Análise dos coeficientes de desempenho técnico e econômico que caracterizam as Unidades Produtoras Benchmark na atividade leiteira (parte 1 de 4)

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Por Edna Menegaz 1

1a Etapa

Introdução

A integração cada vez maior entre os mercados, aliado à saída da intervenção governamental da cadeia produtiva do leite e a estabilização da economia do país a partir de 1990, ocasionou grandes modificações nos diferentes segmentos do sistema agroindustrial do leite.

Para garantir a sustentabilidade de vantagens que permitissem a manutenção e a sobrevivência do setor diante de um mercado mais competitivo, foi necessário iniciar um processo de reestruturação e organização dos diferentes elos que compõem a cadeia produtiva do leite.

A necessidade de modernização da atividade leiteira foi impulsionada pelo surgimento de consumidores mais exigentes no mercado e pelo aumento significativo na demanda por produtos lácteos ocasionado pela estabilização econômica, o que contribuiu para a entrada de consumidores de baixa renda no mercado de consumo, até então restrito às classes de renda mais elevada.

Com o intuito de melhor satisfazer as exigências e as necessidades do mercado consumidor, a concorrência entre as empresas processadoras de leite aumentou, ocasionando redução de preços, adoção de estratégias de lançamento de novos produtos e, principalmente, o aumento do volume de captação com expressiva redução do número de produtores fornecedores. Desta forma, a indústria de laticínios tem-se modernizado e acompanhado as tendências mundiais para o setor, adotando tecnologias para melhorar a eficiência produtiva e, conseqüentemente, garantir a manutenção da competitividade no mercado.

Por outro lado, o setor primário ainda tem-se mostrado bastante frágil diante deste novo ambiente competitivo que, nos últimos anos, tem caracterizado o sistema agroindustrial do leite. A baixa qualidade da matéria-prima associada à baixa escala de produção obtida pelas Unidades Produtoras do país, tem dificultado a adoção de novas tecnologias pelo setor o que, diretamente, acaba limitando a sua eficácia produtiva e a sua capacidade de competição no mercado. Acompanhar o progresso tecnológico da indústria processadora de leite exige um posicionamento mais sofisticado do setor produtivo. Para tanto, faz-se necessário à realização de novos investimentos na atividade leiteira que, além de apresentarem maior capacidade de resposta à produtividade e à qualidade da matéria-prima, passem a garantir melhores condições de competição tanto à indústria como para o setor primário.

Com a intenção de auxiliar o setor produtivo a se profissionalizar na atividade leiteira, assim como fortalecer o seu posicionamento diante da cadeia produtiva do leite, a Avipal Alimentos S.A. implementou o Sistema Benchmarking no ano de 2000, o qual serviu como estratégia para melhorar o desempenho técnico e econômico das Unidades Produtoras do estado do Rio Grande do Sul. Cabe ressaltar que este trabalho envolveu, além dos produtores que entregavam a produção diretamente a empresa, a participação de 23 Cooperativas parceiras da Avipal Alimentos S.A., as quais representavam 51% do leite recebido com inspeção federal no Estado.

Através deste sistema, foi possível conhecer os coeficientes de desempenho técnico e econômico que caracterizam os diferentes sistemas de produção de leite (pesquisa geral 2000) e, também, identificar as Unidades Produtoras que foram benchmark em alguma prática, processo, procedimento ou indicador naquele ano (1º Concurso Benchmarking).

De posse desses dados e observando o efeito positivo desse estudo sobre o comportamento do setor primário, a Avipal Alimentos S.A. organizou o 2º Concurso Benchmarking que foi realizado em 2002 e contou com a participação de dezesseis Unidades Produtoras. O principal objetivo deste evento era incentivar os produtores de leite a buscar constantemente melhorias em seus sistemas de produção e, com isto, alcançarem melhores condições de produtividade e rentabilidade na atividade leiteira.

