Encontrar funcionários treinados e capacitados para exercer uma função específica dentro de uma fazenda de pecuária leiteira no Brasil é bastante raro, apesar da patente necessidade de aprimoramento e dedicação que a atividade exige. É bem verdade que esse panorama tem melhorado nos últimos anos, principalmente para os cargos de tratorista, responsável pela reprodução do rebanho e ordenhador, que trabalham com máquinas mais complexas ou fatores produtivos de maior valor.
Porém, mesmo com este avanço, a situação da qualidade da mão-de-obra brasileira é bastante crítica, chegando ao absurdo de, em algumas fazendas, o administrador ser analfabeto, permanecendo este tão limitado que não consegue absorver as novas tecnologias que surgem a todo momento na pecuária de leite moderna. Em outras ocasiões ainda é possível constatar proprietários que não conseguem implantar a sua programação de inseminação artificial devido à ausência de funcionários que saibam fazer o serviço. Em muitos casos, os acessórios (botijão, aplicadores, sêmen, etc.) já foram adquiridos e estão guardados à espera de alguém que execute a tarefa.
É importante salientar que eficiência produtiva está intimamente ligada à qualidade da mão-de-obra da propriedade e que isso se traduz em redução de custos e de desperdícios. Assim, o primeiro item a ser verificado é se seus funcionários sabem ler e escrever de maneira satisfatória. Até os que executam trabalhos braçais devem ser checados, pois o fato de saberem ler faz com que possam evitar acidentes (com eles mesmos, com os outros e com os animais) e passem a contribuir de forma mais efetiva para a melhora da empresa em que trabalham (fazenda) à partir do momento em que entendem o sistema de produção. Se o funcionário é bom (desempenha bem as funções, "veste a camisa" da fazenda, é honesto, cuida bem do patrimônio alheio, etc.) seria interessante pagar uma escolinha ou professor particular para alfabetizá-lo. Quando o proprietário oferece isto aos seus funcionários, ao invés de substituí-los, forma-se uma relação extra trabalhista entre eles, refletindo diretamente na produtividade de cada trabalhador, beneficiando a fazenda como um todo, fato muitas vezes baseado num sentimento de gratidão.
O segundo passo é investir na capacitação específica de seus funcionários. A empresa (fazenda) que executa isso, o faz por uma questão de inteligência. Por exemplo: ao tratorista será fornecida uma ferramenta de trabalho que custa por volta de R$ 50.000,00; se este funcionário não estiver habilitado (legalmente pela carteira nacional de trânsito e na prática por cursos de operação e manutenção de máquinas agrícolas) não poderá ser cobrado ou responsabilizado, caso algo que não era de seu conhecimento, o fez falhar no momento em que a fazenda precisava de seu melhor desempenho. Além disso, é muito mais viável economicamente investir de R$ 500,00 a R$ 1.000,00 num curso de capacitação para um funcionário do que arcar com a despesa de ter que consertar uma máquina ou implemento agrícola quebrado por mau uso. Ainda é preciso somar aos gastos o tempo perdido na execução do serviço, o pagamento de mão-de-obra de fora e aluguel de outras máquinas, enquanto a sua estiver na oficina.
No manejo da reprodução os exemplos são inúmeros. O que dizer do funcionário que falha na observação de cio das vacas e novilhas, fazendo com que o intervalo entre partos da fazenda seja aumentado em 2 meses? Com o investimento em um curso de uma semana, com custo aproximado de R$ 350,00 por funcionário, é possível formar um inseminador, que fará o possível para não deixar passar nenhum cio, aumentando a porcentagem de vacas em lactação e a natalidade no plantel. Algumas propriedades optam por terceirizar este setor contratando profissionais de fora para realizar a inseminação de seus animais, principalmente quando o rebanho é pequeno. Porém, o custo para formação de um funcionário é baixo e ele estará sempre à disposição, efetuando a inseminação no momento de maior fertilidade das vacas, tentando não deixar escapar nenhuma matriz.
