Vaca subsidiada x vaca econômica. Estouram vendas de sêmen nacional, enquanto despencam as de sêmen importado.

Publicado por: MilkPoint

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Por Fernando Madalena1

Num recente artigo no MilkPoint, o Dr. Donário Lopes de Almeida chama a atenção para a redução de quase 7% nas vendas de sêmen de gado leiteiro em 2002, com respeito ao ano anterior, "evidenciando a regressão desta ferramenta de melhoramento genético", que seria devida à falta "de uma política governamental clara para o setor, que estimule o uso de nossos recursos naturais e a tecnologia disponível". Como considero este um assunto de grande importância, mas tenho uma visão diferente da situação, gostaria de compartilhar com os leitores do MilkPoint meus pontos de vista.

A queda de 7% nas vendas corresponde à média para todas as raças, puxada pelas vendas do Holandês, que constituem 60% do total, mas a situação é muito diferente de uma raça para outra. Com os dados do relatório publicado no site da ASBIA (Associação Brasileira de Inseminação Artificial), calculou-se a evolução das vendas com respeito ao ano anterior, para cada um dos quatro anos no período 1999 a 2002, tirando-se a média, a fim de compensar flutuações de um ano para outro e assim ter melhor visão do acontecido no período. Como pode ser visto na Figura abaixo, duas raças perderam espaço, Holandês e Pardo Suíço Leite, três aumentaram suas vendas, Jersey, Gir Leiteiro e Girolando, e duas mudaram pouco, Holandês VB e Guzerá Leiteiro.

A queda das vendas de Holandês importado foi consistente nos quatro anos, oscilando entre -5,5% em 1991 até -11,6% em 2000, com média de -8,5% no período, mas o Holandês nacional não teve mudança nas vendas, em média, apesar de flutuações anuais. A esse passo, em 12 anos o Holandês importado não vende mais nada. As vendas de Pardo Suíço importado oscilaram entre -20,0% em 2000 até + 5% em 2001, com média de -6,3% no período. O Pardo Suíço nacional teve a maior queda nas vendas, com média de -17% ao ano no período. O Holandês VB importado teve pouca alteração na média, de -1% ao ano. O Jersey importado perdeu em 2002 os mesmos 18,5% que tinha ganhado em 2001, ficando na média com aumento de 3 % ao ano, enquanto o Jersey nacional aparece com aumento de +83 % em 1999, -5% em 2000 e média anual de + 30,2%. O Gir Leiteiro teve queda de -28% em 1999, compensada com ganhos nos outros anos, especialmente em 2001, de +60%, com média de 20,1% de aumento anual no período, enquanto que o Girolando teve também queda de 25% em 1999 e aumentos nos outros anos, especialmente em 2001 (151%), com a maior média de crescimento anual das vendas, de 35,8% no período. O Guzerá Leiteiro, apesar de flutuações de um ano para outro, ficou praticamente sem mudança na média do período.



Entre 1998 e 2002, o mercado deixou de comprar 550 mil doses de sêmen das raças Holandesa PB, VB e Pardo Suíço juntas, das quais 87,5% correspondem ao sêmen importado, e comprou mais 129 mil doses de Jersey e mais 207 mil doses de Gir Leiteiro, Guzerá Leiteiro e Girolando juntas.

Na minha opinião, a preferência mostrada no mercado de sêmen reflete a falência do modelo de produção de leite caro e sua substituição por modelos de produção a baixo custo que, por serem baseados em pasto e cana, requerem gado que possa aproveitar a dieta de menor qualidade, que já não mais pode conter muita ração, devido ao custo proibitivo, e ainda enfrentando calor e parasitas. A migração da pecuária para terras mais baratas faz parte deste processo, que vem acontecendo há décadas, tanto no Brasil como também em outros países tropicais.

Para produzir a baixo custo, se requer gado rústico e produtivo e o sêmen importado não satisfaz esse requerimento - ele é muito bom para a vaca subsidiada do Norte, mas não para a vaca econômica que precisamos por estas bandas. Não conheço nenhuma demonstração experimental de que o uso de sêmen importado melhore o lucro do produtor de leite brasileiro, o que deveria ser prévio para se pleitear estímulos do governo. Este é o cerne da questão: vacas que dão muito leite se tratadas de forma que aqui é antieconômica, muito grandes, com problemas de reprodução e saúde, que nas terras delas não agüentam nem três lactações: esta é a genética que o Brasil necessita?

Não me parece de todo acertada a afirmativa de que o Brasil não tem política do leite. Mais do que um Governo dado, o País inteiro adotou, sim, uma política, ao resolver, por consenso generalizado, se inserir no mercado mundial globalizado, enfrentando a concorrência com competitividade. Lê-se que a indústria se reformulou para tanto e na agricultura assistimos ao fim do crédito subsidiado, o que não foi empecilho para que o setor passasse a dar o show de desempenho que está dando. No leite não foi diferente. Retiraram-se os preços tabelados e temos tido aumento sustentado da produção com decréscimo dos preços ao consumidor. É uma cadeia vitoriosa!

