As micotoxinas se originam no campo, não no silo

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A presença de micotoxinas nos alimentos é sempre temida e discutida por criadores e técnicos. Infelizmente quase nunca se chega a uma conclusão, pois, neste tema, ainda não existem respostas para todas as perguntas.

De qualquer forma, parecem ser crescentes as evidências dos efeitos prejudiciais das micotoxinas nas dietas de todas as espécies animais. Paralelamente, cada vez mais o conhecimento sobre o assunto aponta para o fato das toxinas se originarem ainda no campo, ao invés de ser um problema de estocagem (embora isto também seja possível). Tendo isto em mente, o entendimento de alguns conceitos básicos pode auxiliar no seu controle.

Os fungos podem se desenvolver em uma grande variedade de ambientes. Como exemplo, as micotoxinas produzidas por Fusarium (DON ou vomitoxina; T-2; Zearalenona e Fumonisina) freqüentemente são encontradas e/ou acusadas de causar problemas nutricionais. O gênero Fusarium engloba várias espécies de fungos. As condições para o desenvolvimento de fungos do gênero Fusarium no campo são alta umidade (mais de 70%), presença de oxigênio (não ocorre em um silo bem compactado) e temperaturas que flutuem entre dias quentes e noites frias. Estas condições normalmente são encontradas no início do outono e são responsáveis pelo aparecimento de uma série de doenças em plantas (incluindo podridões de colmos e espigas).

Os fungos podem ser encontrados em todo lugar. Eles "hibernam" no solo, em restos de plantas, e sobre ou dentro das sementes. Sua eliminação, portanto, não é uma alternativa realista. O estresse da planta e do ambiente determinam a extensão da infecção das plantas por fungos. Estes fatores precisam ser controlados da melhor forma possível, o que, diga-se de passagem, não é tarefa fácil, já que os esporos dos fungos podem penetrar na planta por várias vias (normalmente através de ferimentos provocados pelo vento, ação mecânica, picadas de insetos, etc.).

Os fungos não são diferentes de nenhum outro ser vivo: eles precisam de nutrientes para crescer. A competição por nutrientes vem tanto da própria planta hospedeira quanto de outros microrganismos. A produção de toxinas é uma "arma" que alguns fungos dispõe para ganhar esta competição. Portanto, a produção de toxinas é máxima quando a disponibilidade de nutrientes é restrita ou sua demanda por parte da planta é maior. O problema é que, uma vez produzidas, estas toxinas não podem ser destruídas por calor, pelo tempo ou por fermentação no silo.

A relação entre a constatação visual da presença de fungos e a existência de micotoxinas não é um bom parâmetro de avaliação de risco. É perfeitamente possível se ter fungos e não se ter toxinas. Do outro lado, também é possível não existir qualquer fungo visível e se ter altos níveis de toxinas. Isto é o que faz a identificação e controle dos problemas nutricionais relacionados a micotoxinas tão difícil. Quando se suspeita da presença de micotoxinas, é sempre importante analisar uma amostra do alimento.

Alguns fatores, no entanto, influem na sua ocorrência:

1) Fertilidade do solo - solos com fertilidade controlada reduzem o estresse das plantas e sua predisposição às doenças. Mais especificamente, tanto altos quanto baixos níveis de nitrogênio e/ou baixo nível de potássio no solo têm sido diretamente associados a maior ocorrência de podridões de colmo em campos de milho.

2) Seleção genética - algumas empresas já estão selecionando híbridos resistentes a algumas doenças. Outras já iniciaram a seleção de híbridos para o nível de micotoxinas, mas isto está apenas começando. Outros fatores, porém, interferem no comportamento do híbrido, como mencionado nos itens abaixo:

3) Maturidade - muitos produtores colhem seus híbridos no limite de sua maturidade, para obter o máximo de produtividade. Isto funciona quando nenhum fator predisponente a doenças ocorre: plantio tardio; falta de calor suficiente (graus dia); ocorrência de geadas precoces.

4) Textura do grão - uma característica bastante discutida ultimamente é a textura do grão. Do ponto de vista nutricional, os grãos macios (dentados) são desejáveis por ser mais eficientemente digeridos. Por outro lado, alguns argumentam que os grãos moles são mais susceptíveis à invasão por fungos. Provavelmente a textura do grão não é relevante se a planta for colhida para silagem, com 65-70% de umidade.