Para dar continuidade na identificação dos coeficientes benchmark de desempenho técnico e econômico e, também, na avaliação das Unidades Produtoras benchmark em alguma prática, processo, procedimento, controle ou indicador na atividade, a empresa realizou uma nova pesquisa geral no ano de 2004, sendo nesse mesmo ano realizado o 3º Concurso Benchmarking.

Assim, considerando a necessidade de se divulgar o progresso obtido pelo setor primário com a utilização da técnica de benchmarking através da realização de avaliações contínuas que apontem a implementação das práticas, processos e procedimentos benchmark pelas Unidades Produtoras, o presente trabalho tem como objetivo avaliar a evolução dos coeficientes de desempenho técnico e econômico das Unidades Produtoras benchmark que, em igual situação, participaram dos três períodos de análise do Sistema Benchmarking realizado pela Avipal Alimentos S.A.

Para melhor atender ao objetivo da pesquisa, este trabalho encontra-se estruturado em 5 capítulos, os quais serão apresentados em 4 etapas. Ainda nesta primeira etapa, será apresentada uma breve contextualização da exploração leiteira, sendo destacado o grande potencial da atividade nos países em desenvolvimento, bem como os principais entraves que tem dificultado a profissionalização do setor produtivo.

Após o capítulo introdutório, será apresentada a segunda etapa da pesquisa, a qual consistirá na descrição da base conceitual dos principais elementos abordados e, também, na apresentação dos métodos e procedimentos utilizados para atingir o objetivo do trabalho.

Na terceira etapa, serão apresentados os principais resultados obtidos através do processo metodológico proposto, onde será avaliado a evolução e o comportamento dos principais coeficientes de desempenho técnico e econômico que caracterizaram as Unidades Produtoras benchmark nas três fases de análise do Sistema Benchmarking.

E, para finalizar, na quarta etapa serão apresentadas as considerações finais, sendo ressaltado os principais resultados obtidos na pesquisa. Além disso, serão apresentadas as limitações do estudo, bem como as contribuições da técnica de benchmarking para o aprimoramento do setor primário da cadeia produtiva do leite.

Contextualização da atividade leiteira

A produção mundial de leite em 2003 foi de 507 bilhões de litros, a qual representou um acréscimo de 7,19% sobre a produção atingida em 2002. Desse total, apenas 30% é proveniente dos países em desenvolvimento, os quais apresentam 78% da população do planeta (FAO, 2004). Apesar da atual relevância dos países desenvolvidos na produção mundial de leite, Jank (1999) retrata a tendência de contração da produção nestes países, principalmente aqueles praticantes de pesados subsídios à produção, onde as próprias barreiras tecnológicas e de demanda acabam limitando o crescimento do setor.

Desta forma, o incremento na produção mundial deverá ocorrer através da exploração da atividade leiteira nos países em desenvolvimento, os quais se caracterizam por apresentar um ambiente econômico ainda em expansão, onde os padrões tecnológicos vigentes respondem significativamente a mudanças nos processos de produção, além da demanda por produtos lácteos nesses países ser consideravelmente superior a oferta. Assim, de acordo com Philpot (2002), estima-se que, até 2020, ocorrerá um aumento de 87% no consumo mundial de leite, sendo que 84% desse incremento serão provenientes dos países em desenvolvimento.

Dentro deste contexto, cabe mencionar o desempenho da produção de leite no Brasil que, na década de 90, apresentou um crescimento de 37% e passou a representar uma das principais fontes de renda para uma parcela bastante significativa da população brasileira (CNA, 2002). De acordo com Gomes (2001), as principais causas deste comportamento encontram-se vinculadas à abertura comercial do país ao mercado internacional, à estabilização da economia brasileira e, também, à liberalização do preço do leite no mercado interno.

