Muito se fala sobre qualidade do leite, especialmente a partir da liberação dos preços, mas os ganhos ainda são muito tímidos.
Para começarmos a exportar nossa produção, atualmente competitiva em preços no mercado mundial, temos muito que melhorar em qualidade, a fim de superar as chamadas barreiras não tarifárias.
Não temos vaca louca mas ainda não erradicamos totalmente a aftosa e ainda não encaramos com todas as armas a brucelose.
Nossa granelização, que começou atrasada perto do mundo leiteiro desenvolvido e que surpreendentemente “deslanchou” rápido nas grandes indústrias, parece ainda meio “encalhada” nas médias e pequenas. E o que é pior, há organizações e até CPIs que ainda pedem mais prazo na Portaria 56, cuja “gestação” teve início em 07 de dezembro de 1999 e que ainda ninguém garante quando acontece o “parto”.
Para o leite granelizado, se a ordenha é higiênica, o resfriador tem boa performance técnica, a temperatura de coleta é igual ou inferior a 4oC e a limpeza dos equipamentos de ordenha, resfriamento e transporte são corretamente observados, não é mais prevista quantidade elevada de bactérias que acidificam o leite (mesófilas) e a contagem total de bactérias já se reduz sensivelmente. Nestas condições já se espera uma contagem total de bactérias (mesófilas + psicrotróficas) menor que 1 milhão por mililitro de leite, compatível com as exigências estabelecidas na Portaria 56, para o período 2002 a 2004. Mas não se pode comemorar com esses marcos. Dados recentes apresentados no I Congresso Internacional de Leite em Goiânia, pelo gerente mundial de produtos da Westfalia, Bernhard Schulze Wartenhorst, mostraram que esse limite na Alemanha, expressos em unidades formadoras de colônias (UFCs), é de 100.000 bactérias por ml de leite e que 80% do leite ordenhado naquele país tem menos de 20.000 UFCs/ml.
Quanto a células somáticas (composta por 75 a 98% células de defesa + 2 a 25% de células de descamação da glândula), faz-se necessário o seu controle para a melhoria da qualidade, mas principalmente, tendo em vista ganhos de produtividade para o produtor e a indústria. Apenas para citar um número, segundo o NMC, instituição americana de controle da mastite, de 1996, uma contagem de 1.500.000 células somáticas por mililitro de leite pode representar uma redução de 29% na produtividade de uma vaca.
Uma vez concluído o processo da coleta a granel, nos compete agora uma atenção quanto a contaminação das bactérias psicrotróficas que, além de se multiplicarem a baixas temperaturas, produzem enzimas que atacam as proteínas (proteases) e gorduras (lípases) do leite.
Mas, para que nossa produção não se sujeite a outras barreiras há que se monitorar os resíduos químicos, especialmente antibióticos, toxinas, parasiticidas e metais pesados.
Quanto aos carrapaticidas, a questão é particularmente séria. A resistência dos carrapatos aos produtos comerciais, surgidas principalmente em função do mau uso dos mesmos, é crescente. E aí, já se constata no campo o uso em vacas lactantes das diversas Avermectinas, produtos sistêmicos altamente tóxicos, e até um apelo para o uso de “fórmulas caseiras” à base de Fipronil, diluído em óleo de cozinha, que poderá matar até a vaca. Tudo isso, sem falar no Amitraz, ainda mais usado, que segundo especialistas além de cancerígeno é mutagênico.
O consumidor tende cada vez mais a elevar seu nível de exigência quanto a segurança (saúde), satisfação (sabor) e qualidade (pureza e custo) dos alimentos numa relação direta com o crescimento cultural e de renda.
Dessa forma, surge espaço até para o leite orgânico, como opção para um determinado nicho de mercado.
O leite com mais sólidos, especialmente o teor de proteína, é o caminho a ser trabalhado nos programas de nutrição e melhoramento genético.
Do ponto de vista econômico, nosso negócio de produção de leite tem tudo para se tornar o mais competitivo do mundo, mesmo frente aos subsídios.
Basta analisar alguns fatores comparativos dos diferentes sistemas de produção no mundo:
Em quase todos eles, crescem apenas forrageiras temperadas, que se de um lado são nutricionalmente mais ricas, de outro produzem muito menos matéria seca em um mesmo hectare, quando comparado com as forrageiras que produzem nas nossas condições tropicais. Quando se considera toneladas de nutrientes por área nossa vantagem comparativa é muito maior.
De outro lado, temos terra e mão de obra mais baratas. Necessitamos melhorar nossa relação de litros produzidos por homem envolvido com a ordenha. Aí o próximo e grande desafio de nossa pecuária é mecanizar a ordenha, cuja relação de custo benefício para produções acima de 300 litros diários, já tende a ficar economicamente interessante.
