O uso de subprodutos da agroindústria já é tradicional na alimentação de ruminantes. A possibilidade de substituição de alguns grãos de cereais por alternativas "menos nobres" está ligada talvez à maior virtude dos ruminantes: a capacidade de digestão de fibra. O Brasil figura entre os maiores produtores mundiais de diversos produtos agrícolas, o que gera imensa quantidade de subprodutos, muitas vezes tão valiosos quanto o "produto principal". É o caso do farelo de soja e também da polpa de laranja. Estes produtos, no entanto, são considerados "commodities" e têm seu preço estipulado em dólar pelo mercado externo. Infelizmente não conheço nenhum produtor de leite que tenha seu produto cotado em dólar. Sendo assim, temos que procurar opções.
Existe outro subproduto disponível em grande quantidade em nosso meio, pelo menos em alguns estados, que não é (ou é muito pouco) utilizado na nutrição animal. São os resíduos de café. A maior parte retorna ao cafezal na forma de adubo orgânico, mais por falta de opção que por desejo do cafeicultor, já que, devido ao fato de ser muito volumosa, sua armazenagem, distribuição e incorporação ao solo é difícil e custosa.
Porque não se aproveita este resíduo (intensamente) na alimentação animal? Existem algumas razões, que serão discutidas a seguir neste artigo.
O café pode ser processado tanto pela via úmida quanto pela seca. No Brasil predomina a secagem natural (ao sol) ou artificial em secadores. Após a secagem, o café é descascado para obtenção dos grãos. Isto origina grande quantidade de resíduo denominado casca - 60% do fruto (exocarpo + mesocarpo + endocarpo). Se processado pela via úmida, será originada a polpa de café, que não contém o endocarpo. A polpa passa por intensa fermentação e, no final, tem composição bastante diferenciada das cascas. A maior parte dos estudos com resíduo de café foi realizada com a polpa.
As limitações ao uso do resíduo de café na alimentação animal estão ligados aos seus teores de taninos e cafeína. No entanto, a polpa de café contém também nutrientes, como pode ser observado na tabela 1. Pouco se conhece sobre a composição da casca.
Os taninos conferem sabor adstringente aos alimentos, além de complexarem a proteína, afetando sua digestibilidade e diminuindo a utilização do nitrogênio pelos animais. Embora a cafeína confira um sabor levemente amargo aos alimentos, comprometendo o consumo, a principal limitação do uso deste alcalóide na nutrição animal advém de seus efeitos no sistema nervoso central. A maioria dos estudos, no entanto, foi realizada com ratos e macacos. A cafeína parece estimular a atividade dos animais. Em animais de grande porte só existem estudos do uso da casca e polpa de café como alimento.

A inclusão de polpa de café na dieta parece diminuir a palatabilidade, e também interfere na absorção de nutrientes no trato digestivo. O nutriente mais afetado é o nitrogênio. Estudos iniciais com ruminantes demonstraram que a polpa só é aceita quando fornecida em mistura com alimentos altamente palatáveis.
Em um estudo realizado por Cabezas et. al, em 1977, a polpa de café seca ao sol foi incorporada na proporção de 20, 40 e 60% de rações de bezerros, em substituição parcial ao farelo de algodão e à casca de algodão aditivados com melaço e minerais (mistura com 15% de PB). Embora a digestibilidade da matéria orgânica da dieta tenha aumentado de 51,2% (0% de polpa de café) para 54% (60% de polpa de café), e a energia bruta não tenha se alterado, a digestibilidade da proteína bruta da dieta caiu de 40% (0% de polpa) para 36,2% (60% de polpa). Os autores comentam ainda que o aumento observado na digestibilidade da matéria orgânica deve ter sido função da diminuição no consumo de 3,5 para 2,5% do peso vivo, conforme a porcentagem de polpa de café na ração aumentou de zero para 60% (correspondente a 1,3% do peso vivo em polpa de café).
Para investigar se estes efeitos foram resultado dos taninos e da cafeína, eles incluíram estes compostos em dietas sem polpa de café. O teor de cafeína variou de 0,12 a 0,24% combinada ou não com ácido tânico. O ácido tânico não afetou o desempenho dos bezerros. Todavia, quando a cafeína foi incluída houve diminuição significativa no consumo e ganho de peso dos animais. Os autores sugerem que o efeito da cafeína nas dietas é referente ao aumento da diurese, que diminui a retenção da proteína. A cafeína também pode causar nervosismo nos animais, aumentando sua taxa de metabolismo basal.
Outros estudos com bezerros e novilhas também mostraram que a inclusão de mais de 20% de polpa de café na dieta provocava drástica redução de consumo e retenção de nitrogênio.
Parece, portanto, haver razões razoáveis para que a polpa ou casca de café não sejam mais intensamente utilizadas na nutrição de ruminantes. Mesmo assim, existem também indícios de que isto é viável, pelo menos em determinadas condições. Isto será mostrado no próximo artigo, onde serão apresentados os resultados de um experimento onde a casca de café foi utilizada em substituição ao milho na dieta de vacas em lactação.
Comentário do autor: a limitação de consumo, por si só, já é um fator bastante limitante para a utilização de alimentos na nutrição de ruminantes, especialmente aqueles dos quais se espera grande desempenho (vacas em lactação de alta produção, por exemplo). Somado a isto, a diminuição da digestibilidade da proteína da dieta, nos dias de hoje, também se constitui em empecilho, já que sua suplementação é muito cara.
Adaptado de: Mazzafera, P., 2002. Degradation of caffeine by microorganisms and potential use of decaffeinated coffee husk and pulp in animal feeding. Scientia Agrícola, V. 54, n. 4, p. 815-821.