No primeiro artigo sobre este tema, apresentado há quinze dias atrás, foi demonstrado que a cana provou ser opção viável na criação de novilhas holandesas, visando o primeiro parto aos 24 meses. Foi demonstrado que, se corrigida sua deficiência protéica, ela apresenta resultados semelhantes à silagem de milho.
Terminado este experimento, os pesquisadores da Universidade de Lavras concluíram que o consumo de concentrado para que se obtivesse os resultados esperados foi muito elevado e, portanto, formularam uma nova questão: qual o nível ótimo de fibra (FDN) dietético oriundo da cana, compatível com ganho de peso de 750 gramas/dia em animais holandeses? Em outras palavras: qual a máxima quantidade possível de ser fornecida às novilhas, para que se limite o fornecimento de concentrado?
Na tentativa de responder a esta pergunta, Gallo et al. (2000), realizaram um experimento onde foram testados três níveis de cana na dieta de novilhas holandesas. Todas as dietas continham 16% de proteína bruta na matéria seca (MS) e as fontes de proteína foram o farelo de soja, o farelo de glúten de milho e 11 gramas de uréia por kg de MS da dieta. As dietas foram formuladas para conter 33, 38 e 42% de FDN da dieta oriundo de cana-de-açúcar (54,2% de FDN na MS). Foram utilizadas 9 novilhas por tratamento, alimentadas por 8 semanas.
O aumento da FDN de cana na dieta, que teve sua participação aumentando de 62 a 78% da MS, teve tendência a causar queda linear no consumo de matéria seca (tabela 1). Não foi detectada diferença estatística no ganho de peso dos animais, sendo que mesmo o menor ganho observado foi adequado zootecnicamente, e superior aos 750 gramas que se tinha como objetivo.
Embora o ganho de peso tenha sido semelhante (( 1 kg/dia) nos dois experimentos (este e o do artigo anterior), os experimentos ocorreram em anos diferentes, com grupos distintos de animais, o que reforça os resultados. Também aqui a altura dos animais não foi afetada pela dieta e não difere numericamente dos resultados obtidos no experimento anterior com silagem de milho.
Tabela 1: Consumo, desempenho e mastigação nos diferentes tratamentos

Os autores concluem que a cana pode ser fornecida como forragem única, mesmo que em grande participação na dieta, e desde que o nível de proteína seja corrigido para valores próximos a 14%. Eles recomendam que esta correção seja feita da forma mais barata e com a melhor qualidade protéica possível.
Comentário do autor: Neste segundo experimento, a quantidade de concentrado fornecida no nível máximo de cana foi de aproximadamente 1,6 kg/novilha/dia, cerca de metade do oferecido no experimento inicial. Mesmo assim, a correção do teor protéico da dieta foi de grande importância; o concentrado utilizado aqui, com inclusão de uréia, possuía cerca de 62% de proteína bruta, aproximando-se muito mais de um "proteinado" que das fórmulas de "ração" normalmente utilizadas comercialmente para novilhas que, com freqüência possuem 16% de proteína bruta. A adição de uréia foi fundamental para diminuição da quantidade (maior concentração) e do custo da dieta. Os ganhos de peso diários obtidos são até mesmo excessivos e talvez devam até ser limitados.
fonte: Gallo, P.C.S, M.N. Pereira e M.AF. Andrade 2000. Effect of dietary sugarcane concentration on heifer growth. J.Dairy Sci. 83(Suppl. 1):114. Tese de mestrado de Paulo C.S. Gallo