Atualmente, o Brasil ocupa o sexto lugar na classificação mundial dos principais países produtores de leite. Em 2003, o País produziu 22,2 bilhões de litros e passou a representar 4,38% da produção mundial. A produção brasileira de leite neste ano apresentou um crescimento de 8,82% quando comparado a 2002, ano esse em que se obteve 20,4 bilhões de litros de leite (IBGE, 2004).

Considerando a tendência mundial de redução das margens de lucro para o setor, o Brasil tem-se destacado por apresentar as condições necessárias para se tornar um dos países mais competitivos na atividade leiteira. As condições agroclimáticas do país permitem a produção de forragens durante todo o ano e, como conseqüência, favorecem o estabelecimento de sistemas produtivos que possibilitam a obtenção de baixos custos de produção (RESENDE e VILELA, 2004).

No âmbito nacional, dentre os principais estados produtores de leite, destaca-se o desempenho da exploração leiteira no estado do Rio Grande do Sul, que apesar de ocupar o terceiro lugar na classificação nacional, apresenta o maior índice de produtividade do país (EMBRAPA GADO DE LEITE, 2003). Segundo Krug e Kliks (2003), a produção de leite em 2002 no estado do Rio Grande do Sul alcançou 2,2 bilhões de litros, representando 10,78% da produção nacional de leite, além de apresentar uma produtividade de 5,5 litros/vaca/dia sendo, este índice, superior a produtividade média do País, a qual está em torno de 3,5 litros/vaca/dia. Entretanto, os índices de produtividade alcançados no País ainda mostram-se bastante frágeis se comparados com a produtividade atingida em outros países produtores de leite como a Argentina, que apresenta 9,76 litros/vaca/dia, e os EUA, que atinge 22,5 litros/vaca/dia.

Sendo assim, para garantir melhores condições de competitividade e, principalmente, promover a sustentabilidade da atividade leiteira no país, é necessário que haja o desenvolvimento de ações voltadas à especialização do setor produtivo (BRANDÃO e LEITE, 2002). Somente através da profissionalização dos agentes ligados diretamente ao setor primário será possível obter maiores índices de produtividade e, desta forma, fortalecer o posicionamento do Brasil frente aos demais países produtores de leite.

A produção de leite no estado do Rio Grande do Sul destaca-se por ser uma das mais eficientes do país. Isto porque, de acordo com Bittencourt (1999), o rebanho é composto, predominantemente, por animais de origem européia, os quais se caracterizam por apresentar maior aptidão genética à produção de leite e, como conseqüência, proporciona a obtenção de maiores índices de produtividade (GOMES, 1999). Outro aspecto relevante, citado por Bressan e Vilela (1999), refere-se à qualidade de algumas forrageiras nativas do Estado, as quais são constituídas por leguminosas e gramíneas de alto valor nutritivo para a alimentação animal.

Contudo, para maximizar o potencial destas vantagens, é necessário que haja a modernização do setor primário. Assim, os fatores condicionadores da produção poderão ser eficientemente manejados, o que refletirá em maiores ganhos de produtividade tanto no período de safra como no período de entressafra e, por conseguinte, contribuirá para a redução da variação sazonal da produção de leite.

De acordo com Krug e Kliks (2003), em 2002 no estado do Rio Grande do Sul, a diferença entre o mês de maior e de menor produção de leite, entregue à indústria de laticínios com inspeção federal, foi de 61% sendo a variação sazonal de 33,16%. Com isto, a sazonalidade que caracteriza a produção de leite no Estado acaba prejudicando tanto o produtor rural, devido à aplicação do leite extracota, quanto à indústria, que é obrigada a trabalhar com ociosidade de até 50% no período de entressafra.

Além do agravante da sazonalidade da produção de leite, as Unidades Produtoras do estado do Rio Grande do Sul também se caracterizam por apresentar baixa escala de produção, o que acaba aumentando os custos de produção por litro de leite e, conseqüentemente, reduzindo as margens de lucro do setor produtivo. De acordo com Krug e Kliks (2003), somente 11,38% dos produtores do estado entregam mais de 100 litros de leite por dia, enquanto que 88,62% dos produtores entregam até 100 litros de leite por dia, sendo estes responsáveis por 57,63% da produção total entregue à indústria com inspeção federal no Rio Grande do Sul.

