Touro zebu e produção de leite1

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Sebastião Teixeira Gomes2

Em razão da recente crise do mercado do leite, causada pela significativa queda do preço recebido pelo produtor, alguns produtores mudaram o programa de cruzamento de seus rebanhos, utilizando touros das raças gir, guzerá e até mesmo nelore.

Tal procedimento tem sido considerado um retrocesso tecnológico, capaz de comprometer a produção futura do leite, dada a menor capacidade de produção das raças zebuínas.

O desastre previsto poderá não acontecer, pelo menos na grandeza que se anuncia, pelas seguintes razões: 1) Não são todos os produtores de leite que adotaram esta mudança, mas alguns que, pela estranheza da decisão, ganham notoriedade; 2) Mesmo para os que colocam touro zebu na vacada, não significa que utilizarão as crias para produzir leite. Poderão vender os machos e as fêmeas azebuadas para serem recriados como gado de corte, comprando matrizes para substituir as vacas descartadas. Nesse caso, aumenta-se a demanda de um mercado muito promissor, que é o de matrizes leiteiras. A racionalidade econômica do produtor recomenda produzir leite com vacas que têm capacidade de resposta. Ainda que, eventualmente, produzam abaixo do potencial, elas devem ter capacidade de resposta, para serem lucrativas; 3) É pouco provável que o produtor reduza, significativamente, a produtividade do rebanho, no futuro, porque ele não dispõe de muita terra para um modelo extensivo, com escala de produção. Além disso, reduzir a produtividade do rebanho significa também reduzir as produtividades da terra e da mão-de-obra; 4) O rebanho predominante no país é o de gado mestiço, cuja vida útil produtiva é, em geral, superior a 5 anos. Isto significa que o descarte anual é menos de 20%. Em outras palavras, com o dinheiro da venda de bezerras e bezerros azebuados (que têm bom preço no mercado), compram-se matrizes, especializadas na produção de leite, que farão a substituição das poucas vacas descartadas.

Há pouco tempo, estudei a economia da produção de leite do Sr. Belmiro de Almeida, cujos resultados reforçam os argumentos anteriores. A propriedade localiza-se em Abaeté-MG e tem apenas 34 hectares. É uma empresa tipicamente familiar. Em razão da pequena área, não há recria de novilhas. Todas as crias, machos e fêmeas, são vendidas para pecuaristas de gado de corte, com idade média de 1 ano, após o desmame. As vacas têm grau de sangue que varia de 3/4 a 7/8 HZ, e o reprodutor é da raça guzerá. Faz-se a substituição das vacas descartadas pela compra de novilhas de primeira cria, na região. O dinheiro da venda de bezerros e bezerras é mais do que suficiente para a compra das novilhas que entrarão no rebanho.

Alguns resultados: 1) Em 2001, foram produzidos 299.300 litros de leite, sendo 3.938 litros/total de vacas/ano (vacas em lactação mais falhadas); 2) Margem bruta (renda bruta menos custo operacional), equivalente ao valor de 9.479 litros de leite/mês; e 3) Taxa de retorno do capital imobilizado em benfeitorias, máquinas e animais de 14,17%, ao ano, e de 10,46%, considerando o capital imobilizado em benfeitorias, máquinas, animais e terra. São resultados expressivos que comprovam a viabilidade do modelo. Produz-se muito leite e é lucrativo.
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1Trabalho escrito em 25-02-2002.
2Professor titular da Universidade Federal de Viçosa.
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daniel
DANIEL

VAZANTE - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 04/09/2016

https://www.youtube.com/watch?v=xlirkt6I8ns



olhem este vídeo e percebam que um gado esquecido no passado é a solução para o presente e para o futuro ou seja a utilização de touros adaptados ou sintéticos para leite como refrescamento das matrizes a partir do sangue 3\4 europeu leite
Juliano Baiocchi Villa-Verde de Carvalho
JULIANO BAIOCCHI VILLA-VERDE DE CARVALHO

BRASÍLIA - DISTRITO FEDERAL - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 26/03/2002

Tive notícia dessa prática em palestra do Maurício Palma Nogueira (Scot Consultoria), proferida ainda em 2000, em Brasília, antes, portanto, da chamada crise do leite. Já naquela época ele dizia ser economicamente viável a utilização de reprodutores zebu em 80% da vacada holandesa (repetição de cio e outros critérios de seleção), porquanto os 20% restantes do plantel garantiriam a reposição anual de matrizes descartadas. Acreditando na novidade, desde então passei a fazer o terceiro acasalamento das vacas que não emprenhavam na primeira e segunda tentativa de inseminação, com touros gir ou nelore. Resultado, cerca de 20% de minhas matrizes estão prenhes de zebu e, levando em consideração os partos que já ocorreram, posso afirmar o seguinte: 1) Reduzi meu intervalo entre partos; 2) Diminuí o descarte de matrizes (o principal motivo de descarte é a vaca ficar vazia muito tempo); 3) Acrescentei ao sistema a receita, ainda que pequena, de bezerras e bezerros cruzados, que têm muita procura, tanto por tiradores de leite quanto por recriadores de gado de corte.
Hildebrando de Campos Bicudo
HILDEBRANDO DE CAMPOS BICUDO

ARCEBURGO - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 20/03/2002

A volta ao zebu seria a saída se usado zebu provado para leite, como gir e guzerá, desde, é claro, que os testes de progênie que nos são apresentados sejam válidos. Poderíamos manter um plantel com grau próximo ao meio sangue, usufruindo os benefícios das duas espécies, zebu e europeu. É no que estou acreditando. O tempo dirá se estou certo.
Qual a sua dúvida hoje?