Produtor se forma é na escola !

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A cada dia parece que mais e mais pessoas entendem que vivemos um período único da na produção de leite no Brasil; período no qual talvez o país esteja construindo seu modelo de produção - a discussão a respeito da portaria 56 é apenas um dos pontos que evidenciam este aspecto, podendo ser destacado ainda: a liberalização do mercado e suas conseqüências (nefastas e benéficas), os sistemas de pagamento por qualidade, a granelização, entre outros fenômenos vividos durante os últimos 10 anos.

No entanto, este processo, denominado "modernização" pelos estudiosos do setor e que trará como benefícios a afirmação definitiva do Brasil como um dos principais produtores de leite do mundo (alcançando o mercado internacional e garantindo remunerações dignas aos produtores nacionais), terá como "efeito colateral" a exclusão de alguns milhares de produtores da atividade - não há espaço para ineficientes e despreparados (e engana-se quem pensa que esta conversa de exclusão é apenas da boca para fora: a história da agropecuária nacional mostra claramente que após períodos de modernização, segue-se longos períodos de êxodo rural). Neste ponto nascem as perguntas: mas por que não conseguimos conciliar a modernização com a permanência dos pequenos produtores? Quais as origens desta exclusão? Há algo que pode ser feito para contrapor este quadro?

Além de causas econômicas, uma das possíveis razões que explicam esta situação é a dificuldade dos produtores em modificar antigos hábitos. Muitos estudos mostram que o produtor rural no Brasil é, via de regra, descrente em suas capacidades, apático frente aos problemas do dia a dia e está sempre a espera de uma solução mágica, que venha dos órgãos "superiores" (prefeituras, órgãos de extensão, governo do estado ou mesmo "divindades", como encontramos em um dos nossos estudos junto a comunidades rurais de Pirassununga) - o produtor rural no Brasil é um eterno "reclamão".

Este quadro infeliz e que não encaixa nas atuais perspectivas do agronegócio do leite no país foi construído ao longo da vida dos produtores - ele foi sistematicamente levado a crer que não teria capacidade de resolver os problemas (pois não possuía conhecimentos suficientes) e que as boas idéias ou as "propostas corretas" tinham que vir de pessoas de fora (é interessante observar que muitas vezes mesmo apresentando as respostas para algumas das questões vividas pelos produtores, eles acabam repudiando as medidas, continuando com velhos hábitos). Com certeza os sistemas de educação formal e não formal do produtor contribuíram para a formação destas características.

Como educação formal entende-se as instituições responsáveis em ensinar as informações consideradas "fundamentais" às pessoas. No campo, estas instituições são representadas pelas escolas rurais. Sendo assim, vale a pena traçar um panorama das escolas rurais no Brasil, tentando fazer uma análise de como foram formados e estão sendo formados os produtores rurais brasileiros.

Encontramos primeiramente alguns pontos extremamente negativos nas escolas rurais: falta infra-estrutura básica e falta preparo para as professoras rurais. No entanto, com certeza um dos principais problemas diz respeito ao currículo destas escolas - similar às escolas urbanas. Neste sentido, a criança rural deve aprender a ler, escrever, pensar a agir como uma criança urbana e a partir de uma realidade urbana (realidade esta não vivenciada pelas crianças rurais). A desvinculação dos conteúdos das escolas rurais do próprio meio rural representa em primeiro lugar um desrespeito com uma cultura rural rica, além de dificultar todo um processo de aprendizagem: é muito difícil para uma criança aprender conceitos fundamentais a partir de uma realidade que ela não conhece. O fato se agrava mais ainda quando se percebe que grande parte das escolas rurais não oferece ensino após a 4a. série, sendo que a criança, caso queira continuar seus estudos, terá que obrigatoriamente ir para a cidade - este é um fato extremamente grave e que possui um poder de dizimar a produção familiar muito maior do que a aprovação, p. ex., da portaria 56: enviando seus filhos para a cidade não há como continuar com a produção rural.

No entanto, as escolas rurais representam um papel fundamental no meio rural: talvez as escolas rurais sejam uma das instituições mais "respeitadas" no meio rural - ainda hoje, milhares de produtores acreditam que, enviando seus filhos para estas instituições, eles poderão ter um sucesso diferente na sua vida, adquirindo conhecimentos importantes. Em nossos estudos nas comunidades rurais de Pirassununga esta situação ficou bem evidente:

"Temos que garantir um futuro melhor para nossos filhos...Por isso ele vai todo dia à escola aqui do bairro, para ver se aprende alguma coisa"

Percebe-se nesta simples frase, comentada durante uma conversa com um produtor familiar de leite, ao mesmo tempo em que aparece o respeito pela escola, o desrespeito com a sua própria cultura - mesmo nosso amigo produtor não acredita que sabe alguma coisa, fazendo com que seus filhos acordem as 4:00 e caminhem por 2 km, a pé em uma estrada de terra, para chegar até a escola.

