Uma outra visão da cadeia agroindustrial do leite

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Muito se fala em perspectivas para o desenvolvimento da cadeia do leite no Brasil. Redução no número de produtores, a melhoria da qualidade do leite nacional, a concentração de forças dentro da cadeia agroindustrial, o mercado informal, entre outros, são pontos constantemente mencionados por analistas e profissionais engajados em tentar “prever” futuros acontecimentos dentro de um cenário tão peculiar como temos no Brasil – aliás, com bastante freqüência observamos estas previsões baseadas na história recente de alguns dos principais produtores de leite do mundo, como EUA ou a União Européia. Tal fato com certeza representa uma distorção da realidade, tendo em vista que podemos enumerar muito mais diferenças do que semelhanças entre o nosso Brasil e estes modelos (que funcionam extremamente bem dentro de suas características particulares).

Todas estas discussões acerca do “modelo de pecuária leiteira” que deverá se impor no país não são de maneira alguma novidade dentro da agropecuária nacional. Muito pelo contrário: o que se observou em absolutamente todas as culturas importantes para o Brasil (importantes para o setor exportador de alimentos) foi justamente o modelo que se pretende reproduzir no leite: tecnificação da produção, aumento de escala e eliminação do pequeno produtor sempre fizeram parte da história da nossa agricultura. Um ponto controverso neste sentido é a eliminação do pequeno produtor. O que nas décadas de 60 e 70 pressionou a saída destes produtores foi i)elevação dos custos de produção devido a política de desenvolver, via agricultura, os complexos agroindústrias e ii)nível de tecnificação, liberando um excedente de mão de obra para as cidades. Já no caso do leite, estima-se que os custos de produção representam atualmente o fator de gargalo para os produtores ineficientes, mas que futuramente seja o quesito “Qualidade do Leite”, pois mesmo que o pequeno produtor possa atingir os parâmetros de qualidade exigidos pelo Programa Nacional Melhoria da Qualidade do Leite (como demonstramos em nosso trabalho com pequenos produtores em Pirassununga), sem uma extensão rural eficiente e comprometida a informação não tem como chegar a esta camada de produtores. Sofremos hoje um reflexo de políticas tomadas há 30 anos e parece que não aprendemos com o tempo (ou continuamos com o mesmo modelo “caolho”). Parece que finalmente o capitalismo tardio da nossa agropecuária está abraçando a pecuária leiteira: é hora de modernizar! É hora de aumentar a escala ! É hora de lucrar!

Infelizmente esquecemos de um conceito já bastante difundido atualmente: modernizar não significa jamais desenvolver. O desenvolvimento pleno pode se dar também pela modernização e tecnificação (pois felizmente ou infelizmente vivemos num sistema capitalista e não podemos fugir desta realidade), mas fundamentalmente se dá pela criação de uma rede social sólida, que seja capaz de permitir a sobrevivência e o crescimento de todos os envolvidos no processo de produção. Pensando nas atuais “metas” que se exigem dos produtores de leite, VOLUME e QUALIDADE, esta rede social se desfaz graças a outros tipos de problemas mais basais ainda: uma cultura de individualismo e da baixa qualidade. É justamente por isso que a modernização, sem uma base sólida, acaba por provocar mais desavenças do que benefícios para o país – logicamente as elites, que representam de maneira eficiente a produção de leite no Brasil, mas não os produtores, se beneficiam desta modernização pois já tem a rede social e cultural armadas e podem “colher” os frutos que uma boa assessoria técnica pode causar. No entanto, os reflexos econômicos, sociais, culturais e ambientais são desastrosos. Apenas para citar alguns: aumento da pobreza, aumento da desigualdade social, “genocídio cultural” (termo extremamente interessante e que demonstra bem o que ocorre com o cidadão que sai do campo e vai trabalhar em ocupações diversas nas cidades), aumento do desmatamento e desgaste do solo (tendo em vista que a busca por novas fronteiras agrícolas ainda se faz no modelo de Desmatamento – Agricultura – Pecuária). E quem diria que Paulo Freire, que já na década de 60, alertava aos agrônomos para se preocupar muito mais com aspectos sociais e culturais, deixando a modernização como um complemento das suas atividades, continuaria sendo ignorado quase 40 anos depois pelos grupos de influência junto ao governo (FREIRE, P. Extensão ou Comunicação 1969).

Como parece que dificilmente esta conversa de “social”, “cultural”, criação de propostas para os pequenos produtores, comove a quem deve comover, fui buscar, dentro da literatura econômica, algumas bases para esta discussão. E é dentro deste espírito que destaco uma obra, intitulada “Repensando o desenvolvimento Rural”, de autoria de Ricardo Abramovay e publicada na Revista Economia Aplicada, vol 4, no.2 de 2000. Neste texto, o autor comenta sobre um importante conceito que nasce no Brasil, embora ainda de maneira bastante embrionária: o Capital Social.