5) Genética - no futuro, muito provavelmente o desenvolvimento de plantas transgênicas resistentes a fungos , ou com capacidade de detoxificar suas toxinas serão desenvolvidas. Já existem trabalhos neste sentido.

6) Preparo do solo e rotação de culturas - quanto maior a quantidade de resíduos deixados por uma cultura no solo, maior a chance de ocorrência de fungos. Mesmo assim, são indiscutíveis os benefícios do plantio direto. Nestas condições, é fundamental a rotação entre culturas que não sirvam de hospedeiros para os mesmos tipos de fungos.

7) Controle de doenças de folhas - os fungos que causam doenças de folhas no milho não produzem micotoxinas, mas seu controle pode ter impacto no potencial de desenvolvimento de fungos e micotoxinas em outras partes da planta. Se as doenças foliares são controladas, a fotossíntese é maximizada e prolongada. Isto retarda a canibalização dos nutrientes do colmo para o enchimento dos grãos e faz com que o colmo fique menos susceptível ao desenvolvimento de doenças.

8) Momento da colheita - a colheita no ponto adequado garante que a planta não fique no campo mais tempo que o necessário. Algumas pesquisas já demonstraram que quanto mais tempo o milho permanece no campo, maior o número de amostras positivas para micotoxinas. Além disso, milho colhido tardiamente, mais seco, é difícil de ser compactado no silo. Embora existam indícios que os níveis de fungos e micotoxinas não se elevam após a ensilagem, isto pode ocorrer caso o oxigênio presente em silagens mal compactadas e o pH sejam muito elevados.

Em resumo, existem muitas questões ainda a serem respondidas sobre este tema. Neste texto foi utilizado o exemplo do Fusarium, mas outros gêneros de fungos como Pennicillium e Aspergillus produzem micotoxinas perigosas. Faça portanto o que for possível para evitar sua ocorrência e teste os alimentos quando houver suspeita.

Comentário do autor: além da dificuldade de controle, existe ainda a dificuldade de identificação da presença de toxinas nos alimentos, já que as análises existentes são específicas, ou seja, é preciso saber que tipo de fungo/toxina se espera encontrar para que se possa analisar. Para piorar a situação as análises são caras.

Fonte: Rankin, Mike, 2002. Mycotoxins start in the field...not in the silo. Hoard's Dairyman. August 10.
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Material escrito por:

José Roberto Peres

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Custódio Agostinho Freire
CUSTÓDIO AGOSTINHO FREIRE

OUTRO - MINAS GERAIS

EM 19/10/2002

Jose Roberto Peres, gostaria de lhe pedir informaçoes sobre o farelo de amendoim, a respeito de sua comentada substituiçao do farelo de soja de forma total (o farelo de amendoim substituir o farelo de soja na mesma quantidade na dieta sem queda de desempenho animal). Existe algum risco em termos de contaminaçao por micotoxinas? E uma outra dica, sobre usinas de beneficiamento de amendoim ou outras empresas que produzam o farelo para comercializaçao, para que possa realizar um contato para que possa adquirir este produto para minha região.

Certo de sua atençao, agradeço.
Muito obrigado.


<b>Resposta:</b>

Caro Sr. Custódio:

Confesso que nunca trabalhei com farelo de amendoim. Já apareceram algumas (poucas) oportunidades mas, na realidade, nunca tive coragem. Eu acredito sim que o risco de micotoxinas é muito grande. O amendoim (inclusive esse comercializado para consumo humano), é um dos campeões de contaminação por micotoxinas.
Quanto a substituir o farelo de soja na mesma quantidade sem prejuízo de desempenho, na minha opinião não é possível. Não porque sua proteína não tenha boa qualidade, mas porque o farelo de algodão é menos concentrado que o de soja e, portanto, é só fazer as contas para perceber que o consumo de proteína seria menor e, portanto, a não ser que haja excesso de proteína na dieta em questão (com far. de soja), vai faltar proteína, o que é fator limitante para o desempenho animal. É preciso ainda verificar o valor energético desse farelo, que possivelmente é inferior (por ser constituido de mais casca), o que também precisa ser corrigido.
Já cheguei a substituir o farelo de soja pelo de algodão (feitas as devidas correções protéicas e energéticas) sem qualquer prejuízo ao desempenho. Eu preferiria esta opção.
Espero ter ajudado.
Continue participando.

José Roberto Peres
Equipe Milkpoint

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