Como já foi dito por Marcelo Carvalho, há alguns dias, esta crise pode, finalmente, ser o estopim de um processo de clarificação para os produtores de que há meios de mudar seu papel na cadeia produtiva do leite de objeto a sujeito, desde que haja organização de sua base em entidades abrangentes e verdadeiramente representativas. Durante o encontro, houve questionamentos sobre a atuação da Leite Brasil e da Comissão do Leite da CNA, porém estes convergiram para a percepção de que o caminho para a organização da classe passa pelo fortalecimento da estrutura representativa já existente. E, neste estágio, foi apresentada a proposta de que trata este artigo, que é velha, por sustentar-se nos preceitos mais básicos do associativismo, mas pode (depois de muito suor e discussões) abrir novos caminhos para o setor. Havia a preocupação de levantar a auto-estima dos produtores e levá-los a participar das entidades de classe. A constatação mais simples é de que, na verdade, são estes órgãos que devem passar a realmente fazer parte da vida dos seus associados, à medida em que haja elementos aglutinadores que façam com pequenas unidades de representação possam convergir numa macroestrutura, como vê-se no organograma que foi proposto no Encontro:

* Existem ferramentas de fomento ao associativismo disponíveis em órgãos como SEBRAE, Sindicatos Rurais, Federações de Agricultura, SENAR e universidades, propiciando a criação de pequenas associações de produtores (não apenas pequenos produtores), cuja coesão é conseguida pela existência de um elemento aglutinador, tal como, etnia, localização numa mesma bacia hidrográfica, ou numa mesma estrada. As entidades devem ser planejadas e conduzidas como verdadeiros instrumentos de representação social, com ações buscando abranger toda a conjuntura de vida dos produtores, e não apenas visando ganhos imediatos, via comercialização do leite. Com atenção especial às questões regionais, cujas peculiariadades atingem os indivíduos de forma muito direta, gerando identificação (Ex. ao invés de reclamar do problemas das estradas do Brasil, deve-se buscar resolver aquele atoleiro que impede a coleta do produto). Sua pauta de discussão deve ser o dia a dia dos produtores, que a enxergarão como braço avançado de seu negócio e canal para discutir e resolver seus problemas e, sendo assim, participarão do processo decisório de forma natural (estarão decidindo o caminho para sua atividade econômica e para o bem estar de suas famílias).
* A atuação econômica destas entidades pode se dar por meio de venda em conjunto do leite (e o grande exemplo a ser seguido são as licitações da Zona da Mata Mineira) e, caso necessário (regularidade fiscal), pela criação de pequenas cooperativas (modernas e sem agregação de custos, como são as cooperativas virtuais de Goiás), que formariam cooperativas regionais, componentes de uma grande central nacional, com poder de fogo para enfrentar as multinacionais. É imprescindível haver profissionalismo na administração, com gestão estratégica e, principalmente, transparência nos objetivos e resultados financeiros (auditoria externa seria interessante), possibilitando ao associado conhecer o novo negócio do qual faz parte, deixando de achar que “vende para a cooperativa”. Ele tem que ser esclarecido de que é parte da cooperativa.
* No tocante à representatividade, estas pequenas associações se aglutinariam em entidades estaduais, que comporiam uma Leite Brasil realmente nacional. Um colegiado representativo e democrático das demandas levantadas em suas células básicas e exprimido por suas filiadas estaduais. Com agilidade para realizar as ações de cadeia, prospectando condições e oportunidades de mercado, inclusive brigando por preços mais remuneradores. (O IV Encontro De Lideranças da Pecuária Leiteira, a ser realizado pela Leite Brasil em paralelo à Expomilk, entre 23 e 27/10/01, será uma grande oportunidade para a entidade começar a reestruturar-se para assumir este papel.)
* E, finalmente, deve haver sinergismo entre o sistema das associações e o sistema Sindical, cuja atuação político-institucional, na defesa da classe produtora rural, é prevista pela Constituição, havendo muito pouca, ou nenhuma, suscetibilidade a retaliações. O papel da FAEMG e da FAEG nos sucessos obtidos em Minas e Goiás e o mais relevante processo antidumping da história de nosso país, levado a cabo pela CNA, são provas de que este sistema pode fazer muito pelos produtores.
É óbvio que esta idéia de sistema não resolve, por si só, a questão da desagregação e desorganização da base produtora, nem vai ser aceita de maneira tranqüila pelos demais agentes da cadeia, mas, ao passo em que a própria dinâmica do mercado reduz gradativamente o número de produtores, selecionando-os por escala de produção e, principalmente, por profissionalismo, é justo imaginar que esteja próximo o momento em que sua valorização vai ser obtida graças à capacidade de esquecer as vaidades e buscar uma estrutura representativa que os coloque em posição ativa na cadeia produtiva. Não se quer, com isto, revogar as leis de mercado, e sim, fazer com estas possam exprimir-se com clareza, que não existe no mercado imperfeito de hoje. A perspectiva do Brasil tornar-se um grande exportador de leite ser abre de forma cada vez mais explícita, resta saber se os produtores pretendem chegar a este novo mercado sob a tutela do oligopólio.
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1 Renato Hortélio Fernandes é engenheiro agrônomo, responsável pela administração de duas fazendas produtoras de leite em Itamaraju e Vereda, ambas no Estado da Bahia, e atual presidente da Assoleite - Associação para a Profissionalização e Valorização dos Produtores de Leite de Teixeira de Freitas e Região.