Utilização do associativismo rural no desenvolvimento rural e humano

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Por Marcelo Gilberti Vuolo1

Inovação tecnológica, melhoramento genético, tecnologia de ordenha, pagamento por qualidade e quantidade, estes são os termos que mais se repetem e são lembrados no conteúdo informativo de diversos meios de comunicação do setor agropecuário, assim como nos discursos inflamados das empresas compradoras de leite.

Obviamente de extrema importância para a otimização da produção leiteira, as inovações tecnológicas seguem às vezes por caminhos paralelos à situação encontrada pelos pequenos e médios produtores rurais, devido ao simples fato de que estes não possuem palavra final no valor econômico de seu produto. Este reflexo direto pode ser identificado através das freqüentes liquidações de plantel de gado leiteiro de propriedades tradicionais e de grande potencial tecnológico que foram engolidas pela ausência de uma política de preços estáveis.

Seguindo então a lógica ganhar para investir, o SAI - Sistema Agroindustrial Integrado, Módulo Araçatuba, parceria do SEBRAE-SP com a Secretaria da Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, investiu esforços na organização de associações formais de produtores de leite como primeiro passo para atingir certo poder de barganha junto aos laticínios da região, um trabalho que envolveu sensibilização, reuniões semanais e conscientização dos produtores na importância da união da classe não só para aumentar o ganho financeiro mas para que pudessem se precaver às mudanças a serem impostas pela portaria 56, que reza a qualidade do leite e sua coleta granel.

Feito isso, o passo seguinte a ser tomado baseava-se principalmente em como inverter a posição de submissão para a de empresário que quer negociar o seu produto. Para isso, elaborei um grupo de associações envolvendo quatro municípios distintos (Araçatuba, Glicério, Brejo Alegre e Bilac), que já possuíam uma posição associativista sólida e com um objetivo comum: não mais ouvir preços e sim discuti-los de forma coerente.

Durante as reuniões realizadas com estas associações, diversos aspectos foram levantados, principalmente sobre a contratação do montante produzido, frete do produto, implantação de tanques nas associações e, principalmente, qual a posição a ser tomada em relação aos preços referentes à produção de cota e extracota.

Assim após diversas reuniões, discussões, propostas e contra-propostas, obtivemos o seguinte resultado:

* Contrato de 15 meses, abrangendo o período de fevereiro de 2002 a abril de 2003;

* Discussão de preço mensal durante o 20º e 25º dia do mês anterior ao pagamento;

* Não diferenciação de preços referentes aos períodos de cota e extracota;

* Possibilidade de negociação do frete até o laticínio com a empresa tercerizada ou através do próprio carreteiro;

* Implantação de tanques de expansão para coleta granel em cada associação e, assim, precavendo os produtores da portaria 56 a vigorar neste ano (se tudo der certo!!!!)

* Multa bilateral para a parte que não cumprir o contrato, sendo esta referente à coleta total de dois meses de cada associação;

* Nivelamento do preço por cima, isto é, não prejudicando os grandes e médios produtores e favorecendo os pequenos e micro produtores;

Através destas medidas comerciais, o grupo evolui em uma taxa de 20% de produtividade em relação aos 6000 litros coletados diariamente no início do projeto, além de permanecerem com a aquisição de insumos destinados à produção leiteira de forma conjunta, o que propicia uma redução de 15% no custo operacional da atividade. Faz-se necessário relatar um acréscimo de até 80% em valor real em alguns casos de associados.

Encerro aqui este relato com dois pontos de interrogação:

* Por que as empresas compradoras possuem uma postura concreta em relação a qual preço deve ser praticado em uma licitação pública como no caso do Programa Viva Leite do Governo do Estado de São Paulo e não conseguem, por outro lado, discutir um preço mínimo para o seu produtor deveras vezes chamado de "a peça mais importante do sistema"????

* Você já contou quantos dentes tem um produtor rural?

Pois eu já perdi a conta de quantos sorrisos recebi daqueles que acreditaram neste projeto e não relutaram em dispor de seu tempo para se organizarem e lutarem pelo que é seu de direito.

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1Zootecnista, Articulador de Negócios do Projeto SAI - Módulo Araçatuba
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Flavio R. R. Gonçalves
FLAVIO R. R. GONÇALVES

HULHA NEGRA - RIO GRANDE DO SUL - PESQUISA/ENSINO

EM 15/03/2010

Achei muito interessante a tua iniciativa, Hulha Negra possui uma bacia leiteira que precisa ser melhor desenvolvida, tem espaço para isso, o que está faltando talvez são iniciativas como a sua para que mobilize e motive os produtores locais.
Igor Tobias Paula
IGOR TOBIAS PAULA

AUGUSTINÓPOLIS - TOCANTINS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 06/01/2010

Muito bom
Mais qual valor que se fechou o preõ do litro e a quantidade a ser entrague mensalmente?
Ricardo Freire
RICARDO FREIRE

SÃO PAULO - SÃO PAULO - EMPRESÁRIO

EM 19/08/2002

Parabéns pelo excelente trabalho. Os resultados e a conclusão do seu texto falam por si. Gostaria de receber maiores informações sobre o SAI.
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