
O melhoramento genético de vacas leiteiras vem sendo feito na Nova Zelândia há cerca de 150 anos. Ao longo do tempo, a escolha das raças predomintes tem passado por uma variação de Jersey a Freisian/Holandesa à medida das exigências do mercado. O primeiro animal a chegar ao país por volta de 1800 foi uma vaca Jersey trazida por um missionário e, logo depois, chegaram os animais Freisian/Holandesese vindos da Austrália, Holanda, EUA e Canada. No início do século 19 a indústria leiteira tinha uma preferência por animais Jersey, já que se tendia à produção de sólidos (Gordura+Proteina), ou seja, componentes, não volume. Os sinais a favor de Friesian/Holandesa voltaram em 1960 quando o mercado demandava por mais volume e por bezerros mais pesados para atender a um mercado crescente de carne. O aumento do rebanho Frieisian/Holandesa de 1956 a 1979 cresceu 450%. Hoje das 4 milhões de vacas (o país tem 4 milhões de habitantes ) 48,6% são Friesian/Holandesa, 14,8% são Jersey e 28,3% são animais de cruzamento entre Friesian/Holandesa e Jersey, chamados de "KiwiCross".
Toda a base genética inicial foi trazida de outros países e uma pressão de seleção em fazendas comerciais neozelandesas de mais de 100 anos produziram um animal adaptado. Existem cinco características basicas do melhoramento animal visando adaptabilidade ao sistema sazonal de produção a pasto deste país:
- Conformação: como são animais que passam a vida toda em regime de pasto e diariamente caminham longas distâncias para as ordenhas, possuem pernas fortes e cascos bastante resistentes. Apresentam úbere bem desenvolvido e com ligamentos bem fortes. São animais que suportam condições extremas de temperatura variando de negativo a 40º C.
- Facilidade de Manejo: como geralmente se trabalha com rebanhos grandes e com pouca disponibilidade de mão de obra, é essencial que as vacas se comportem bem e se adaptem rapidamente à rotina diária, com um temperamento dócil e ainda caminhem rapidamente para dentro da ordenha.
- Fertilidade: certamente este é um problema em todo o mundo onde existe grande dificuldade em conseguir que animais de elevado mérito genético retornem a gestação. No sistema sazonal é extremamente importante que estes animais retornem ao parto uma vez ao ano, sendo que existem apenas 8 semanas após o parto para se tornem prenhes novamente. A média neozelandesa de prenhês ao primeiro serviço é de 50% e o intervalo entre partos é de 368 dias. O período de gestação médio é de 282 dias. E a meta de vacas vazias menor que 10% ao final da estação de monta.
- Facilidade de parto: como os partos são concentrados em um intervalo de 8 semanas é essencial que os problemas de parto sejam minimizados. O melhoramento genético visando essa característica vem sendo feito há muitas gerações, tanto para as vacas como para os touros. Existe uma grande gama de touros que podem ser utilizados em novilhas de primeira cria.
- Agressivo hábito de pastejo: como em grande parte das fazendas não existe suplemento e o pasto na maior parte das vezes é escasso, é de vital importância que estes animais tenham um hábito agressivo de pastejo. Esse estilo agressivo contribui para que estes animais demonstrem o máximo potencial na sala de ordenha.
Com certeza, como em outros países, o valor pago pelo leite tem grande impacto sobre as decisões que dizem respeito ao melhoramento genético do rebanho leiteiro de fazendas comercias. Um exemplo foi o ocorrido no Brasil há alguns anos, fruto dos preços mais baixos de leite: uma grande quantidade de animais de corte foi usada em rebanhos leiteiros, trazendo grande produção de bezerros cruzados de melhor valor para a carne, porém provocando uma falta de animais de reposição em anos subsequentes.
Basicamente, não se poder dizer que esta seria uma decisão equivocada, já que os sinais indicavam que seria mais eficiente para o retorno financeiro da propriedade a produção de carne, do que de leite. Porém sempre essas decisões precisam ser feitas na medida certa, já que o preço do leite obedece um movimento cíclico, embora a tendência de longo prazo seja no sentido de valores mais baixos. Porém, o que tem ocorrido na Nova Zelândia, desde 1980, é que o preço do leite neozelandês tem se mantido relativamente estável, flutuando em torno de US$ 0,23 o litro de leite (Gráfico1.). Houve, de qualquer forma, crescimento constante do rebanho, em torno de 100% desde 1990.
O fato do preço da terra ter aumentado drasticamente e a necessidade de aquisição de cotas para novos produtores exerceram uma pressão negativa na entrada de novos produtores na atividade, porém aqueles que ficaram tiveram a chance de aumentar a produção. E mesmo com esse aumento da produção provocado por aumento do número de vacas não ocorreu uma queda drástica nos preços. Com preços estáveis a única forma de crescimento é via aumento da lotação, aumento da produção. A lotação média aumentou de 2.1 em 1990 para 2.8 em 2004.
Gráfico 1. Preço do leite pago ao produtor expressos em 2005 US$ e corrigidos pela inflação local.

