Os avanços em inteligência artificial (IA) estão remodelando o futuro dos alimentos. Da ampliação da produtividade e da inovação em escala à redução de paradas não planejadas e à otimização de estratégias de marca, desenvolvimento de receitas e engajamento, a tecnologia já ultrapassou há tempos a fase do “hype tecnológico” em plantas de laticínios e empresas de ingredientes.
Para Saar Yoskovitz, cofundador da Augury — empresa fundada em 2011 e especializada em saúde de máquinas com base em análises preditivas e prescritivas —, a IA já superou o ciclo de expectativas exageradas no chão de fábrica.
“Vemos a IA confiável sendo utilizada diariamente por processadores de lácteos para manter os ativos em boas condições, reduzir paradas não planejadas, melhorar o rendimento e diminuir desperdícios”, afirma. “Soluções de saúde de máquinas, por exemplo, utilizam sensores e IA para prever falhas antes que ocorram, economizando milhares de dólares em tempo de inatividade e evitando perdas de produto. São métricas concretas que os processadores conseguem acompanhar e usar para comprovar o retorno sobre o investimento em IA.”
O terceiro relatório anual State of Production Health, da Augury, sediada em Nova York, ouviu mais de 150 fabricantes de alimentos e bebidas e apontou saúde de máquinas, análises prescritivas e saúde de processos como os principais usos da IA no setor.
Mas o que, afinal, os fabricantes de laticínios esperam da IA?
“Principalmente melhorias em qualidade, rendimento e produtividade”, diz Yoskovitz. “Muitas equipes se sentem confiantes, mas algumas ainda têm dificuldade em comprovar o impacto dos projetos-piloto, porque eles não estão ligados a objetivos de negócio ou não foram desenvolvidos para escalar. É aí que surge a chamada ‘fadiga de pilotos’: o interesse diminui, o valor não fica claro e o impulso se perde. Quando o foco passa a ser a solução de problemas operacionais específicos, os resultados falam por si.”
Abhishek Roy, diretor sênior global de digital e IA da Cargill, concorda que a IA é uma tecnologia transformadora, já incorporada aos fluxos de trabalho diários na sede da empresa, em Wayzata, Minnesota, e em mais de 70 países.
“À medida que trabalhamos para moldar o futuro dos alimentos, a IA amplia nossa capacidade de inovar e escalar soluções que transformam a forma como o mundo produz, fabrica e distribui os produtos dos quais clientes e consumidores dependem”, afirma. “A tecnologia já está acelerando nosso trabalho de formulação de alimentos, aprimorando processos, reduzindo o tempo de chegada ao mercado e aumentando a precisão.”
Wes Frierson, vice-presidente de soluções corporativas da FoodChain ID, destaca que as empresas não precisam desenvolver soluções de IA do zero. Segundo ele, a companhia investe fortemente em pesquisa e desenvolvimento para aplicar inteligência artificial diretamente a casos de uso da indústria de alimentos e bebidas, permitindo que os clientes se beneficiem da tecnologia sem “reinventar a roda”.
Roy cita como exemplo o uso de IA por cientistas de alimentos da Cargill na descoberta de receitas, a partir da análise das interações entre ingredientes, da otimização de formulações e da geração de recomendações de novas receitas com base em parâmetros específicos e preferências dos consumidores.
Ferramentas de pesquisa baseadas em IA também vêm sendo utilizadas para acelerar o compartilhamento de conhecimento e o desenvolvimento de produtos. As equipes recorrem à tecnologia para otimizar processos de fermentação, avaliar microbiomas e reformular ingredientes, acelerando a chegada de novas soluções ao mercado e respondendo a preferências de consumo que mudam rapidamente.
O motor da inovação
Frierson reconhece que a desconfiança em relação ao “hype tecnológico” é comum, já que muitas tendências das últimas duas décadas não se mostraram verdadeiramente revolucionárias. No entanto, ele afirma que a IA foge a esse padrão.
“A IA será a inovação tecnológica mais transformadora de nossa vida”, afirma. “Como líderes em tecnologia no setor agroalimentar, orientamos nossos clientes a agir agora para obter vantagem competitiva. Vemos a adoção ao longo de um espectro: algumas empresas já investiram fortemente, enquanto outras ainda tentam entender por onde começar.”
Segundo ele, cerca de 80% das conversas com clientes neste ano envolveram questionamentos sobre como iniciar o uso da IA. “Se uma empresa não define métricas de sucesso desde o início, a IA pode se tornar muito cara”, alerta.
