No início da primeira parte deste artigo, iniciamos afirmando que quando o leite pago ao produtor está com preço lá embaixo, as margens de lucro dos sistemas de produção de leite ficam muito reduzidas, ou até desaparecem, pois a alimentação é o fator de maior importância na planilha de custos de produção do leite. Nesta situação o produtor deve dar ênfase total ao retorno sobre o custo de alimentação (RCA).
O lucro de uma operação qualquer é dado pela resposta produtiva a essa operação, multiplicada pelo seu valor, subtraíndo-se o custo.
Lucro = (Resposta * Valor) - Custo
Quando planejamos a alimentação de um rebanho, sempre buscamos no mínimo uma situação de equilíbrio financeiro, ou seja, pelo menos atingir o "break-even", ponto no qual cada real gasto com a alimentação nos dá um real de retorno em leite. Trocando em miúdos, na pior das hipóteses a operação tem que se pagar. Mas isso não é muito pouco? Eu acho que é. Um produtor de leite tem um considerável capital imobilizado no seu negócio (terra, animais, instalações, máquinas, etc.) e tem obrigação de buscar mais do que simplesmente o "break-even".
Mas sempre é bom lembrar que a alimentação representa o maior custo individual dentro dos sistemas de produção de leite, de forma que alterações no manejo nutricional do rebanho afetam de forma aguda e rápida a lucratividade de qualquer fazenda. Uma prática bastante discutida por técnicos e nutricionistas, principalmente quando se trata de rebanhos de alta produção, é a chamada segurança nutricional, que consiste em formular dietas acima das exigências do animal ou lote. Isso pode se justificar pelo fato de que o custo da redução no desempenho produtivo, devida a uma deficiência nutricional, tem uma boa chance de ser maior do que o custo de fornecer alimentos além do exigido pelo animal. A necessidade de dar essa segurança nutricional surge principalmente quando há grandes variações na composição dos alimentos utilizados na fazenda, tanto volumosos como concentrados.
Por exemplo, vacas recém-paridas respondem bem à suplementação protéica, e limitações no início da lactação, quando a produção diária da vaca está em ascensão, podem comprometer seriamente o pico de produção. E é sabido que o volume de leite produzido no pico tem relação direta com o volume total produzido na lactação, pois cada kg de leite produzido a menos no pico, representa uma perda de 250 a 300 kg na lactação, de forma que não se pode tolerar reduções no pico de produção devido à falta de proteína. Assim, para garantir o desempenho, e compensar possíveis variações na composição dos alimentos utilizados nesse período, principalmente forragens, é comum se formular dietas fornecendo 10 a 15% a mais de proteína para vacas em início de lactação. Porém não se pode esquecer que proteína em excesso pode ser prejudicial à reprodução, então essa prática deve ser adotada com cautela.
Se o volumoso disponível não for de grande qualidade, ou se o produtor utilizar quantidades elevadas de sub-produtos na dieta, que podem apresentar variação na composição nutricional, devido a inconsistência nos processos industriais, pode ser compensador adotar a garantia nutricional. Mas a resposta produtiva, que no nosso caso são kg de leite, tem que ser efetivamente compensadora, pois quando o preço do leite está baixo, precisamos de mais leite para manter o RAC.
Outro ponto que demanda muita atenção do produtor é a perda de alimentos na fazenda. Muito raramente conseguimos de fato utilizar integralmente todos os ingredientes que compramos, pois há muitas fontes de perda, desde o transporte, armazenamento até o fornecimento. Rebanhos maiores conseguem imprimir um ritmo de uso de alimentos mais intenso, o que minimiza as perdas, que geralmente ficam entre 3 e 5%. Já rebanhos pequenos podem ter perdas até 3 vezes maiores, principalmente se o ritmo de uso for muito lento. Quanto mais tempo o alimento fica estocado na fazenda, maior a chance de perdas, e o custo dessas perdas deve ser considerado, pois a quantidade comprada de alimentos invariavelmente é maior do que a fornecida.
Além das perdas diretas, o produtor também deve considerar a possibilidade de deterioração de alimentos, com redução de qualidade, o que muitas vezes nem é percebido pelo produtor. Isso pode resultar em redução no desempenho dos animais, além de poder causar doenças e intoxicações. Dessa forma, o controle de perdas quantitativas e qualitativas de alimentos é um ponto de grande impacto no RAC, em qualquer situação de preço do leite, que torna-se extremamente crítico quando o preço está baixo.
Atualmente também temos visto um grande interesse pelo uso de aditivos, principalmente em rebanhos mais tecnificados, que já adotam práticas mais refinadas de manejo. Aditivos são compostos adicionados à dieta com o objetivo de melhorar a utilização dos nutrientes, gerando uma resposta produtiva positiva. Via de regra, o custo dos aditivos é baixo, poucos centavos por vaca/dia, e em função desse baixo custo, normalmente não se questiona sua eficácia. Muitos aditivos têm efetividade comprovada, apresentando relação custo:benefício favorável em muitas situações, mas isso não é regra geral, de forma que mesmo tendo custo bastante reduzido, em épocas de preço de leite baixo o uso desses compostos deve ser revisto. Se a resposta à sua inclusão não for clara, a suspensão do uso deve ser seriamente considerada. Utilize aqueles aditivos sobre os quais há informações conclusivas.
Um outro aspecto que deve ser analisado com cuidado por técnicos e produtores é que a resposta produtiva das vacas leiteiras a mudanças na dieta não é rápida, ou seja, os efeitos dos alimentos ingeridos hoje só ocorrerão depois de algum tempo. Dessa forma, decisões a respeito do manejo alimentar do rebanho, feitas a partir de observações de curto prazo, podem ser erradas quando aplicadas tomando-se como base dados médios de observações de longo prazo. O desempenho de um rebanho pode ser ótimo hoje e medíocre daqui a trinta dias, e isso pode se dever a um erro estratégico cometido hoje. Quanto melhor o produtor conhecer o seu rebanho, mais seguras serão as suas decisões sobre o manejo alimentar.
Depois de tudo o que foi exposto nas duas partes desse artigo, será que já dá para saber como alimentar as vacas quando o preço do leite está baixo? Discutimos aqui alguns pontos importantes para a lucratividade do sistema, a partir de algumas observações não convencionais. Podemos resumir o que foi colocado em alguns pontos básicos:
- O preço do leite na verdade não deve ser o determinante para se alterar o balanceamento da dieta das vacas. Se o manejo alimentar está correto quando se recebe R$ 0,55 por kg de leite, também deve estar correto quando se recebe R$ 0,30;
- Escolha muito bem os alimentos a serem comprados, e trabalhe duramente para reduzir as perdas na fazenda. Isso pode levar embora uma boa fatia do lucro da operação;
- Destine toda a sua capacidade técnica para a obtenção de um volumoso de alta qualidade;
- Avalie muito bem todas as alternativas antes de formular uma dieta acima das exigências dos animais. Via de regra a prática da segurança nutricional é compensadora para vacas em início de lactação, principalmente quanto à proteína;
- Identifique os animais mais lucrativos do rebanho e dê uma atenção especial a eles. À medida que o preço do leite cai, o nível de produção a partir do qual uma vaca é candidata à secagem ou descarte aumenta, e a decisão por tirar esse animal do rebanho deve ser tomada com base em critérios técnicos e financeiros;
Chandler, P. T. - Feeding dairy cows during times of low milk prices- Southeast Dairy Herd Management Conference, 2003
