Rumo ao pior ano da logística agrícola
Espaço Aberto: Este ano o Brasil está colhendo a maior safra da sua História, 11% mais do que na safra anterior. Viramos o primeiro produtor e exportador mundial de soja e também tomamos dos americanos a posição de primeiro exportador mundial de milho, um fato inédito e surpreendente. No entanto, as filas de navios nos portos estão duas a três vezes maiores do que há um ano. Por Marcos Sawaya Jank
Publicado em: - 4 minutos de leitura
Em recente evento de que participei nos EUA, a principal questão não era saber a estimativa de quanto o Brasil vai produzir nesta safra, mas sim os volumes de soja e milho que serão efetivamente escoados através de nossos portos até o início da próxima safra americana. Ninguém mais tem dúvida de que o Brasil consegue responder rapidamente na produção. Basta dizer que só na soja ampliamos a área plantada em quase 3 milhões de hectares em apenas um ano. A segunda safra de milho - erroneamente chamada de "safrinha" e plantada após a colheita de soja no mesmo ano agrícola - superou a safra de verão em mais de 6 MT nos dois últimos anos. Trata-se de uma notável vantagem competitiva da agricultura tropical, que jamais vai ocorrer em países de clima temperado.
Acontece que em apenas um ano aumentamos a nossa exportação "potencial" de milho e soja em 18 milhões de toneladas, 36% mais do que na safra passada. Vale notar que o grosso da expansão de soja e milho se dá nos Estados de Mato Grosso, Goiás e Bahia, em áreas que se situam entre 1.000 e 2.300 km de distância dos portos. Se somarmos ainda as exportações de 25 MT de açúcar e a importação de 18 MT de matérias-primas para fertilizantes, não é de espantar que este ano assistiremos, passivos e apavorados, à maior asfixia na logística de granéis da nossa História!
Neste momento, as filas de navios para atracar nos Portos de Santos e de Paranaguá estão duas a três vezes maiores do que há um ano. No dia 21 de fevereiro havia 82 navios esperando para carregar grãos no Porto de Paranaguá, ante 31 nesta mesma época do ano passado. Em Santos havia 59 navios, ante 29 há um ano. O custo médio de demurrage de um navio parado esperando carga é de US$ 30 mil por dia. Em seminário do Banco Itaú-BBA, operadores relataram que para evitar 45 dias de fila de espera em Paranaguá eles decidiram mandar os caminhões para o Porto de Rio Grande, onde as filas duram menos de dez dias. Ou seja, depois de rodar 2.300 km do norte de Mato Grosso até Paranaguá, a soja ainda tem de rodar outros 1.100 km para pegar uma "fila mais rápida" no Rio Grande do Sul. Uma verdadeira insanidade!
Para complicar ainda mais, a Lei 12.619, que restringe a jornada de trabalho dos caminhoneiros e o tempo de condução dos veículos, teve o efeito prático de "retirar" mais de 500 mil carretas das estradas. Os fretes de cargas já subiram entre 25% e 50% este ano. Além disso, o processo de votação da Medida Provisória n.º 595 - a chamada MP dos Portos, que propõe novas regras para a modernização destes - tem produzido uma sucessão de greves em escala nacional, que só tende a piorar com o avanço das negociações.
Essa situação calamitosa nos leva a pelo menos três reflexões importantes. A primeira delas, e mais óbvia, é a necessidade urgente de votar os novos marcos regulatórios que modernizariam a logística brasileira, particularmente a MP dos Portos. Apesar da calamidade nas estradas, da insuficiência histórica de ferrovias e hidrovias e da falta de armazéns (nossa capacidade de armazenagem equivale a 72% da safra de soja e milho, ante 133% nos EUA), o pior gargalo do País neste momento, de longe, são os portos. É hora de vencer a reserva de mercado, a burocracia e o corporativismo de um dos setores mais atrasados da economia brasileira.
A segunda é a necessidade urgente de viabilização sistêmica da nova logística do Norte do País, traduzida no escoamento pelos Portos de Itacoatiara (Rio Madeira), Santarém (Amazonas), Marabá (Tocantins), Miritituba (Teles Pires/Tapajós) e Vila do Conde (confluência do Amazonas e do Tocantins, no Pará), na conclusão da pavimentação das rodovias BR-163 e BR-158 e das Ferrovias de Integração Norte-Sul (FNS), Centro-Oeste (Fico), Oeste-Leste (Fiol) e Transnordestina. Basta dizer que 60% da produção de grãos se concentra nos cerrados, que serão beneficiados pela nova logística, mas só 14% dela é hoje escoada pelos portos do Norte e Nordeste. A viabilização dos novos corredores permitiria exportarmos com navios Capesize, que transportam 120 mil toneladas de grãos, o dobro da capacidade dos navios Panamax, hoje utilizados. Com a futura passagem desses navios pelo Canal do Panamá, em 2014, será possível reduzir em pelo menos 20% o frete marítimo para a China, que já responde por 40% da nossa exportação de grãos, além da redução potencial dos fretes terrestres, pelo uso de ferrovias e hidrovias.
A terceira reflexão tem que ver com o longo prazo. Precisamos estudar qual seria o melhor modelo de inserção do Brasil no agronegócio global do futuro. Hoje estamos engargalados num sistema ineficiente de transporte de soja e milho por caminhões, portos velhos e caros e navios pequenos. Milho e soja servem basicamente para produzir ração para bovinos, suínos e aves, que vão produzir a proteína animal consumida por países que estão do outro lado do planeta.
Num momento em que vários países constroem políticas comerciais mais agressivas - vide o anúncio do novo acordo EUA-União Europeia e a miríade de acordos asiáticos -, não seria a hora de repensar as nossas cadeias de suprimento, buscando explorar a combinação de maior eficiência e valor dos grãos, carnes e lácteos que serão demandados no futuro?
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Material escrito por:
Marcos Sawaya Jank
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JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO
EM 18/03/2013
Muito raramente tenho lido um artigo tão bom e apropiado.
Precisamos de aumentar o número de Brasileiros,com sua mentalidade.
Espero lêr mais artigos seus, desta categoria.