Fonte: New Zealand Statistics 2005.
Entretanto, as quedas drásticas de preço de 1950 a 1980 provocaram uma dependência grande de recursos vindos da venda de animais para carne do que de animais que apenas convertiam pastagem em leite, representando uma grande tendência em direção a rebanhos Freisian/Holandesa. O preço pago por bezerros de 4 dias de idade na estação 2005/2006 foi de US$ 10,00 em média, o que não justifica grandes considerações.
Nos últimos anos com uma maior estabilidade de preço as tendências se inverteram, sendo direcionadas para animais com elevada eficiência na transformação de forragem em leite, em que o cruzamento entre Freisian/Holandesa e Jersey merece grandes considerações e tem se tornado largamente utilizado.
Quando se fala em cruzamento é evidente que existem ganhos relacionados à heterose e, no caso do cruzamento entre Freisian e Jersey, se conseguem grandes benefícios provenientes do vigor híbrido resultante. Seguem os resultados esperados no quadro a seguir, segundo New Zealand Animal Evaluation (Figura 1).
Figura 1. Resultado proveniente do primeiro cruzamento entre Freisian e Jersey expresso em termos percentuais.

Além disso tudo, é importante lembrar que existe uma redução de tamanho dos animais quando se compara com vacas holandesas puras, resultando em menor exigência de manutenção e maior eficiência na conversão de Energia (MJ) em kg de sólidos do leite. A maior parte dos grandes rebanhos tende a uma grande concentração de animais cruzados principalmente devido à grande exigência de manutenção dos outros animais. Assim, podemos comparar a eficiência na produção de sólidos (Gord+Prot) e total de leite quando relacionados ao peso vivo médio dos animais das principais raças através da criação de Índices de Eficiência.
Tabela 1. Comparação entre Índice de Eficiência na Produção de Sólidos (Índice 1) e Leite (Índice 2) nas diferentes Raças.

Analisando os dados da Tabela 1, podemos constatar que animais Jersey apresentam maior eficiência na conversão de forragens em sólidos; porém, quando se compara o índice 2, estes animais apresentam uma eficiência muito baixa. Os animais Freisian/Holandesa apresentam uma grande eficiência em produção total de leite, porém no quesito composição apresentam certa limitação. Como mostram os dados da tabela, os animais cruzados Freisian/Holandesa x Jersey apresentaram eficiência moderada em sólidos, mais próximos a animais Jersey, e ainda são muito eficientes em produção, muito próximo aos animais Freisian. Assim, prova-se que realmente estes animais cruzados são uma importante ferramenta para sistemas de produção baseados em elevada produtividade e com pagamento baseado em sólidos.
Assim, na prática, o que é feito nas fazendas é bastante simples: em uma porcentagem do rebanho, se utiliza semen de touros provados Jersey em vacas puras Holandesas e, em vacas puras Jersey, se utiliza semen de touros provados Holandeses.
Quando se trabalha com bons materiais genéticos neste plano de cruzamento rotacional (touros jersey em vacas friesian, sucessivamente e alternadamente), os animais de reposição apresentarão entre 2/3 do vigor híbrido do cruzamento original, em média, nos cruzamentos subsequentes. Ou seja, quando se retorna animais de raças puras em vacas cruzadas.
Grande quantidade de touros cruzados tem sido utilizada em rebanhos comerciais, basicamente caracterizando uma nova raça. Quando isso acontece é garantido que metade do vigor híbrido é mantido, vindo do primeiro cruzamento. Porém algumas das vantagem podem ser perdidas após futuras gerações. Assim existem vários rebanhos utilizando touros cruzados em vacas cruzadas e que ainda apresentam vantagens significativas. Suas filhas apresentam tamanho intermediário, porcentagem de sólidos bastante próxima a rebanhos Jersey, boa conformação, excelente longevidade e ainda menos problemas de pernas e cascos (Figura 2).
Figura 2. Vacas provenientes de cruzamento entre animais Cruzados Jersey x Freisian/Holandês.

Conclusões:
Como 95% do leite produzido na Nova Zelândia é exportado, o mercado internacional exerce grande influência sobre o retorno da atividade leiteira neste país. As tendências de melhoramento genético ao longo dos anos têm sido provocadas por um comportamento de relativa estabilidade de preços de leite. Em um ambiente de baixo custo de produção, o melhoramento genético neozelandês tem se mostrado bastante eficiente no que diz respeito a conversão de pasto em leite de qualidade.
Dentro deste cenário, importantes ferramentas devem ser utilizadas visando sempre aumento da eficiência. Entre elas, os cruzamentos tem tido bastante destaque.
Diferentes alternativas têm se mostrado bastante viáveis e sobretudo cada propriedade opta por aquela que mais se adapta a sua realidade. Porém, a base é sempre a mesma: conversão eficiente de pasto em leite.
Muitos anos de melhoramento focado sempre em adaptabilidade e eficiência ao sistema e uma forte pressão de seleção em fazendas comerciais com grande número de animais avaliados e grande quantidade de touros provados trazem uma grande confiabilidade nos resultados.
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1 Engenheiro Agrônomo pela ESALQ/USP.