De maneira bem simples, e até certo ponto simplória, o Capital Social diz respeito às características de organização social, como confiança entre produtores, normas de convivência e produção (ao nível do subconsciente) que contribuem para aumentar a eficiência da sociedade como um todo, facilitando ações coordenadas entre diferentes atores. Com outras palavras, pode-se definir o capital social como a organização de um determinado grupo de produtores de maneira a facilitar o acesso destes produtores a recursos que isoladamente eles não conseguiriam chegar (seja no acesso a financiamentos, a compra de insumos e equipamentos, a venda de produtos etc). Mais do que nunca se abandonou hoje a idéia de que a sociedade é formada por um conjunto de indivíduos independentes, cada um agindo para alcançar objetivos independentes.

É desta forma que as estruturas sociais devem ser vistas como recursos, como ativos de capital, uma vez que o capital social tem um caráter acima de tudo produtivo.

Tendo em vista este breve conceito de capital social, pode-se dizer que a grande maioria das empresas fornecedoras de insumos e equipamentos, além dos laticínios, estão perdendo mercado e dinheiro ao ignorar uma imensa maioria de produtores classificados como “subsistência” e que não adquirem produtos nem vendem seu leite (inclusive é comum ouvir nas apresentações destas empresas: “considerando apenas os produtores profissionais” ...). O estímulo ao desenvolvimento social e à formação de capital social representam mais do que nunca um diferencial que pode nascer e prevalecer nas empresas que forem mais inovadoras.

No entanto cabe destacar que o estímulo à organização social e ao desenvolvimento cultural deve ser legítimo: de pouco adianta “manipular os produtores” para formar grupos que apenas retratem em uma micro fotografia um sistema macro, de dominação e subordinação ao capital. De pouco adianta também estimular a formação de associações ou grupos organizados para a resolução de problemas pontuais – a tendência neste caso é, uma vez eliminado o problema esta frágil organização se desfazer. Está no hora da cadeia agroindustrial passar a olhar o pequeno produtor (aquele mesmo de subsistência, de 50 litros/dia ou menos) como um potencial cliente e fator de dinamismo dentro do cenário leiteiro nacional. Está na hora acima de tudo de transferir a “responsabilidade social verdadeira e legítima” para as empresas do setor.

Apenas para listar algumas das oportunidades que representa o investimento em desenvolvimento social e cultural (criação de capital social):

- Imenso número de produtores, representando um mercado que, apesar de baixo poder aquisitivo inicial, é extremamente grande (fala-se em mais de 1.000.000 de produtores nesta categoria)

- Baixa concorrência, tendo em vista que os produtores geralmente não utilizam nenhuma tecnologia – neste sentido, as empresas que saírem na frente com certeza serão mais beneficiadas.

- Importância regional fundamental dos pequenos produtores (um exemplo bem interessante pode ser dado no nosso trabalho em Pirassununga: a nossa comunidade de trabalho, com seus 10 produtores, com certeza não influi em absolutamente nada nas políticas aprovadas ou não pelo Congresso, mas as quase 60 pessoas que fazem parte destas famílias são extremamente importantes para o município).

- Marketing social, principalmente para pequenos e grandes laticínios, que podem oferecer produtos que representam simbolicamente o pequeno produtor local (esta prática já se sabe que possui reflexos positivos nos consumidores).

- Criação de um vínculo permanente e confiável entre produtor e empresas (bem diferente do cenário atual...)

- Possibilidade de um crescimento sólido de toda a cadeia

Logicamente que este é um modelo tão teórico quanto o modelo de o Brasil produzir mais de 20 bilhões de litros de leite com apenas 200.000 ou quem sabe menos, produtores. Mas cabe a nós, profissionais envolvidos diretamente com a atividade, repensar modelos socialmente mais justos e economicamente viáveis e, talvez, o investimento em capital social represente uma nova opção – infelizmente ações voltados ao desenvolvimento de capital social em comunidades rurais ainda são pontuais e quase que exclusivamente de Organizações não Governamentais (ONGs).

Alguns obstáculos devem ser superados, no entanto, para que o investimento em capital social
traga benefícios:

- Mudança de enfoque das empresas: o lucro pela quantidade e não pelo preço

- Mudança na assistência técnica das empresas e na assistência técnica oficial: mudança metodológica (tendo em vista os métodos ineficientes e caros geralmente utilizados para divulgar produtos e novas técnicas), mas fundamentalmente uma mudança filosófica, passando a criar um vínculo forte e legítimo com os produtores.

- Sensibilização de entidades governamentais: é necessária uma mobilização do poder público em prol do pequeno produtor. Neste sentido o trabalho dos produtores organizados e das empresas pode convergir de maneira extremamente eficiente.

- Estímulo à organização formal ou informal de produtores de forma legítima e não baseadas na alienação ou em interesses não expostos (pois neste caso com certeza o resultado a médio prazo seria bom, ma a longo prazo voltaríamos a uma situação de instabilidade e incertezas).
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