Neste sentido, surge uma possibilidade interessante: por que não preparar nossos futuros produtores de leite (e produtores rurais em geral) ainda na escola. Por que não transformar esta instituição em uma ferramenta para o desenvolvimento sustentável?

Felizmente existem exemplos que merecem ser ditos e devem ser seguidos: p. ex. o caso das escolas rurais envolvidas nos programas de educação sanitária desenvolvidos pela Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina - CIDASC. Estes exemplos trazem informações importantes de como estas atividades devem ser desenvolvidas e os resultados que podem ser obtidos.

Basicamente os programas dizem respeito à introdução de temas de relevância para o meio rural nos currículos das escolas, como p. ex., sanidade animal, higiene alimentar, desenvolvimento comunitário, preservação ambiental entre outros. Destaca-se ainda a modificação dos horários e calendários escolares, que deverão seguir as características da produção rural local, possibilitando uma maior assiduidade dos alunos. Algumas particularidades são:

- Os diferentes temas de educação sanitária devem ser dados de maneira interdisciplinar (dentro dos conteúdos de português, matemática, ciências etc) e preferencialmente pelos professores das próprias escolas, havendo assim um comprometimento da própria escola com os conteúdos - logicamente que esta ação requer um treinamento das professoras com os temas de interesse. Os conteúdos não devem ser dados na forma de "palestras específicas", pois o objetivo não é modificar o tipo de conteúdo a ser aprendido nas escolas rurais, mas a forma de aprendizado (p. ex. ensinar as crianças a ler com textos sobre saúde animal, manejo de animais etc).

- As atividades devem possuir apoio da escola, dos produtores e da prefeitura local, garantindo assim a continuidade dos trabalhos (deve-se ter em mente que este é um trabalho a longo prazo). O envolvimento de todos é fundamental para o levantamento dos temas de interesse e condução com sucesso das atividades.

Particularmente, presenciei um exemplo do poder da modificação da escola rural no pequeno município de Turvo, Santa Catarina. Neste município visitei, junto com um veterinário da CIDASC, uma escola rural para conhecer o trabalho de educação sanitária que estava sendo desenvolvido. No primeiro dia conversei com as crianças (1 a 4a. série), olhei seus cadernos e percebi sua animação ao conversar com o veterinário. As professoras e a diretora da escola encontravam-se do mesmo modo animadas - a educação sanitária havia aumentado o interesse das crianças pelos temas importantes da escola, mas acima de tudo havia causado uma mobilização dos pais na escola. Em um segundo dia de visita fiquei surpreso: as crianças tinham preparado trabalhos sobre diversos temas para apresentar para mim. Dois trabalhos me marcaram profundamente: um pequeno produtor, de uns 9 anos, falando sobre métodos de conservação de forragens e apresentando um quadro no qual ele havia pregado diversas amostras de silagem e feno que havia coletado com seus vizinhos. No entanto talvez o trabalho que mais tenha me marcado foi de uma pequena produtora, de uns 10 anos, que falou animadamente sobre "como obter um leite de qualidade" - falando sobre desinfecção antes e após a ordenha, lavagem das mãos e equipamentos e prevenção da mastite como se fosse uma grande entendedora do assunto (e realmente era!). Esta situação foi tão impressionante que tive que visitar os pais destes alunos para perceber se este conhecimento não era apenas "decorado", mas acima de tudo aplicado, como aliás devem ser os bons conhecimentos. Para minha surpresa, os pais da pequena estudante encontravam-se extremamente orgulhosos e satisfeitos, pois finalmente a escola tinha "ensinado algo de bom para a produção". Esta era a essência do programa - aumentar o interesse pela escola, melhorar o processo de ensino e aprendizagem e transformar as crianças em agentes de difusão de informações.

Vendo exemplos como este é que percebo que há esperança no final do túnel - logicamente que minha pequena amiga de Turvo não conhecia a portaria 56, mas já estava prepara para o avanço na cadeia. Possuía iniciativa. Possuía anseio por saber mais - isto para mim é desenvolvimento. Este tipo de atitude é que, para mim, dá sentido a modernização tecnológica.

Aqui, no Instituto Fernando Costa, infelizmente não conseguimos ainda sensibilizar as autoridades locais para a importância do tema e ficamos restritos a cursos de preparação para professoras de escolas municipais, para que pouco a pouco introduzam temas de educação sanitária e higiene alimentar nos conteúdos escolares. No entanto, é necessário mais, é necessário envolver a comunidade - vamos continuar insistindo, pois a nossa parte iremos fazer.



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