No manejo da ordenha, estima-se que aproximadamente 80% dos casos de mastites clínicas e sub-clínicas sejam ocasionados pela operação dos conjuntos de ordenha por funcionários mal treinados ou sem treinamento, usando o equipamento erroneamente, mesmo quando a máquina está bem regulada. É sabido por todos que os prejuízos causados pelas mastites são enormes (leite perdido, aplicação de antibióticos, etc.) e que, para operar uma máquina de ordenha, alguns procedimentos básicos devem ser conhecidos pelos funcionários.
O casqueamento é outro exemplo de atividade que pode ser feita na fazenda por funcionário treinado para isso. O curso que geralmente dura três dias (um final de semana), prepara os vaqueiros no sentido de identificar e prevenir os problemas de casco, evitando que os animais tenham que esperar o veterinário chegar para serem tratados, diminuindo o sofrimento deles e os prejuízos causados com isso.
Até mesmo para implantar um sistema de bonificação e de metas de produtividade para os funcionários é preciso que eles estejam capacitados a oferecer o que está sendo pedido. Muitas vezes, por exemplo, não se tem um acréscimo na produtividade das vacas em função do sistema de arraçoamento estar sendo feito de maneira errada, reduzindo o consumo dos animais. Neste caso, o treinamento do responsável pela fábrica de ração melhoraria a mistura da dieta total, que somado ao fornecimento dos alimentos em horários mais apropriados propiciariam o aparecimento dos resultados esperados.
É interessante observar, também, que após o funcionário ter sido treinado, dependendo de seu desempenho na fazenda, a sua mão-de-obra passa a ter um valor maior. Assim, é preciso tomar as devidas precauções para que este não se desligue da propriedade em virtude de problemas com o seu salário, que deve ser revisto.
No caso dos administradores, é imperativo que estes tenham boa noção sobre contabilidade rural, tópicos sobre mercado agrícola e entendam como funciona o setor de compras e vendas de uma empresa. Assim eles pode aplicar todos estes conceitos na fazenda-empresa em que trabalham, contribuindo para a diminuição de custos e aumento da eficiência econômica da atividade.
É importante salientar que a maioria dos cursos dirigidos à mão-de-obra da fazenda é de baixo custo e disponível em quase todas as escolas de agronomia do país. Alguns cursos são ministrados por empresas privadas via internet, com o oferecimento de vasto material apostilado e com a possibilidade de consultas à profissionais atuantes na área. Abaixo estão listados alguns dos temas de cursos que podem ser realizados em órgãos públicos (EMBRAPA, EMATER, CASA DA AGRICULTURA, IAPAR, etc.). Em universidades e empresas privadas, consultores/palestrantes são contratados para este fim.
* Inseminação artificial;
* Manejo de ordenha;
* Dimensionamento de currais, cercas elétricas e convencionais;
* Nutrição, instalações e manejo para gado de leite;
* Produção e conservação de forragens;
* Prevenção e controle de problemas de cascos em bovinos;
* Sistema de pastejo rotacionado;
* Fabricação de queijos e derivado lácteos;
* Contabilidade rural;
* Administração rural;
* Operação e manutenção de máquinas e implementos agrícolas;
* Regulagem de máquinas;
* etc.
É possível também que a maioria destes cursos mencionados seja ministrada na própria fazenda, dependendo do número de interessados que participarão. Os "dias de campo" realizados por fazenda e instituições de divulgação e pesquisa também são ótimas fontes para aperfeiçoamento e permitem a troca de informações entre proprietários, administradores e funcionários de fazendas leiteiras.
O importante é nunca deixar os funcionários à margem das informações (lembrem-se: são eles que fazem funcionar), e sim considerá-los como um fator produtivo que precisa ser reciclado para melhor execução de suas tarefas.
Material escrito por:
Alexandre de Campos Gonçalves
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