Avaliação do manejo nutricional: o negócio é observar as vacas! - parte 2

Publicado em: - 5 minutos de leitura

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Dando continuidade ao artigo publicado no mês passado neste radar, vamos agora abordar alguns aspectos envolvidos com a observação direta das vacas para avaliar o manejo nutricional. É fundamental observar de perto os animais, os alimentos consumidos por eles, e os dejetos produzidos pelas vacas, que podem nos dar informações valiosas.

Avaliando as vacas

• De cada 10 vacas, quantas estão ruminando?
• Há sinais de que as vacas estão selecionando a ração? O que está sendo selecionado?
• As vacas estão consumindo dejetos, terra ou areia? Estão consumindo minerais de forma exagerada?
• Os animais parecem saudáveis, com pelo brilhante ?
• O escore médio de condição corporal é adequado para cada lote? Há muita variação no escore de condição corporal dentro dos lotes?
• Há muitas vacas com problemas de casco?

Como regra geral, caso não estejam comendo, bebendo, dormindo, ou sob stress térmico, 4 a 5 vacas de cada 10 devem estar ruminando. As vacas podem ruminar por até 10 horas por dia, então se isso não estiver acontecendo, procure a causa. Seleção de alimentos? Falta de FDN efetivo? Isso deve ser investigado.

As vacas têm muito pouco com o que se divertir. "Conferir" cercas e portões, cheirar pessoas que passam próximas a elas, e selecionar a comida. Na primeira parte deste artigo (leia aqui) há algumas dicas do que fazer para reduzir a seleção no cocho. Se as vacas fazem muita seleção, haverá grande variação nas fezes (de secas à diarréia) dentro do lote, que supostamente está consumindo a mesma ração. E nesse caso ficamos sem ter idéia de qual ração cada vaca está efetivamente consumindo. Dessa forma, aumentam os casos de acidose ruminal e outros distúrbios digestivos. Para resolver o problema, é preciso formular e fornecer uma ração na qual as vacas não consigam selecionar alimentos.

Outro ponto a ser observado é que o aumento no consumo de minerais, ou a ingestão de dejetos, terra ou areia são sinais claros de desordens digestivas, ou de que as vacas estão sofrendo com o calor (stress térmico).

Três aspectos relativos às vacas são muito úteis para se avaliar o manejo do rebanho: aparência, temperamento e condição corporal. São informações que nos ajudam a identificar problemas na saúde dos animais e saber se o programa de alimentação está conseguindo atender aos requerimentos dos animais. Por exemplo, grande variação na condição corporal dentro dos lotes é um sinal de que há problemas na alocação das vacas aos lotes, ou ao padrão de consumo. As vacas estão de fato consumindo aquilo que foi formulado, ou está havendo competição exagerada ou seleção de alimentos no cocho?

Problemas de temperamento (nervosismo ou irritabilidade excessiva) podem ser relacionados à alimentação, mas é mais comum que a origem seja a forma como as pessoas lidam com as vacas na fazenda. Vacas calmas são mais fáceis de manejar, e muito provavelmente produzem mais leite que vacas de mesmo potencial, mas que apresentam algum grau de irritabilidade. Gritar, bater, fazer as vacas correrem, brincar de "rodeio" com as vacas são comportamentos absolutamente contraproducentes e devem ser absolutamente intolerados em qualquer sistema de produção de leite.

Frequência elevada de problemas de casco indica ocorrência de acidose, e/ou presença de pisos muito abrasivos ou escorregadios. Nesse caso, deve-se encontrar a causa dos problemas e fazer o que for necessário para corrigi-lo. Vacas com problemas de casco, comem menos, produzem menos e têm índices reprodutivos piores.

Avaliando as fezes

Através da observação atenta das fezes podemos tirar muitas informações a respeito do destino que as vacas estão dando para a ração que consomem. Mudanças na consistência e tamanho de partículas das fezes podem nos indicar se o rúmen está funcionando satisfatoriamente. Se estiver, isso significa que há quantidades adequadas de FDN na ração, e que o manejo alimentar está adequado, e, nesse caso, as fezes serão firmes, com poucas partículas fibrosas e poucas partículas identificáveis de alimentos.

