Bom manejo resulta em animais mais produtivos - Parte I

Publicado em: - 5 minutos de leitura

Ícone para ver comentários 2
Ícone para curtir artigo 0

Você gostaria de obter 10% de aumento na produção de leite sem aumentar suas despesas? Com certeza a resposta é um imediato e sonoro "sim". A maneira de se obter isso pode ser uma melhor adaptação dos animais ao ambiente e às pessoas que irão manejá-los.

Um número crescente de pesquisas mostra que animais amedrontados são menos produtivos. O medo dos humanos leva a maior estresse no animal. Este aumento no estresse, medido através dos níveis de cortisona, influenciam direta e negativamente as taxas de crescimento, a saúde e a produção de leite. É bastante difícil quantificar o exato retorno possível mas, algumas pesquisas indicam por exemplo que, com vacas em lactação, o manejo inadequado dos animais pode diminuir em até 10% a produção de leite. De forma semelhante, na criação de bezerros e novilhas este prejuízo ocorre na forma de menores taxas de ganho em peso e saúde debilitada. Em outras palavras, práticas que aumentam o estresse animal podem consumir parte (ou todo) seu lucro na atividade.

É importante destacar que "manejo inadequado" não se limita a maltratar os animais ou aplicar choque para conduzi-los, por exemplo. Manejo inadequado - do tipo que pode conduzir a perdas econômicas - inclui toda prática que resulte numa resposta de medo por parte dos animais. A relação de confiança entre homem e animal se inicia quando ele ainda é jovem (bezerro). Tenha em mente que os animais podem desenvolver memórias permanentes de medo relacionadas a lugares, pessoas ou equipamentos específicos. Por isso certifique-se que a primeira experiência do animal numa determinada situação seja sempre positiva. Isto não implica, no entanto, na necessidade de tratar bezerros e vacas como animais de estimação. É preciso unicamente desenvolver práticas onde os animais são acostumados ao manejo e não têm medo das pessoas.

A seguir serão discutidos alguns princípios básicos de comportamento animal que podem auxiliar no desenvolvimento de um bom relacionamento homem-animal.

Em primeiro lugar é preciso saber que os bovinos têm um amplo ângulo de visão, estimado em cerca de 300 graus. Eles utilizam este campo para definir seu "espaço pessoal", que representa sua área de conforto ao redor de humanos. Animais com menor "espaço pessoal" permitem contato mais próximo ou não se esquivam quando uma pessoa se aproxima. Por exemplo, o "espaço pessoal" de gado de corte criado a campo pode atingir 50 metros, enquanto que vacas leiteiras, criadas em confinamento bem manejado, podem chegar a não ter espaço pessoal (permitem total aproximação humana). Você percebe que penetrou no "espaço pessoal" do animal no momento da aproximação em que o animal tenta afastar-se ou fugir.

O "espaço pessoal", como o próprio nome indica, é uma característica individual que será influenciada pelo manejo recebido desde os primeiros dias de vida. Estas "memórias" persistirão por vários meses. Memórias de medo aumentam significativamente a área de espaço pessoal. Como regra geral seu tamanho diminuirá lenta e gradativamente, se o animal for manejado gentilmente com freqüência.

Bezerros e novilhas podem prontamente diferenciar duas situações e fazer a escolha para evitar as mais estressantes. Além disso, eles são sensitivos a mudanças de cor e textura. O movimento é outro fator que pode amedrontá-los, especialmente quando eles não têm total visão do objeto que se move como, por exemplo, pessoas ou máquinas movendo-se ao longo de uma cerca. Novidades também podem ser grandes fatores de estresse. A exposição repetida reduzirá o efeito de alguma inovação.

Na prática, estes princípios podem ser aplicados de várias maneiras.

O momento do parto é nossa primeira oportunidade de demonstrar segurança aos animais. Enxugá-los com uma toalha seca pode ser o primeiro passo para uma relação duradoura. Massageie o bezerro até que seu pelo fique seco e fofo. Mesmo um bezerro já seco (nascido há algum tempo durante a noite) pode se beneficiar deste minuto de aproximação, que irá estimular sua circulação.

O tempo gasto fornecendo colostro é outra chance de reforçar o contato homem-bezerro. Ao fornecer colostro na mamadeira, posicione-se ao lado do bezerro de maneira a poder "coçar" suas costas. O objetivo é estimulá-lo, deixá-lo seco e confortável. Fazê-lo levantar e caminhar ao redor. Tire vantagem dessa oportunidade no primeiro dia para começar a minimizar o espaço pessoal da bezerra através de contatos positivos.

