Quem analisa o setor somente no curto prazo, tem motivos para assim pensar. O primeiro motivo vem do comportamento dos preços pagos ao produtor. O Gráfico 1 mostra que os preços reagiram em fevereiro e março, nos cinco principais estados produtores. E as notícias que nos chegam é que esta tendência continuará a se manter em abril.
Gráfico 1. Preços pagos aos produtores em cinco Estados selecionados. Dezembro/2005 a Março/2006.

Fonte: Usp/Esalq/Cepea
O segundo motivo é que os preços dos insumos estão tendo comportamento favorável. Soja e milho estão em baixa e os insumos industriais (adubos, medicamentos e maquinários) não tem tido forte oscilação altista. Estes insumos têm intensa composição baseada em insumos importados ou têm preços internos atrelados ao mercado externo. O dólar desvalorizado, que encarece as exportações, é o mesmo que barateia as importações e os insumos chamados de tradables, ou seja, que são produzidos internamente, mas têm seus preços atrelados ao mercado internacional.
O terceiro motivo é que vários projetos industriais de laticínios, de médio e grande portes, que foram iniciados em 2004 e 2005, estão sendo finalizados em diferentes partes do país e novas unidades fabris começam a entrar em operação, ao tempo em que a construção de novas plantas industriais estão sendo anunciadas. Isso cria uma expectativa favorável, naturalmente, pois os produtores percebem que, aumentando a capacidade de processamento do país, poderá haver maior disputa pelo seu produto.
O quarto motivo é de efeito comparativo. Como as culturas de grãos e as atividades de produção animal (frango, suino e carne) estão com graves problemas de rentabilidade, fica o sentimento favorável ao leite. Afinal, rico e pobre, antes de serem conceitos absolutos, são conceitos relativos ou resultantes de comparação.
Mas, será que a expectativa favorável que está se formando tem solidez?
É possível que sim, mas é possível que esteja exagerada, pois a produção brasileira de leite deverá crescer no mínimo 4% este ano. Se isso ocorrer, ultrapassará o crescimento da população brasileira, que deverá ser de 2,1%. Logo, haverá um incremento de oferta maior que o de demanda.
Por outro lado, o anúncio de uma nova fábrica ou a expansão de uma existente cria um impacto favorável à elevação de preços, é inegável. Mas é um impacto que está sendo perigosamente superestimado no Brasil desde 2004 e é, a meu ver, um dos motivos da euforia estéril que se viveu no Brasil no primeiro semestre de 2005, quando os preços ficaram irreais, conforme todos puderam sentir a partir do segundo semestre daquele ano. Surpreendentemente, esse tipo de anúncio tem levado não somente os produtores, mas também os laticínios a errarem em suas análises, criando um ambiente artificial de elevação de preços imediatamente após o anúncio feito.
Bom, mas existem as novas plantas que estão sendo inauguradas. Estas são concretas.
Sim, mas nenhuma planta industrial entra em processamento pleno no dia seguinte à sua inauguração. Ajustes e mais ajustes são feitos ao longo dos primeiros dois anos, principalmente no processamento, mas também em toda a etapa da gestão em captação. É bom considerar que a primeira contribuição que o Zico deu ao então incipiente futebol japonês, quando lá chegou, foi que a chuteira é tão mais macia quanto mais ela tiver sido usada. Até então, os japoneses viam a chuteira como objeto descartável. Portanto, é necessário "amaciar" o processo produtivo e de gestão de uma nova fábrica recém inaugurada.
Por outro lado, engana-se o produtor que imagina que ele aumenta o seu poder de barganha quando uma nova fábrica é anunciada ou inaugurada. Quem aumenta o seu poder de barganha é o detentor da nova fábrica, sobre os laticínios concorrentes e sobre os produtores em geral. Essa é a lógica. Do contrário, para que correr risco com um novo investimento?
Há ainda a questão do dólar, que continuará em baixa ao longo de todo 2006. As empresas de capital brasileiro que exportam lácteos não deixarão plenamente de exportar, pois ainda há contratos a serem honrados e elas não podem cometer o erro de suprimir a partida de produtos porquê estão tendo prejuízo. E também deverão fazer novos contratos quando os atuais vencerem. Do contrário, elas estarão jogando no lixo todo o investimento que fizeram no segmento internacional. Mas, é obvio que todas estão revendo sua outrora posição de atuarem firmemente naquele mercado. E, por mais que as exportações tenham sido restritas em relação à produção destinada ao mercado internacional (nunca passou de 3% do total), a redução das exportações não contribui para este cenário que tangencia o limiar da euforia que começo a perceber, se transforme em realidade, em otimismo concreto.
Elenco ainda um outro item, que é o fato do brasileiro estar deixando de gostar de tomar leite e consumir derivados lácteos. Para a maioria essa afirmação parece absurda, já que o senso comum é o contrário. Para alguns, ela faz sentido e, nesse aspecto, é relevante ressaltar todo o esforço que o Marcelo Pereira de Carvalho tem feito, no sentido de mostrar a todos nós os perigos que a cadeia está vivendo, com a perda do charme que outrora tinha, com o surgimento de novos produtos concorrentes. Mas, para quem duvida, nos próximos noventa dias, o Dr. Aryeverton de Oliveira, pesquisador da Embrapa Gado de Leite, irá divulgar o resultado de uma pesquisa, que materializará, em números, o fim da falácia que o brasileiro gosta de leite. Ele, o brasileiro, até afirma isso quando responde a um questionário. Mas, quando tem de decidir entre os diferentes bens e serviços, sua preferência se revela verdadeiramente. E não é a favor dos derivados lácteos!
Será que iremos repetir o passado recente? Será que teremos um primeiro semestre de euforia, e um segundo semestre de depressão?