O gráfico acima mostra claramente que o sêmen nacional não precisa de estímulo, já que suas vendas cresceram às altíssimas taxas de 20 a 35% ao ano. Deixem o mercado agir em liberdade, respeitem a livre concorrência. Ao invés de pedir estímulos, ofereçam produto competitivo. Os genes da vaca subsidiada só servem para a vaca subsidiada! Tirando o subsidio, a vaca econômica dá de dez a zero. Por isso tem muita gente inseminando as Holandesas com Gir e Guzerá, para fazer F1, que vale muito mais. Assisti recentemente, como convidado, à cerimônia de assinatura de convênio entre a PUC-Minas e a Associação dos Criadores de Girolando, para produção de F1 inseminando com Gir as matrizes daquela Universidade, um dos melhores rebanhos de Holandês do Estado. Explicou na ocasião o Padre Reitor que, infelizmente, no mundo globalizado dominado por subsídios, a produção aqui com tecnologias de altos insumos não se sustentava economicamente, devendo então a Escola aceitar a realidade e implementar sistemas que dessem lucro para ensinar aos alunos. Encarei o episódio como um símbolo dos tempos atuais e não pude evitar o pensamento de que até o Padre sabia das coisas mais que muitos técnicos.

O Brasil tem o maior rebanho mestiço leiteiro do mundo. Com ele desbravou o caminho da produção de leite tropical, o grande desafio da zootecnia, nos diziam, quando estudantes, 40 anos atrás. Quando falamos a pessoas do primeiro mundo que aqui se lucra produzindo leite a 8 centavos de dólar por litro, eles ficam abismados; compreendem logo que não fosse pelo protecionismo alfandegário, estariam importando o leite daqui.

Não se diga que isto não é usar recursos e tecnologia. Tecnologia não é só a do Norte; a tecnologia de produção a pasto, com pastejo rotacionado, com altas cargas animais por ha, pode ser altamente sofisticada e certamente é mais eficiente, já que produz a menor custo. O principal recurso é a criatividade do brasileiro, do pioneiro que foi buscar o zebu, do criador que o selecionou e o amalgamou com o europeu e, mais recentemente, da união de criadores e pesquisadores que implementaram os modernos programas de seleção e cruzamentos, únicos no mundo tropical, como atestam as importações de animais e materiais genéticos que outros países levam daqui, como o barco com 800 animais que os colombianos levaram no ano passado. Como diz Leovegildo Matos, o concorrente quer nos empurrar a tecnologia deles, que nos tiraria competitividade, para que compremos os seus insumos, e ainda por cima agora nos diz que deveríamos subsidia-los! Aí já é demais!

Quando trabalhava na FAO, em Roma, vivenciei de primeira mão a enorme demanda por genética tropical, de todo o mundo me chegavam consultas sobre onde achar sêmen de touros leiteiros zebuínos ou mestiços, com prova de progênie. Hoje existe aqui esse produto e pode ver-se que logo a demanda crescerá mais do que a oferta, de forma que as companhias de sêmen que por aqui operam agiriam com mais visão investindo no melhoramento das raças tropicais leiteiras ao invés de insistir em um produto em decadência.

Capítulo aparte merece o crescimento das vendas de Jersey, cujos cruzamentos com Friesian (Holandês) na Nova Zelândia são mais lucrativos que as outras raças, o que perfeitamente se aplica ao Sul do Brasil enquanto que, para a faixa tropical, há resultados brasileiros mostrando a conveniência dos cruzamentos tríplices de Jersey-Holandês-Gir para sistemas em que não se crie o bezerro. No livro Produção de Leite e Sociedade, vendido na Escola de Veterinária da UFMG (journal@vet.ufmg.br) há muitas informações a respeito destes assuntos, que não cabem aqui.

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1 Fernando Madalena, Professor da UFMG
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Cecília José Veríssimo
CECÍLIA JOSÉ VERÍSSIMO

NOVA ODESSA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 28/04/2003

Concordo plenamente com o Pesquisador.
Vendo o assunto sob o meu ponto de vista (pesquisadora especialista no carrapato dos bovinos), eu diria que a dificuldade atual de controlar o carrapato por meio dos carrapaticidas, por motivo da cada vez maior resistência dos carrapatos aos produtos químicos, também deve ter contribuído para esse resultado, já que as raças zebuínas ou mestiças são mais resistentes ao carrapato e transmitem essa resistência à prole.
MARIA LUCIA ANDRADE GARCIA
MARIA LUCIA ANDRADE GARCIA

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 25/04/2003

Para evitar a difusão de uma meia-verdade, a respeito da experiência neo-zelandesa de produção de leite a pasto, seria interessante que o produtor brasileiro fosse informado sobre a base cooperativista que sustenta esse milagre de "leite barato a pasto"na N. Zelandia.

