Produção de leite e nutrientes para a produção
Em qualquer rebanho, sob qualquer regime de alimentação, a eficiência e o lucro aumentam quando os nutrientes destinados à manutenção dos animais tornam-se uma porção pequena dos nutrientes totais consumidos. Este conceito se baseia no princípio de que os custos de alimentação aumentam linearmente com o aumento da produção de leite, e que as exigências de manutenção não mudam com o aumento da produção, desde que a dieta esteja bem balanceada. Esse conceito pode não se aplicar a animais sob condições de stress (falta de sombra, necessidade de caminhadas excessivas, competição no cocho, etc.). A tabela 1 mostra uma simulação das relações entre produção de leite, custo de alimentação, retorno sobre o custo de alimentação (RCA) e custos de manutenção.
Tab.1 Receita bruta do leite e retorno sobre o custo de alimentação (RCA) de vacas em pastejo, em diferentes preços do leite.

Os dados apresentados são uma simulação de diferentes situações hipotéticas, e os valores podem variar bastante de fazenda para fazenda e de região para região, mas o conceito geral vale para todas as situações, considerando que as exigências de manutenção não se alterem com o aumento da produção.
O custo de manutenção (R$ 0,72/vaca/dia) é o mesmo em qualquer nível de produção e de preço do leite. Quando a vaca produz pouco (menos de 10 litros/dia), o custo de manutenção é muito elevado (mais de 50% do total). Já quando a produção passa dos 25 litros/dia, o custo de manutenção passa a ser de 30% do custo total de alimentação do animal. Em rebanhos com média de produção elevada, e alimentação muito bem balanceada, o custo de manutenção pode ficar abaixo dos 25% do custo total. E quando se consegue isso, imagine o que acontece com o lucro do sistema?? A figura 1 ilustra as relações entre produção de leite, custo da alimentação e custo de manutenção.

Fig. 1. Relações entre produção de leite, custo da alimentação e custo de manutenção.
A receita do leite depende do volume produzido e do preço do leite. No Brasil há variações regionais e sazonais de preço que também afetam a receita das fazendas. Além disso o pagamento por qualidade é um movimento crescente, mas, de maneira geral, em qualquer faixa de preço do leite, o retorno sobre o custo de alimentação (RAC) aumenta linearmente com o aumento da produção, desde que a qualidade do leite não se altere. Quando as vacas são alimentadas corretamente, recebendo os nutrientes adequados para atender às suas exigências, não se deve esperar reduções na eficiência do sistema, expressa pelo RAC. A figura 2 mostra a relação linear entre o RAC e o volume de leite produzido, em três faixas de preço do leite.

Fig. 2. Influência da produção de leite sobre a RAC em três faixas de preço do leite.
Preço do leite e taxa de descarte
No início deste artigo eu disse que o ponto a ser avaliado e discutido é que o preço do leite deve determinar se as vacas devem ser alimentadas. Em situações em que o preço do leite é muito baixo, há vacas no rebanho que são individualmente lucrativas, mas parte delas pode dar prejuízo, mesmo se a dieta estiver corretamente balanceada, conforme ilustrado na tabela 1. Dessa forma fica claro perceber que o preço do leite se torna um fator importante na determinação do nível de produção a partir do qual uma vaca deve ser retirada do rebanho. Além da alimentação, há diversos fatores, tais como os custos de ordenha, manejo sanitário e reprodutivo, etc., que devem ser considerados junto com o RCA para se determinar o ponto em que uma vaca deixa de ser lucrativa. A decisão de mandar essa vaca para o lote de vacas secas ou para o frigorífico deve ser tomada com base no custo diário de manutenção do animal.
Maximizando o RCA
Em tempos bicudos, como em qualquer outro negócio, quando o preço do leite está lá embaixo, o produtor de leite deve arregaçar as mangas, sacodir a poeira e usar toda as suas habilidades e criatividade para se manter ativo em seu negócio. O RCA deve sempre ser mantido, e se possível aumentado. Em muitos casos mudanças de curto prazo para reduzir os custos de alimentação resultam em queda na produção e/ou perda de qualidade do leite, de forma que a receita bruta da fazenda cai em proporções maiores do que a redução que se consegue nos custos de alimentação, o que equivale a dar um tiro no próprio pé.
Mas qual a mágica para se ganhar dinheiro quando o laticínio nos paga tão pouco? A resposta é eficiência. Os cinco pontos destacados abaixo não são novidade para niguém, e devem ser sempre considerados em qualquer faixa de preço do leite, mas tornam-se especialmente críticos quando o preço cai bastante.
- Maximize a quantidade de nutrientes destinada às funções produtivas - no nosso caso, a produção de leite. Esteja certo que as dietas das vacas em lactação estejam bem balanceadas, e que elas estejam em boas condições para produzir leite com eficiência; não mantenha no rebanho número excessivo de novilhas e vacas secas.
- Agrupe corretamente as vacas - os lotes de alimentação devem ser compostos por animais com estados fisiológicos e exigências semelhantes.
- Garanta conforto para os animais - as vacas gostam de sombra e água fresca; sempre considere os aspectos ambientais com cuidado.
- Cuide do manejo sanitário do rebanho - ausência de doenças, bons cascos e baixos índices de mastite são fundamentais para manter o sistema operando com eficiência.
- Maximize o uso de fontes de concentrado alternativas - o uso de subprodutos da agroindústira, tais como a polpa cítrica, farelo de trigo, casca de soja, farelo de algodão, farelo de glúten de milho, dentre outros pode representar uma economia brutal de custos, sem perder qualidade nutricional.
Referências:
Chandler, P. T. - Feeding dairy cows during times of low milk prices- Southeast Dairy Herd Management Conference, 2003
