Por Adriana Postos Madureira1,2, Marcelo Simão da Rosa1,3 e Mateus J. R. Paranhos da Costa1,4
Algumas ações e procedimentos veterinários são considerados práticas aversivas, como descorna, vacinação, identificação (brinco, tatuagem), casqueamento, palpação retal, inseminação artificial, entre outras. Para realizá-las, os animais são retirados de sua rotina diária: há alteração do horário de suas atividades, mudança de local, envolvimento de pessoas estranhas, utilização de diferentes equipamentos e barulhos desconhecidos.
Tudo isso prejudica seu bem-estar, o que na prática pode ser observado pelas alterações em indicadores comportamentais, fisiológicos e de produção. Acidentes no campo, envolvendo homens e animais, também são bastante verificados nesse momento.
Em conseqüência desses fatores, é nítida a importância do tipo de ação do médico-veterinário, não só no que diz respeito ao procedimento realizado, mas ao fato dele estar consciente de que suas ações podem afetar de forma significativa o bem-estar dos animais e refletir na sua produtividade.
Na prática, tomamos como exemplo: a reprodução animal, que é considerada o gargalo da pecuária e da exploração financeira de uma propriedade. Já está completamente esclarecido que qualquer tipo de estresse ambiental pode afetar de maneira significativa as respostas reprodutivas dos animais: manifestação de cio, concepção, número de ovócitos e perdas por mortes embrionárias precoces. Estas respostas geralmente são causadas pelo aumento na temperatura corpórea dos animais e aumento de adrenalina na circulação.
Pesquisas têm sido feitas a campo e demonstraram cada vez mais que as "boas ações" realizadas antes e durante os procedimentos considerados aversivos para os animais, constituem em uma ferramenta facilitadora nos procedimentos veterinários, além de contribuir para minimizar o estresse causado pelo procedimento em si e diminuir as perdas ocasionadas por acidentes de manejo.
WAIBLINGER, et al. (2003) estudaram respostas de estresse das vacas ao serem submetidos à palpação retal, simulando o procedimento de inseminação artificial. Buscavam demonstrar que o manejo prévio bem conduzido pode trazer benefícios aos animais, diminuindo o efeito negativo da palpação. O teste foi realizado com 20 vacas, divididas em dois grupos. Um grupo de 10 animais recebeu um tratamento especial durante 4 semanas antes do inicio das sessões de palpação, o outro grupo (também com 10 animais) foi submetido aos procedimentos habituais de manejo.
O tratamento especial consistiu em 10 sessões de manejo positivo, distribuídas dentro das 4 semanas que antecederam os testes. Cada sessão teve a duração de 5 minutos e foi realizada por uma pessoa que alimentava os animais com pequenas quantidades de concentrado enquanto conversava e dava tapinhas suaves no pescoço e na cabeça do animal.
Na quinta semana, foi iniciado o teste de palpação retal, as medidas foram realizadas em três momentos: 1 minuto antes da palpação, 4 minutos de palpação retal e 4 minutos após a palpação. O teste foi repetido por 4 dias para demonstrar o efeito benéfico do condicionamento do animal à pessoa que realizava o manejo rotineiro das vacas.
No primeiro dia, o animal permanecia sozinho durante a sessão de palpação retal. No segundo dia, cada vaca era manejada pelo seu tratador habitual de forma positiva durante um minuto antes do teste, e este permanecia em sua companhia durante a palpação e também nos quatro minutos após. No terceiro, as vacas eram manejadas por um outro trabalhador da propriedade, mas que não tinha contato diário com os animais. No quarto dia, as vacas eram levadas à sessão e manejadas por uma pessoa estranha, que nunca teve contato com os animais.
Para avaliar o bem-estar dos animais, foram observados a freqüência cardíaca e o comportamento do animal. Os resultados foram conclusivos e mostraram que os animais que receberam contato positivo de seu tratador habitual, em especial aqueles que receberam o manejo diferenciado 4 semanas antes do teste, apresentaram menos inquietos durante as sessões de palpação e menores freqüências cardíacas.
A freqüência cardíaca foi maior para os animais que estavam sozinhos ou na companhia de um estranho, e menor quando a vaca estava na presença do tratador habitual. Da mesma maneira, houve maior ocorrência de coices nos animais que não receberam manejo prévio positivo, assim como nos animais que estavam sozinhos ou na companhia da pessoa desconhecida por eles.
Esse último registro nos chama a atenção para a capacidade que o bovino tem de reconhecer e distinguir as pessoas, e até mesmo lembrar de situações boas ou ruins que aconteceram na presença delas. O grupo de animais manejados mostrou ter mais interações positivas com o tratador habitual, seguido da pessoa conhecida mas não habitual, e menos interações com as pessoas desconhecidas.
Diante de tal situação, podemos concluir que os animais permanecem mais tranqüilos quando acompanhados por uma pessoa conhecida, exercendo forte influência no resultado final de uma ação veterinária. Esse resultado é de fundamental importância, pois confirma que mão-de-obra treinada e qualificada pode ajudar a reduzir o estresse animal, minimizar os acidentes e conseqüentemente melhorar a produtividade da atividade leiteira.
Referência Bibliográfica:
WAIBLINGER, S. et al. The relationship between attitudes, personal characteristics and behaviour of stockpeople and subsequent behaviour and production of dairy cows. Applied Animal Behaviour Science, V. 79, p. 195-219, 2002.
WAIBLINGER, S. et al. Previous handling and gentle interactions affect behaviour and heart rate of dairy cows during a veterinary procedure. Applied Animal Behaviour Science, v. 85, p. 31-42, 2004.
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1Grupo ETCO (Grupo de Estudos e Pesquisas em Etologia e Ecologia Animal
2Graduanda em Medicina Veterinária - UNESP/FCAV-SP
3Doutor em Zootecnia - Escola Agrotécnica Federal de Muzambinho - MG
4Departamento de Zootecnia - UNESP/FCAV - SP
A interação positiva com vacas leiteiras diminui o estresse e facilita a realização de procedimentos veterinários
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