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO
EM 18/03/2013
Excelente resumo do que estamos passando e pior, se crescermos mais, o que irá acontecer? Sem dúvida cresceremos mais e mais, a cada ano, mas onde irá parar nossa produção?. Armazenaremos debaixo de viadutos e pontes?

DOIS VIZINHOS - PARANÁ - MÉDICO VETERINÁRIO
EM 16/03/2013
QUIRINÓPOLIS - GOIÁS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 16/03/2013
Quem paga a conta são os produtores...

SÃO PAULO - SÃO PAULO - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS
EM 16/03/2013
Neste pais de expansão continental ha muito o que fazer, mas aos poucos, com politicas bem definidas e com mais ação.
Com menos retórica conseguiremos chegar onde este Brasil merece.

UBERLÂNDIA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 15/03/2013
Parabéns pelo artigo, muito bem escrito.
Minha opinião sobre isso é que quando olho o Brasil como um todo, com a potencialidade que esse país tem para produzir alimentos e como está no momento, meu sentimento é um só: Frustração.
Sabe fico pensando porque das coisas estarem assim, o porque de não investirmos no que é mais óbvio: Infra estrutura! Não quero entrar aqui nem no fato da burocracia ou da carga tributárias para as empresas que também sufocam os empresários, mas mesmo sem mecher nesses 2 problemas, fica claro para mim que é mais do que óbvio a necessidade dos investimentos em ferrovias, hidrovias, Estradas, Portos, enfim, tudo que está relacionado a logista de distribuição desses alimentos.
Lembro de ver uma reportagem no Jornal da Noite na globo, no qual eles forma aos EUA para entrevistar os produtores de soja la, e um deles, ao falar sobre o Brasil, comentou: Que é incrível a alta produção da soja brasileira, como se produz tanto e de boa qualidade, mas que os centros de distribuição dessas produções do Brasil, se assemelhavam muito ao dos tempos dos EUA após a guerra civil, em incríveis 1850!
Ou seja, é muito atraso.
Fico pensando, será que é má vontade dos políticos de votarem leis ou MPs que estimulem esse crescimento, ou seria, com perdão da palavra, burrice mesmo dessas pessoas em não visualizarem isso? O que você acha?
Mais uma vez parabéns pelo artigo
Att.
Carlos

ANAJATUBA - MARANHÃO - INSTITUIÇÕES GOVERNAMENTAIS
EM 15/03/2013

VALENÇA - RIO DE JANEIRO - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 15/03/2013
Parabéns pela clareza da análise. Se o governo federal reconhecer estas necessidades e tiver a vontade política para resolve-los, podemos pegar o caminho certo.
Vc está mostrando a direcao a seguir!!!!!!
Paulo Fernando
APLISI.

ALPINÓPOLIS - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 15/03/2013
quando Washington Luís falava que governar era abrir estradas nada mais era o fato de que o EUA enfrentava a depressão de 1929 e com isso mandava para o nosso país parte de sua produção automobilística . Outro detalhe curioso que já aconteceu é promover o desemprego para resolver o problema de trânsito e transporte público nos grandes centros assim eliminando a responsabilidade dos governos de investirem para solucionar o problema do setor , agora essa semana leio uma matéria de um economista que para resolver o problema da inflação seria com desemprego . Por tanto penso que se não temos logística adequada é porque ao longo de várias décadas passadas nunca tivemos políticas que pensaram em produzir para nós e para o mundo e nem nos estruturamos ao longo destas para estarmos preparados para superar tal necessidade que se encontra o transporte público nacional em geral (metrô,avenidas,ferrovias,hidrovias,aeroportos e portos).

MURIAÉ - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 15/03/2013
LAGAMAR - MINAS GERAIS - ESTUDANTE
EM 15/03/2013

MATO GROSSO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 14/03/2013
Parabens Marcos, só quem trabalha com isso saber as dificuldades, são aterrorizantes.
O frete subiu o o preço do óleo diesel também, mas o valor da saca da soja é menos que no ano passado.
E as empresas que estão arcando com o frete mais caro deixam de ganhar, pois o governo não deu nenhum incentivo fiscal.
Lamentável essa situação...
Parece que para PT e compainha só interessa Copa do Mundo

ROLIM DE MOURA - RONDÔNIA - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 14/03/2013
A imobilidade de nossos governos é estarrecedora! É mediocre o que vemos!
A cada dia mais ministérios. E todos para fazerem o que não precisamos. "Corrupção". Pois o que de fato precisamos: ah... isso pode ficar pra depois, e depois...
Mas somos brasileiros. Lidamos com tudo isso de forma tranquila. Normal. Os acrescimos de custos pela falta de infraestrutura, casam perfeitamente com as arrecadações de impostos recordes. O crescimento de nosso PIB é reflexo de quão estamos pagando pela nossa ineficiência em vários setores, principalmente àqueles controlados pelos governos!
Fica a pergunta: Quando isso vai acabar?
Não estamos vendo nada efetivamente sendo feito, planejado e executado com os olhos no Brasil do futuro. Mal mal dando um "jeitinho brasileiro" pra lidar com a situação do hoje. Infelizmente!
Frustração total esse nosso país!