Quando temos a oportunidade de viajar pelo mundo leiteiro desenvolvido, podemos tirar conclusões bastante animadoras a nosso favor. Por exemplo, nos sistemas de produção de leite dos estados do Norte dos EUA ou do Canadá as instalações para se manejar as vacas são extremamente caras em função dos 6 meses ou mais de inverno rigoroso. Os silos têm que ser aéreos para uma carga e descarga mecânica que tem, acima de tudo, o objetivo de evitar que o homem se exponha tanto ao frio.
Quando o exemplo é a Nova Zelândia, o país é pequeno e ainda assim, apenas 30% de sua área tem uma topografia plana, adequada para manejar vaca de leite. A mão de obra é rara, e, por conseqüência, de custo elevado.
Na Europa a terra é cara, as áreas são pequenas e a forragem é pouco produtiva. Não fora o subsídio à exportação, a atividade já estaria morta como negócio.
Nem a Argentina com suas vastas planícies com solos de alta fertilidade podem competir conosco quando produzimos em pasto tropical rotacionado e adubado e/ou com suplementação de cana+uréia+minerais, na seca.
Retornando ao nosso “maná”, resta-nos apenas acreditar e trabalhar. É preciso uma ação de toda a indústria leiteira, numa harmonia entre todos os elos da cadeia produtiva no sentido de explorar essa oportunidade.
Aos fornecedores de ordenha mecânica a partir de agora, é só entrarem em campo e mostrarem as vantagens técnicas e principalmente econômicas de se mecanizar. O retorno do investimento é muito rápido em produções acima de 300 litros diários.
Às indústrias, cabe o papel de estabelecer mecanismos de monitorar a qualidade e implementar sistemas que estimulem os produtores a praticá-la. E aí não temos que perder tempo, os parâmetros já consagrados mundialmente são: teores de sólidos (com ênfase em proteína), contagem de células somáticas (CCS), contagem global de bactérias (UFC) e é claro partindo-se da premissa que o leite é isento de resíduos como água (crioscopia), antibióticos e outros químicos (pesticidas, toxinas e metais pesados...).
E agora mesmo é inaugurado mais um moderno laboratório em Goiânia, na UFG, apto para dar suporte à indústria de Goiás e até de outros estados.
Do governo, com ou sem CPIs se espera vigilância para que haja equidade na partição dos resultados, entre todos os segmentos da cadeia produtiva.
Antônio Carlos de Souza Lima Júnior é engenheiro agrônomo pela UFV, especialista em Nutrição de Ruminantes pela UFLA. Participou de várias viagens para estudos da cadeia leiteira aos EUA, N. Zelândia e Austrália, Argentina e Uruguai com professores da ESALQ. Atualmente, é gerente de qualidade do Laticínios Morrinhos
e-mail: souzalimajr@hotmail.com
Qualidade do leite e competitividade
Muito se fala sobre qualidade do leite, especialmente a partir da liberação dos preços, mas os ganhos ainda são muito tímidos.
Publicado por: Antonio Carlos Souza de Lima Júnior
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Antonio Carlos Souza de Lima Júnior
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HERBERT VILELA
BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 22/01/2002
Artigo muito bom em seu conteúdo e oportuno na nossa conjuntura de sem rumo.

ANTONIO PEROZIN
VALINHOS - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 22/01/2002
Vendo a matéria sobre a qualidade do leite, e acompanhando o que acontece no mercado lácteo, desde o produtor até o consumidor final, aumenta o meu desânimo quanto a produzir leite. De nada adianta produzir com qualidade, se, tanto latícinios, governo e consumidores não valorizam este item de suma importância, pois o leite que produzo com tanta tecnologia e qualidade tem o mesmo valor daquele que é produzido sem nenhum critério.
Vemos hoje, que os mais tecnificados produtores de leite estão abandonando a atividade. Só nos últimos dias, várias liquidações foram anunciadas.
O Brasil caminha para trás, e, apesar de todo o movimento que estamos fazendo, não estamos conseguindo mudar esta direção. Portanto, hoje, se eu tiver que aconselhar alguém a entrar, ou a continuar na atividade, com toda a certeza de não errar, o meu conselho é: fique longe ou saia o mais rápido possível.
Vemos hoje, que os mais tecnificados produtores de leite estão abandonando a atividade. Só nos últimos dias, várias liquidações foram anunciadas.
O Brasil caminha para trás, e, apesar de todo o movimento que estamos fazendo, não estamos conseguindo mudar esta direção. Portanto, hoje, se eu tiver que aconselhar alguém a entrar, ou a continuar na atividade, com toda a certeza de não errar, o meu conselho é: fique longe ou saia o mais rápido possível.