Se o rúmen não estiver em boas condições, como durante acidose, os alimentos podem passar não digeridos para o intestino grosso, onde serão fermentados, originando fezes com espuma e bolhas, diarréia, com presença de muco, e possivelmente com muitas partículas identificáveis de alimentos. Se o rebanho não estiver acometido por nenhuma doença, as fezes podem nos dizer muita coisa sobre a ração.

Em cada lote:

• As fezes estão "espumosas" ou com muitas bolhas de ar?
• A consistência das fezes está muito mole (diarréia)?
• Há muita variação na consistência das fezes dentro dos lotes, ou grupos de alimentação?

Fezes moles e com bolhas indicam mal funcionamento do rúmen, como acontece com animais em acidose. O gás produzido pela fermentação microbiana no intestino grosso fica retido em meio às fezes, tornando-a espumosa. Os AGV produzidos nessa situação podem ser uma das causas da diarréia. Outras possibilidades para essa ocorrência são o consumo de alimentos mofados ou deteriorados. Se há muita variação na consistência das fezes dentro dos grupos, isso indica que as vacas estão selecionando os alimentos e/ou algumas vacas consumiram alimentos deteriorados.

• Há partículas de muco nas fezes?

Essas partículas semelhantes a um muco que algumas vezes se observa nas fezes na verdade são mucina ou fibrina, substâncias que o organismo secreta quando o epitélio digestivo está com algum dano ou irritação, o que está intimamente associado à presença excessiva de ácidos no local, normalmente devido ao excesso de fermentação no intestino grosso. Técnicos que trabalham com a terminação de animais em confinamento associam a presença de muco nas fezes à ocorrência de acidose.

• Há grãos visíveis nas fezes?

Se há muitas partículas de grãos visíveis nas fezes, é sinal de que estes podem estar passando pelo rúmen muito rapidamente. É de se esperar que vacas de alta produção apresentem maior quantidade de grãos visíveis nas fezes, em função da alta ingestão de matéria seca e elevada taxa de passagem, de forma que uma pequena quantidade de grãos nas fezes não caracteriza um problema. No entanto, se essa quantidade for excessiva, isso significa que uma porção significativa desses grãos está sendo perdida. Uma forma de compensar essa perda é fazer um processamento mais intenso (moagem mais fina), a fim de facilitar o ataque enzimático a eles.

Como ainda há outros pontos importantes a observar para uma avaliação detalhada do manejo nutricional, vou apresentá-los na terceira e última parte deste artigo, a ser publicada brevemente. Entendo que nesta segunda parte, somada à primeira, publicada no mês passado, há muitas informações para se "digerir" com calma. Há muito trabalho a fazer em qualquer fazenda produtora de leite, então mãos à obra. Até o próximo radar!

Literatura consultada

HALL, M. B. The cows are always right!: Evaluating rations. Proceedings of the 6th Western Dairy Management Conference. Reno, NY, 2003.

NATIONAL RESEARCH COUNCIL.. Nutrient Requirements of Dairy Cattle. Washington, D.C.: National Academy Press, 2001, 7th rev. ed. 381p.
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Material escrito por:

Alexandre M. Pedroso

Alexandre M. Pedroso

Doutor em Ciência Animal e Pastagens, CowSignals Expert, especialista em nutrição, manejo e bem-estar de bovinos leiteiros.

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Junior Augusto dos Santos Franke
JUNIOR AUGUSTO DOS SANTOS FRANKE

TOLEDO - PARANÁ - REVENDA DE PRODUTOS AGROPECUÁRIOS

EM 18/06/2012

Matéria fantástica, muitas duvidas estão sendo esclarecidas...
João Marcos Santos Malucelli
JOÃO MARCOS SANTOS MALUCELLI

PALMEIRA - PARANÁ - PRODUÇÃO DE OVINOS

EM 03/01/2007

Parabéns pelo artigo. Técnico, esclarecedor e orientador. Os profissionais da área, assim como os produtores, necessitam destas informações para o bem estar dos animais e para o sucesso na atividade.

Penso que seria muito interessante um artigo sobre o uso dos pré e probióticos na dieta do rebanho leiteiro.

Saudações.
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