Bezerros criados em casinhas são uma ótima oportunidade para contato freqüente. Isto irá diminuir sua área de espaço pessoal. Eles terão menos "memórias de medo". Não é difícil constatar nas fazendas que bezerras manejadas de forma grosseira são cronicamente estressadas e medrosas e não desempenham tão bem quanto aquelas tratadas gentilmente.

Tente manter uma rotina constante. Bezerros não precisam de muita novidade. As mesmas pessoas cuidando. Os mesmos sons dia após dia. Os mesmos horários de alimentação. Alguns argumentam inclusive que a manutenção da cor do ambiente faz diferença. É sabido que o gado não gosta de mudanças abruptas na cor do ambiente. Exemplo disso é que bezerras que normalmente tem um espaço pessoal pequeno agem de forma amedrontada em dias de chuva, quando os caracteres se alteram de um céu azulado para amarelado ou cinzento. Alguns criadores chegam ao extremo de só utilizar baldes (de leite ou ração) de uma única cor. No entanto, mesmo existindo alguma preferência por cor, pela capacidade de adaptação dos bezerros é mais provável que uma cor constante seja mais importante que a cor em si. Mas já que bezerras são atraídas por cores vivas, talvez elas sejam melhores que as escuras.

Quando os bezerros passam ao manejo em grupos, já nos lotes de novilhas, é preciso atenção sobre como eles serão manejados. A mudança física das casinhas para os grupos em piquetes pode ser um evento altamente estressante. A mudança bruta e impaciente contribuirá para que ele registre outra memória de medo. Recomenda-se portanto o manejo cuidadoso e paciente auxiliando na manutenção de uma pequena área de espaço pessoal.

Se as novilhas tem que ser embarcadas em um caminhão para transporte é melhor que as laterais de proteção sejam sólidas, impedindo a visão através de fendas. Isto irá reduzir o estresse. Também o uso do mesmo equipamento toda vez que as novilhas são transportadas irá reduzir o estresse.

No próximo artigo serão discutidos outros pontos importantes.

Referência:

Grandin, T., 1997. Adapting Bovine Behavior To Improve Performance.

Leadley, S. e P. Sodja, 2001. Improving Heifer Handling (Part 1). Calving Ease. Decembert.

Leadley, S. e P. Sodja, 2002. Improving Heifer Handling (Part 2). Calving Ease. January.

Roenfeldt, S., 2001. Good animal handling pays. Dairy Herd Management. September, 13.
Ícone para ver comentários 2
Ícone para curtir artigo 0

Material escrito por:

José Roberto Peres

José Roberto Peres

Acessar todos os materiais

Deixe sua opinião!

Foto do usuário

Todos os comentários são moderados pela equipe MilkPoint, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Contamos com sua colaboração.

Luis Henrique
LUIS HENRIQUE

JABOTICABA - RIO GRANDE DO SUL - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 23/03/2014

é isso ai compadre!
Roberto Calza
ROBERTO CALZA

TUCUNDUVA - RIO GRANDE DO SUL

EM 09/10/2008

Você gostaria de obter 10% de aumento na produção de leite sem aumentar suas despesas? Com certeza a resposta é um imediato e sonoro "sim". A maneira de se obter isso pode ser uma melhor adaptação dos animais ao ambiente e às pessoas que irão manejá-los.

Um número crescente de pesquisas mostra que animais amedrontados são menos produtivos. O medo dos humanos leva a maior estresse no animal. Este aumento no estresse, medido através dos níveis de cortisona, influenciam direta e negativamente as taxas de crescimento, a saúde e a produção de leite. É bastante difícil quantificar o exato retorno possível, mas algumas pesquisas indicam por exemplo que, com vacas em lactação, o manejo inadequado dos animais pode diminuir em até 10% a produção de leite. De forma semelhante, na criação de bezerros e novilhas este prejuízo ocorre na forma de menores taxas de ganho em peso e saúde debilitada. Em outras palavras, práticas que aumentam o estresse animal podem consumir parte (ou todo) seu lucro na atividade.

É importante destacar que "manejo inadequado" não se limita a maltratar os animais ou aplicar choque para conduzi-los, por exemplo. Manejo inadequado - do tipo que pode conduzir a perdas econômicas - inclui toda prática que resulte numa resposta de medo por parte dos animais. A relação de confiança entre homem e animal se inicia quando ele ainda é jovem (bezerro). Tenha em mente que os animais podem desenvolver memórias permanentes de medo relacionadas a lugares, pessoas ou equipamentos específicos. Por isso certifique-se que a primeira experiência do animal numa determinada situação seja sempre positiva. Isto não implica, no entanto, na necessidade de tratar bezerros e vacas como animais de estimação. É preciso unicamente desenvolver práticas onde os animais são acostumados ao manejo e não têm medo das pessoas.