A renda do produtor da N. Zelândia inclui não apenas o pagamento do leite que fornece mas o dividendo que recebe como sócio da cooperativa.

Esse aspecto pouco esclarecido dá margem a que se imagine que o produtor profissionalizado - como é o produtor da N. Zelândia, viva muito bem com o pagamento do seu leite a 17 centavos de dólar. E que nós no Brasil temos que ser melhores, produzir a 8 centavos de dólar para a alegria do cartel!

Está na hora de perguntarmos a quem serve essa meia-verdade do leite barato a pasto... A propósito: estão sendo liquidados rebanhos mestiços e equipamentos de leite na região dos pastos - será que é só para plantar soja e milho?!

<b>Resposta do autor</b>:

Prezada Sra.

Tal vez a Sra. esteja enganada de artigo, porque neste, que a Sra. comenta, não falei nada sobre preço do leite na Nova Zelândia. As minhas informações não abonam suas afirmativas a respeito, mas como o assunto não têm relação com a matéria ora em pauta, que é a política de importação de sêmen no Brasil, prefiro deixá-lo para outra ocasião.

O leite ser mais barato a pasto não é meia-verdade mas sim, fato. Basta comparar os custos. No livro Produção de Leite e Sociedade (journal@vet.ufmg.br) a Sra. poderá verificá-lo com as informações apresentadas sobre custos de produção em sistemas de confinamento e a pasto no Brasil. Em sistemas com gado mestiço, baseados no pasto e na cana, gasta-se menos com concentrados, remédios, instalações, combustíveis. Não há milagre nisto, exceto talvez o rúmen da vaca, que lhe permite aproveitar as forragens e, desta forma, obter os nutrientes a custo mais baixo que comendo rações, a tolerância ao calor e resistência aos parasitas do zebu e a heterose, que permitem às mestiças serem produtivas e rústicas. Pensando bem, também pode ser milagre Deus ter aquinhoado o Brasil com tanta terra, água e sol para produzir forragens, ter trazido para aqui plantas africanas de alta produção e a turma da ESALQ e da EMBRAPA para ensinar como pastejá-las. Quanto ao cartel se beneficiar desta "informação", não me preocuparia. A Sra. há de convir comigo que se ele existe deve saber muito bem quais são os reais custos de produção e talvez por isso consiga pagar tão pouco e achar quem lhe venda leite. Esconder informação não vai combatê-lo.

RONALDO LAZZARINI SANTIAGO
RONALDO LAZZARINI SANTIAGO

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS

EM 19/04/2003

Sou diretor de produção da fazenda Calciolândia, de propriedade de Gabriel Andrade, que seleciona o Gir Leiteiro há mais de 40 anos. Para nós, da Calciolândia o artigo do professor Fernando Madalena, a quem parabenizamos, assim como a equipe do MilkPoint, é não só de grande sabedoria como também de ótima oportunidade. Suas idéias sempre foram coerentes e suas pregações, antes com pouca receptividade, vêem a cada dia conquistando mais adeptos. A cadeia de produção de leite no Brasil está encontrando seu caminho a duras penas, seja pelo esforço e sacrifício dos próprios produtores, bem como pela lucidez e responsabilidade de técnicos como o professor Fernando Madalena. É pena que mesmo dentro desta nova realidade os produtores ainda cometam alguns equívocos e muitas vezes sejam levados a erros por parte de técnicos bem intencionados mas às vezes mal informados. Queremos nos referir ao fato de que muitos touros com sêmen à venda em Centrais, entre eles animais das raças Gir Leiteiro, Girolando e outras, não sejam ainda provados por programas de melhoramento genético, embora isto não seja o maior problema, mas sim o fato de que o alvo principal de suas propagandas esteja em cima das altas lactações de suas mães. Infelizmente estas altas lactações nem sempre determinam que o animal tenha potencial genético para transmití-las à sua descendência, além do fato de serem também subsidiadas e conseguidas de maneira anti-econômica para o produtor de leite. Aos fatos tão ilustrativos sobre o mercado de sêmen, citados pelo professor Madalena, gostaríamos de acrescentar e alertar para este aspecto, cuja responsabilidade para orientação cabe a nós técnicos e fundamentalmente às centrais de inseminação.

<b>Resposta:</b>

Agradeço os bondosos comentários do Dr. Santiago. Concordo plenamente com que a ênfase na venda e na compra de sêmen deveria colocar-se no valor genético (PTA) e não na
produção da mãe, que é muito pouco informativa. Os melhoristas brasileiros, no caso da EMBRAPA, usam
métodos do primeiro mundo para a avaliação genética dos reprodutores, mas esses métodos ainda não
são conhecidos no setor produtivo.


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