 900 gramas de sucedâneo lácteo), em duas refeições, passará a receber somente 3,5 litros em uma única refeição.
Em quase todos os casos, quando uma refeição é cortada, o bezerro rapidamente aumenta o consumo de concentrado. Quando o bezerro estiver consumindo entre 0,9 e 1,1 kg de concentrado de forma consistente, ele pode ser desmamado totalmente. Observe que este nível de consumo é ligeiramente superior à recomendação padrão (0,7 a 0,8 kg, por 3 dias consecutivos). Isto é função do bezerro ser maior à desmama que um bezerro criado da forma "tradicional".
Em relação à ocorrência de diarréias, a resposta não é tão clara. Ainda não existem estudos em larga escala para responder esta pergunta. Nos pequenos experimentos realizados até o momento, não foi identificada maior taxa de diarréia, muito embora a consistência das fezes seja mais mole quando se fornece mais leite ou sucedâneo.
Os pesquisadores afirmam que ainda existem incertezas sobre este sistema de criação, embora ele já esteja sendo praticado até mesmo em escala comercial. Eles argumentam que outros pontos precisam ser conhecidos; desde a incidência de diarréias, passando pela avaliação de possíveis efeitos negativos ao longo da vida do animal (reprodução, produção de leite e longevidade), chegando até mesmo à formulação do concentrado utilizado na desmama deste tipo de animal que, eles especulam, talvez possa se beneficiar de maior teor protéico, para impedir queda no desempenho após a desmama.
A resposta à terceira pergunta também ainda não é clara. Sem grandes estudos de longa duração será difícil avaliar o custo/benefício do sistema. Por enquanto, parece que esta é somente mais uma opção, segundo os pesquisadores, não para todo criador. Por outro lado, existe informação suficiente para que se afirme que a restrição no fornecimento de sucedâneo aos bezerros tem como único fim minimizar os custos. Provavelmente não é a melhor estratégia do ponto de vista nutricional.
Algumas recomendações são feitas àqueles que pretendem adotar o sistema:
- Deve haver completo engajamento no sistema. Qualquer possível vantagem da criação acelerada pode ser perdida por falhas de manejo e alimentação, não somente na fase de aleitamento, mas também desta até o primeiro parto.
- Os cuidados começam pelo fornecimento do colostro. Colostro de qualidade, na quantidade certa, deve ser fornecido o mais cedo possível. Eles recomendam o fornecimento de 3 a 4 litros de colostro através de sonda esofagiana, logo após o nascimento.
- A seleção do sucedâneo é importante. Ele deve conter de 26 a 30% de proteína bruta de origem Láctea (proteína de soro). A princípio, o leite in natura não é recomendado em função de seu preço e também por seu alto teor de gordura. Estudos em andamento sugerem que sucedâneos com menor teor de gordura proporcionam maior ganho em tecido magro. Fornecer maior quantidade de sucedâneos comuns (20% proteína e 20% de gordura) NÃO IRÁ resultar neste nível de ganho e, portanto, NÃO é recomendado.
- Preferencialmente consulte pesquisas existentes com o sucedâneo que pretende utilizar para criação intensiva. A qualidade e o processamento dos ingredientes são críticos para que se tenha um sucedâneo de alta digestibilidade. Alguns minerais e vitaminas precisam ser ajustados (eventualmente diminuídos) para evitar toxidez já que a quantidade fornecida é maior.
- O padrão é promover consumo de sucedâneo da ordem de 1,5 a 2% do peso vivo (pó) durante a primeira semana e 2 a 2,5% daí em diante. Reconstitua o sucedâneo a 15-17% de sólidos (1 kg de pó para 5,9 a 6,7 litros de água - siga as instruções do fabricante). Esta maior concentração é para compensar o grande volume que deverá ser consumido (no caso de fornecimento de mais que 10 litros deverão ser feitas 3 refeições).
- Forneça concentrado de alta qualidade desde a primeira semana de vida.
- Água deve estar disponível à vontade. O tecido magro tem 65% de água, além do consumo de concentrado ser altamente relacionado ao consumo de água.
- Durante a 5a ou 6a semana de vida reduza a quantidade de sucedâneo em 50% (elimine uma das refeições). O consumo de concentrado deve aumentar rapidamente. O bezerro pode ser desmamado quando estiver consumindo 0,9 a 1,1 kg de concentrado por 3 dias consecutivos.
- Inicie o sistema gradativamente. Não há razão para implementar a criação intensiva em todos os bezerros. Ganhe confiança no manejo. Escolha um grupo de bezerros e avalie os resultados você mesmo.
Comentário MilkPoint: ainda existem incertezas sobre este sistema, especialmente sobre a viabilidade econômica a longo prazo, ponto fundamental. A princípio, o sistema é baseado em fórmulas de sucedâneos lácteos que não estão disponíveis em nosso mercado e que, muito provavelmente, custariam demasiadamente caro (por requerer proteína de origem Láctea). Estes sucedâneos se assemelham aos utilizados na Europa e EUA na criação de vitelos. Talvez, nas nossas condições, seja válida alguma tentativa com o próprio leite in natura, já que em determinadas épocas do ano seu valor é tão baixo que, infelizmente, talvez seja mais interessante alimentar melhor os bezerros a vendê-lo ao mercado.
Fonte: Drackley, J.K. and P.C. Hoffman, 2002. Make intensive calf feeding work. Hoard's Dairyman, April 10.
Como implementar um programa de criação intensiva de bezerros
Publicado por: José Roberto Peres
Publicado em: - 5 minutos de leitura
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José Roberto Peres
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