Mais uma vez o Sr. Jorge Rubez optou pela sua estratégia preferida para contestar alguém que discorde de suas opiniões, a desqualificação pura e simples do opositor, que no meu modo de ver é uma estratégia tacanha e repudiável. Pela posição que ocupa, eu também esperava uma resposta mais sublime e elegante. Mas quando se tem o sentimento da onipotência, opta-se pelo método mais simplista de debate: a tentativa pouco educada de desqualificação e execração pública do oponente.
Mas ao contrário do que o senhor pensa, Sr. Jorge Rubez, existem outras opiniões também consistentes sobre questões do setor lácteo diferentes daquelas do presidente da Leite Brasil, inclusive sobre a portaria 56, ao contrário do que o senhor imagina e escreve no seu artigo. Diz a filosofia popular que "todo o consenso é burro", mas felizmente ainda existem pessoas com capacidade de análise crítica. Não estou falando de mim não, neste caso da portaria 56, mas de muitos produtores de leite, acadêmicos e técnicos do setor que têm uma visão crítica da referida portaria. Não precisa ir muito longe para comprovar isto, basta ler a secção de cartas deste site e observar o grande número de mensagens de apoio ao artigo que escrevi. Confesso que não julgo ter grandes méritos em publicar uma análise crítica da portaria 56, apenas o senso de oportunidade de usar uma mídia independente para veicular a idéia de vários colegas e produtores. De minha parte não tenho atrelamento a qualquer entidade ou instituição representativa de interesses e portanto não faço lobby, ao contrário de muita gente neste setor. Sou um simples funcionário público e me sinto no dever de manifestar a minha opinião no sentido de defender minhas convicções técnicas, pessoais, ideológicas e acima de tudo, do interesse do Estado e da comunidade que em última análise paga meu salário.
Sinto-me na obrigação de me manifestar até como forma de retribuir à comunidade e ao Estado os investimentos que fizeram na minha pessoa, me proporcionando o maior ativo que tenho hoje, que é a minha educação formal, pois recebi esta educação do Estado brasileiro, desde o jardim de infância, passando pelo colegial, graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado no exterior, de forma absolutamente gratuita e com alta qualidade. E é por ter este senso de compromisso com a comunidade que me proporcionou tantos privilégios que me manifesto criticamente em relação à portaria 56, pois julgo que existem grandes equívocos na mesma. Mas, destaco, que em nenhum momento desqualifiquei ou agredi alguém pessoalmente nos meus artigos e procurei sempre manter um elevado padrão de educação nas discussões. Usei sim em abundância, de uma figura de linguagem tradicional, que é a ironia, mas apenas como um refino da comunicação. Os letrados sabem bem que embora tal figura de linguagem possa parecer desdenhosa, é apenas um instrumento não convencional de elaboração da linguagem escrita.
Mas gostaria de encerrar este debate apenas argumentando que discordo parcialmente da legitimidade da portaria 56, bem como do seu conteúdo. E mais do que isso, da sua exeqüibilidade.
A questão da audiência pública, entendo, é apenas uma retórica e uma estratégia para referendar e dar um apelo democrático a um documento que em última análise foi escrito por poucas mãos, atendendo interesses bastante particulares. Não acho que a iniciativa privada, conforme nome do documento original que deu origem à portaria 56, tenha a prerrogativa de elaborar políticas públicas neste país ou noutro qualquer republicano e democrático. Mas num cenário em que há um Estado fragilizado e um espaço para o poder do lobby, o conceito de democracia e legitimidade ficam muito relativizados. E acho que esse é o caso da portaria 56, uma proposta que julgo inconsistente e equivocada tecnicamente em alguns pontos e inexeqüível noutros, e sobre a qual me disponho a debater publicamente com qualquer cidadão deste país, sem receio de não ter bons argumentos. Não sou contra uma proposta de reestruturação das normas de qualidade do leite em nosso país - muito pelo contrário - julgo tal medida essencial. Mas, para que uma iniciativa desta tenha sucesso, precisa ser bem elaborada e consistente. E isso implica em contemplar ou escutar as diversas opiniões técnicas, sem imposições políticas ou corporativas e rejeição desrespeitosa ao debate como fez o Sr. Jorge Rubez, que por se achar dono da verdade e representante do "seu consenso" preferiu me desqualificar pessoalmente ao invés de discutir as potenciais inconsistências da portaria. Como diz o título deste artigo, isto demonstra no mínimo uma grande deselegância.
Tréplica do Eremildo: décadence avec (des)élégance
Publicado por: Luis Fernando Laranja da Fonseca
Publicado em: - 3 minutos de leitura
Material escrito por:
Luis Fernando Laranja da Fonseca
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ELDER MARCELO DUARTE
SÃO CARLOS - SÃO PAULO - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS
EM 10/06/2002
Quero deixar registrado que quando li o primeiro artigo do Eremildo escrito pelo Prof. Laranja, parabenizei-o através desta seção de cartas. Entretanto, sou favorável ao início da vigência da Portaria 56, como um instrumento que apesar de algumas falhas, é muito melhor do que a legislação atual. Essas falhas deverão ser corrigidas conforme forem aparecendo as dificuldades de execução, mas é indispensável para o setor a fixação de objetivos e regras para modernização do setor.