A seguir serão discutidos alguns princípios básicos de comportamento animal que podem auxiliar no desenvolvimento de um bom relacionamento homem-animal.

Em primeiro lugar é preciso saber que os bovinos têm um amplo ângulo de visão, estimado em cerca de 300 graus. Eles utilizam este campo para definir seu "espaço pessoal", que representa sua área de conforto ao redor de humanos. Animais com menor "espaço pessoal" permitem contato mais próximo ou não se esquivam quando uma pessoa se aproxima. Por exemplo, o "espaço pessoal" de gado de corte criado a campo pode atingir 50 metros, enquanto que vacas leiteiras, criadas em confinamento bem manejado, podem chegar a não ter espaço pessoal (permitem total aproximação humana). Você percebe que penetrou no "espaço pessoal" do animal no momento da aproximação em que o animal tenta afastar-se ou fugir.

O "espaço pessoal", como o próprio nome indica, é uma característica individual que será influenciada pelo manejo recebido desde os primeiros dias de vida. Estas "memórias" persistirão por vários meses. Memórias de medo aumentam significativamente a área de espaço pessoal. Como regra geral seu tamanho diminuirá lenta e gradativamente, se o animal for manejado gentilmente com freqüência.

Bezerros e novilhas podem prontamente diferenciar duas situações e fazer a escolha para evitar as mais estressantes. Além disso, eles são sensitivos a mudanças de cor e textura. O movimento é outro fator que pode amedrontá-los, especialmente quando eles não têm total visão do objeto que se move como, por exemplo, pessoas ou máquinas movendo-se ao longo de uma cerca. Novidades também podem ser grandes fatores de estresse. A exposição repetida reduzirá o efeito de alguma inovação.

Na prática, estes princípios podem ser aplicados de várias maneiras.

O momento do parto é nossa primeira oportunidade de demonstrar segurança aos animais. Enxugá-los com uma toalha seca pode ser o primeiro passo para uma relação duradoura. Massageie o bezerro até que seu pelo fique seco e fofo. Mesmo um bezerro já seco (nascido há algum tempo durante a noite) pode se beneficiar deste minuto de aproximação, que irá estimular sua circulação.

O tempo gasto fornecendo colostro é outra chance de reforçar o contato homem-bezerro. Ao fornecer colostro na mamadeira, posicione-se ao lado do bezerro de maneira a poder "coçar" suas costas. O objetivo é estimulá-lo, deixá-lo seco e confortável. Fazê-lo levantar e caminhar ao redor. Tire vantagem dessa oportunidade no primeiro dia para começar a minimizar o espaço pessoal da bezerra através de contatos positivos.

Bezerros criados em casinhas são uma ótima oportunidade para contato freqüente. Isto irá diminuir sua área de espaço pessoal. Eles terão menos "memórias de medo". Não é difícil constatar nas fazendas que bezerras manejadas de forma grosseira são cronicamente estressadas e medrosas e não desempenham tão bem quanto aquelas tratadas gentilmente.

Tente manter uma rotina constante. Bezerros não precisam de muita novidade. As mesmas pessoas cuidando. Os mesmos sons dia após dia. Os mesmos horários de alimentação. Alguns argumentam inclusive que a manutenção da cor do ambiente faz diferença. É sabido que o gado não gosta de mudanças abruptas na cor do ambiente. Exemplo disso é que bezerras que normalmente tem um espaço pessoal pequeno agem de forma amedrontada em dias de chuva, quando os caracteres se alteram de um céu azulado para amarelado ou cinzento. Alguns criadores chegam ao extremo de só utilizar baldes (de leite ou ração) de uma única cor. No entanto, mesmo existindo alguma preferência por cor, pela capacidade de adaptação dos bezerros é mais provável que uma cor constante seja mais importante que a cor em si. Mas já que bezerras são atraídas por cores vivas, talvez elas sejam melhores que as escuras.

Quando os bezerros passam ao manejo em grupos, já nos lotes de novilhas, é preciso atenção sobre como eles serão manejados. A mudança física das casinhas para os grupos em piquetes pode ser um evento altamente estressante. A mudança bruta e impaciente contribuirá para que ele registre outra memória de medo. Recomenda-se portanto o manejo cuidadoso e paciente auxiliando na manutenção de uma pequena área de espaço pessoal.

Se as novilhas têm que ser embarcadas em um caminhão para transporte é melhor que as laterais de proteção sejam sólidas, impedindo a visão através de fendas. Isto irá reduzir o estresse. Também o uso do mesmo equipamento toda vez que as novilhas são transportadas irá reduzir o estresse.
Qual a sua dúvida hoje?