Já se sabe que solas muito finas ou muito espessas predispõem a distúrbios na claudicação. Também já é reconhecido que a espessura mínima, suficiente para proteger o tecido córneo e evitar complicações secundárias associadas a solas sensíveis e finas, é de 5 mm. Por outro lado, solas com mais de 8 mm de espessura são importantes fatores determinantes da má distribuição do peso sobre a sola do casco e conseqüentes deformações do estojo córneo.
Para a análise dos dados da pesquisa abordada neste artigo, a espessura da sola foi dividida em três grupos:
- Þ 0 - 4 mm: solas finas
Þ 5 - 7 mm: solas ideais
Þ maior ou igual a 8 mm: solas espessas
É importante destacar que no início do experimento os cascos deformados e com lesões tais como a unha "saca-rolha" e úlcera de sola foram separados e não participaram do estudo.
Na pesquisa descrita neste artigo, os animais que não sofreram casqueamento (Grupo 1) apresentaram uma média da espessura de sola de 8,2 mm (desvio padrão: 2,2 mm). Além disso, 99% dos cascos deste grupo apresentaram uma espessura de sola maior ou igual à 5 mm. O Grupo 2, que sofreu o casqueamento preventivo com 4 cortes, não apresentou diferença significativa do Grupo 1, apresentando uma espessura média da sola de 8,2 mm (desvio padrão: 2,5 mm), sendo que as solas com 5 mm ou mais de espessura foram encontradas em 98% dos cascos. O Grupo 3, que sofreu o casqueamento preventivo baseado na Linha Branca, apresentou uma espessura média da sola de 8,4 mm (desvio padrão: 3,6 mm), sendo que as solas com 5 mm ou mais de espessura foram encontradas em 85% dos cascos (tabela 1 e gráfico 1). Com base nestes resultados, pode-se constatar uma diferença significativa na proporção de solas finas no Grupo 3. Desta forma, se considerarmos que 5 mm é a espessura mínima para proteger adequadamente o tecido córneo, a aplicação do casqueamento realizado no Grupo 3 predispõe a uma maior percentagem de animais com solas finas e sensíveis. E, se forem ainda considerados os inúmeros fatores ambientais e de manejo que contribuem para a ocorrência de solas finas nos confinamentos, pode-se concluir que o casqueamento baseado na linha branca deve ser avaliado com grande cautela!
É também importante considerar que o casqueamento preventivo deve resultar em uma mínima variação na espessura da sola entre os animais casqueados. No estudo, foi observado que o casqueamento preventivo realizado no Grupo 2 apresentou solas com a espessura mais uniforme que os animais do Grupo 3.
Dentre as várias formas de conduzir o casqueamento preventivo, o método mais aceito pelos pesquisadores é o casqueamento em 4 cortes que foi realizado no Grupo 2, também conhecido como casqueamento funcional, que restabelece o equilíbrio entre as unhas e procura manter a sola com 5 a 7 mm de espessura, garantindo uma adequada proteção ao tecido córium. A espessura de 5 a 7 mm na sola, geralmente está associada com um comprimento da muralha dorsal de 7,5 cm.
Estudos associando a espessura da sola e a distribuição do peso do animal sobre o casco serão de grande importância para o melhor entendimento do desenvolvimento das lesões podais e dos fatores associados à conformação do casco. O uso da ultra-sonografia e técnicas de imagens serão determinantes para estes avanços da pesquisa.
Tabela 1 - Espessura da sola dos grupos avaliados

Gráfico 1 - Freqüência dos dados obtidos

Fonte:
VAN AMSTEL, S.R.; PALIN, F.L.; SHEARER, J.K.; ROBINSON, B.F.Anatomical Measurement of Sole Thickness in Cattle Following Application of Two Different Trimmimg Techniques. The Bovine Practitioner, v.36, p.136, 2002.