Dentro deste contexto, Castro e Padula (1998) reforçam a idéia de que, para garantir a eficiência e a sustentabilidade da atividade leiteira, é necessário estimular a profissionalização do setor produtivo. Somente assim, os produtores terão as condições necessárias para atingir uma maior escala de produção, melhorar a qualidade da matéria - prima, aumentar os índices de produtividade e reduzir a variação sazonal da produção leiteira.

Tais alterações no processo produtivo não se traduzem em vantagens competitivas às Unidades Produtoras, mas sim, compreendem os novos padrões de produção que devem ser cumpridos pelo setor primário como forma de garantir a sua permanência no mercado.

Diante deste novo ambiente competitivo, a Avipal Alimentos S.A., a partir do ano de 2000, passou a desenvolver a técnica de benchmarking junto à cadeia produtiva do leite. Desde então, tem-se procurado aperfeiçoar a atuação do setor produtivo através da identificação permanente dos coeficientes de desempenho técnico e econômico que caracterizam as Unidades Produtoras benchmark em alguma prática, processo, procedimento ou indicador.

Assim, para o desenvolvimento e a implementação desta técnica junto à cadeia produtiva do leite foi necessário, num primeiro momento, identificar quais seriam os fatores relevantes dentro de cada sistema de produção e que, conseqüentemente, deveriam ser submetidos à análise. Para tanto, Krug (2000) identificou os fatores considerados tradicionais na avaliação dos sistemas de produção em produtividade, alimentação, sazonalidade, escala de produção, custo de produção, gerenciamento, sanidade/qualidade, padrão genético e assistência técnica.

Somente após esta etapa, foi possível dar início ao processo de identificação dos coeficientes de desempenho técnico e econômico dos diferentes fatores condicionadores da produção de leite segundo cada sistema de produção, além de identificar as Unidades Produtoras benchmark em alguma prática, processo, procedimento, controle ou indicador na atividade leiteira. É importante destacar que, dentre os fatores acima mencionados, utilizou-se o indicador de produtividade (litros/vaca/dia) como critério para identificar as Unidades Produtoras benchmark. Isto porque este indicador reflete diretamente o nível de eficiência produtiva da unidade em análise.

Assim, considerando que, desde o início da implementação da técnica de Benchmarking na cadeia produtiva do leite, as Unidades Produtoras pertencentes ao sistema Avipal têm buscado melhorar constantemente seu desempenho na atividade leiteira. O presente trabalho tem como objetivo avaliar a evolução dos coeficientes de desempenho técnico e econômico das Unidades Produtoras benchmark que, em igual situação, participaram dos três períodos de análise do Sistema Benchmarking.

Na próxima etapa, será apresentado o referencial teórico utilizado para descrever e caracterizar os diferentes sistemas de exploração, bem como os principais fatores condicionadores da produção leiteira. Além disso, será apresentado o conceito teórico sobre Sistema Benchmarking, sendo caracterizado as principais fases envolvidas durante o desenvolvimento de um projeto benchmarking. E, por fim, também serão apresentados os métodos e procedimentos utilizados para atender ao objetivo do trabalho.

Referência bibliográfica

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CASTRO, C. C. de; PADULA, A. D. et al. Estudo da cadeia láctea no Rio Grande do Sul: uma abordagem das relações entre os elos de produção, industrialização e distribuição. Revista de Administração Contemporânea, v. 2, nº 1. Porto Alegre, janeiro/abril, 1998.
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1 Edna Menegaz é mestre em Agronegócios pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Este artigo apresenta os principais resultados obtidos na dissertação apresentada por Edna Menegaz para conclusão do Mestrado em Agronegócios da Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS, 2005.
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