A parte brilhante do artigo, foi justamente deixar claro que muitas pessoas estão se iludindo, na expectativa de que todos os problemas do setor serão resolvidos com essa portaria, e que ao toque da caneta estaríamos entrando no primeiro mundo.
Vamos deixar de lado essa troca de "gentilezas" entre Laranja e Jorge, e SOMAR as capacidades de ambos para o bem do setor, enquanto ainda existem algumas pessoas que acreditam na produção de leite formal com rentabilidade no Brasil.
A parte brilhante do artigo, foi justamente deixar claro que muitas pessoas estão se iludindo, na expectativa de que todos os problemas do setor serão resolvidos com essa portaria, e que ao toque da caneta estaríamos entrando no primeiro mundo.
Vamos deixar de lado essa troca de "gentilezas" entre Laranja e Jorge, e SOMAR as capacidades de ambos para o bem do setor, enquanto ainda existem algumas pessoas que acreditam na produção de leite formal com rentabilidade no Brasil.

MÁRCIO ANTONIO DE MELLO
CHAPECÓ - SANTA CATARINA - PESQUISA/ENSINO
EM 10/06/2002
Parabenizo o Professor Laranja pelo brilhante artigo "Eremildo, o idiota e a Portaria 56", bem como, ao contrário dos que são contra a sua opinião, a elegância na resposta as críticas. Aproveito, também, para parabenizar ao MilkPoint a concessão deste espaço democrático para o debate de idéias.
Sou pesquisador do Centro de Pesquisa Para Agricultura Familiar - da Epagri de Chapecó - SC e opinião semelhante à sua foi a que defendemos na CPI do Leite em Santa Catarina. Também acreditamos, assim como você, que o desenvolvimento da cadeia do leite deve ser sustentável, isto é, que contemple de forma equilibrada, os interesses econômicos, sociais, ambientais e culturais. Foi nessa perspectivas que estudei, na minha dissertação de mestrado a atividade leiteira no Oeste de Santa Catarina. Nesse mesmo trabalho estudei as mobilizações que os produtores especializados, sobretudo os de São Paulo, estão fazendo para se manter no mercado do leite. O objetivo central por trás dessas mobilizações é obter apoio político e popular para implementar ações que têm o claro objetivo de consolidar a atividade leiteira dentro dos estabelecimentos especializados, valendo-se para isso a implantação de barreiras sanitárias e tecnológicas que impeçam o avanço da produção não especializada, como é o caso daquela oriunda da agricultura familiar do noroeste do RS, Oeste de SC e sudoeste do PR. É por este motivo que acreditamos que as medidas defendidas na Portaria 56 têm muito mais interesses de proteger os produtores especializados de leite do que a promover a real melhoria da qualidade do leite. Quando me refiro a qualidade do leite não estou pensando somente na qualidade higiênica e sanitária da produção mas que também outros atributos como a presença/ausência de agrotóxico, antibiótico, número de empregos gerados, preservação ambiental, cultural, social, etc.
Sou pesquisador do Centro de Pesquisa Para Agricultura Familiar - da Epagri de Chapecó - SC e opinião semelhante à sua foi a que defendemos na CPI do Leite em Santa Catarina. Também acreditamos, assim como você, que o desenvolvimento da cadeia do leite deve ser sustentável, isto é, que contemple de forma equilibrada, os interesses econômicos, sociais, ambientais e culturais. Foi nessa perspectivas que estudei, na minha dissertação de mestrado a atividade leiteira no Oeste de Santa Catarina. Nesse mesmo trabalho estudei as mobilizações que os produtores especializados, sobretudo os de São Paulo, estão fazendo para se manter no mercado do leite. O objetivo central por trás dessas mobilizações é obter apoio político e popular para implementar ações que têm o claro objetivo de consolidar a atividade leiteira dentro dos estabelecimentos especializados, valendo-se para isso a implantação de barreiras sanitárias e tecnológicas que impeçam o avanço da produção não especializada, como é o caso daquela oriunda da agricultura familiar do noroeste do RS, Oeste de SC e sudoeste do PR. É por este motivo que acreditamos que as medidas defendidas na Portaria 56 têm muito mais interesses de proteger os produtores especializados de leite do que a promover a real melhoria da qualidade do leite. Quando me refiro a qualidade do leite não estou pensando somente na qualidade higiênica e sanitária da produção mas que também outros atributos como a presença/ausência de agrotóxico, antibiótico, número de empregos gerados, preservação ambiental, cultural, social, etc.

HEITOR GOMES
NITERÓI - RIO DE JANEIRO - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 28/05/2002
Como produtor rural tenho acompanhado esta polêmica em torno da portaria 56. Estou plenamente de acordo com sua opinião. Simplesmente porque você está defendendo um sistema e não uma instituicão comercial ou afim. Sou favorável a melhoria de qualidade do leite que produzimos, inclusive estou adquirindo um tanque de resfriamento. Parabéns.