À medida que ganham escala, automação e IA vêm se consolidando como ferramentas essenciais de inovação. O mercado de automação de armazéns deve alcançar US$ 90,7 milhões até 2034, com crescimento anual composto de 15,1%, segundo a Allied Market Research.
A implementação da IA também avança rapidamente. Estimativas da McKinsey indicam que a tecnologia pode adicionar entre US$ 2,6 trilhões e US$ 4,4 trilhões à produtividade global por ano, sendo de US$ 40 bilhões a US$ 70 bilhões provenientes da agricultura.
Yoskovitz destaca que a adoção da IA mais do que triplicou em apenas um ano: de 4% das empresas escalando soluções em várias unidades para 14%, segundo o relatório da Augury. No setor de alimentos e bebidas, 16% afirmam ter expandido mais da metade de seus projetos-piloto para várias plantas, tornando-o um dos segmentos mais avançados na escalabilidade de ferramentas digitais.
IA e empresas de laticínios
Yoskovitz cita o caso de uma empresa de laticínios produtora de queijos, whey e leite fluido que buscava aumentar a produção, reduzir desperdícios e melhorar a segurança. A operação contínua, no entanto, era prejudicada por falhas inesperadas de máquinas, afetando instalações, rede de unidades e produtores.
Quando a capacidade da rede era atingida, paradas prolongadas levavam ao descarte de leite, enquanto manutenções emergenciais geravam retrabalho e longos prazos para reposição de peças. A solução existente de análise de vibração não era contínua e não identificava problemas com antecedência. A empresa precisava de uma alternativa capaz de oferecer diagnósticos precoces e ações prescritivas claras.
Antes de investir em IA, Frierson recomenda escolher parceiros com conhecimento tecnológico no setor de alimentos e agricultura, definir um plano claro com problemas e ganhos de eficiência a serem alcançados e buscar ferramentas já testadas para o agronegócio, como agentes de IA capazes de simular análises de desenvolvedores experientes e especialistas em conformidade.
A FoodChain ID lançou recentemente recursos de IA em seu software FoodChain ID Mentor, voltado à otimização da formulação, inovação de produtos, padronização de marcas e escalabilidade do conhecimento interno. Segundo Frierson, a resposta do mercado foi imediata, já que a solução transforma conhecimentos dispersos em orientações especializadas e contínuas.
Especialistas apontam que a IA facilita o trabalho tanto de equipes seniores quanto juniores, além de estimular ideias para colaborações com clientes. A tecnologia incorpora padrões, boas práticas e aprendizados organizacionais, criando um ciclo contínuo de melhoria.
Roy destaca que, na Cargill, a IA amplia a velocidade e o alcance da inovação, sempre com validação final dos especialistas. Um exemplo é a ferramenta interna Ask Emma, que utiliza um amplo banco de dados de conceitos e tendências para apoiar o desenvolvimento de personas, temas e ideias para projetos conjuntos com clientes.
Outro avanço está na facilidade de integração. Sistemas modernos de saúde de máquinas combinam sensores de IoT, IA e conhecimento humano para monitorar ativos continuamente e identificar falhas precocemente, com mais de 99% de precisão.
Transformando a forma como o mundo produz
O relatório da Augury indica que fabricantes de alimentos e bebidas enfrentam mais pressões na cadeia de suprimentos do que outros setores, com 15,7% apontando esse fator como o principal obstáculo para atingir metas de produção.
“A IA ajuda a manter as operações estáveis ao melhorar a confiabilidade, otimizar o uso de energia e água e reduzir desperdícios”, explica Yoskovitz. “Quando uma linha para, um produtor de laticínios pode perder de US$ 5 mil a US$ 20 mil por hora, sem contar o leite descartado e os custos de limpeza. A manutenção preditiva baseada em IA evita essas perdas ao detectar problemas com antecedência.”
Além disso, a tecnologia contribui para aliviar a escassez de mão de obra, permitindo manutenções planejadas e reduzindo jornadas emergenciais. A previsibilidade melhora o equilíbrio entre vida pessoal e trabalho, aumenta a segurança e preserva o conhecimento técnico à medida que profissionais experientes se aposentam.
Roy conclui que a IA dará aos processadores de leite mais controle e ampliará significativamente a capacidade de inovar em áreas como pesquisa, marketing, engenharia de software e desenvolvimento de produtos.
“A IA pode acelerar nossos esforços de inovação, apoiar a criatividade das equipes e aprimorar aplicações existentes ao gerar dados, códigos e conteúdos. Ela vai transformar a forma como o mundo produz, fabrica e distribui alimentos — hoje e nas próximas gerações.”
As informações são traduzidas do Dairy Foods.