Mesmo assim, existem pesquisas sobre o assunto e parece que, em algumas situações, a casca de café pode ser utilizada em substituição parcial ao milho da dieta, como mostra, por exemplo, um trabalho desenvolvido por pesquisadores da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (EPAMIG), no município de Três Pontas, sul de Minas, Estado que é líder nacional na produção de café.
Foram utilizadas 16 vacas holandesas puras por cruza. Os tratamentos foram 0, 10, 20 e 30% de casca de café na ração em substituição ao milho. As rações foram isoprotéicas com 20% de proteína bruta e aproximadamente 73% de NDT (Tabela 1).
O experimento teve duração de uma lactação com período de padronização de 14 dias e o restante de comparação. A padronização teve início 60 dias após o parto. As vacas foram ordenhadas mecanicamente duas vezes ao dia.

A alimentação era fornecida duas vezes ao dia e o volumoso era silagem de milho fornecida à vontade. Os animais foram pesados a cada 14 dias e o leite foi medido diariamente.
Os resultados médios de produção de leite e consumo de alimentos dos 170 dias de experimento são apresentados na Tabela 2. A análise estatística não mostrou diferença significativa para qualquer dos parâmetros. De acordo com estes dados, seria possível substituir em até 30% o milho moído da ração de vacas em lactação.

Também a composição do leite foi analisada, apresentando-se normal e sem diferença significativa entre os tratamentos. Não foi detectada a presença de cafeína no leite, o que indica que mesmo existindo a cafeína na casca de café esta não passa para o leite.
Uma análise de custos na época do experimento mostrou uma economia de até 23% na ração com substituição de 30% do milho por polpa de café, o que, mesmo com a pequena redução (numérica, mas não estatística) de produção, traduziu-se num melhor custo benefício.
Os autores concluem que a casca de café pode substituir em até 30% o milho moído em rações de vacas em lactação.
Comentário do autor: mesmo de posse destes dados ainda avaliaria cuidadosamente esta questão. O número de animais no experimento foi bastante pequeno, o que pode não ter permitido que a análise estatística detectasse as diferenças, mesmo considerando-se a vantagem do experimento ter durado praticamente uma lactação inteira. É preciso considerar ainda que o nível de produção não era dos mais elevados, o que pode ter permitido aos animais manter o desempenho mesmo com menor qualidade do concentrado. O relatório do experimento nada comenta sobre a condição corporal ou peso dos animais (muito embora eles tenham sido pesados), que podem ter sido afetados com os níveis crescentes de casca de café, para compensar um eventual menor aporte de nutrientes. Eu não arriscaria a substituição em animais de alta produção.
De qualquer maneira, nos preços atuais dos insumos, mesmo com alguma perda em produção pode ser interessante a substituição. Acho ainda que uma questão que poderia ser explorada em relação à casca de café seria sua possível utilização em substituição parcial aos volumosos, já que, por sua característica fibrosa, talvez ela possa ter efetividade de fibra suficiente para estimular o rúmen para funcionamento normal, mesmo em condições de limitação na disponibilidade de forragens.
Fonte: Barcelos, A. F. et al., 1995. Aproveitamento da casca de café na alimentação de vacas em lactação. Circular Técnica no 46, mês 6. EPAMIG - Lavras - MG.