Antes de 1990, quando o leite ainda era tabelado pelo Governo Federal, um litro de leite era equivalente a um litro de óleo diesel, e o preço médio recebido pelo produtor era cerca de 50% a 60% do preço final pago pelo consumidor.
Em 1990 foi abandonado o preço tabelado para um preço formado pelo mercado. A realidade mostrou que o produtor, desinformado e desorganizado, ficou totalmente a mercê de laticínios compradores que rapidamente caracterizaram um oligopsônio, enquanto as cooperativas se esfacelavam.
O resultado foi um brutal aviltamento dos preços pagos aos produtores.
Para se avaliar este aviltamento, faço duas comparações :
- em 1990 o preço médio recebido pelo produtor era cerca de 50% a 60% do preço médio pago pelo consumidor. Em 2001 o preço médio recebido pelo produtor foi de cerca de 25% a 35% do preço médio pago pelo consumidor.
- em 1990 o preço médio recebido pelo produtor era equivalente a um litro de óleo diesel. Em 2001 o preço médio recebido pelo produtor foi de cerca de 40% a 50% do preço médio do óleo diesel.
A comparação com relação ao óleo diesel representa melhor a perda real do preço recebido pelo produtor, porque o preço real do litro de leite pago pelo produtor teve queda significativa no período 1990 a 2001.
O produtor brasileiro aumentou muito a sua produtividade no período 1990 a 2001, mas este aumento de produtividade e o comportamento do preço dos insumos não permitiram compensar uma perda real de preço da ordem de 50%.
O resultado foi uma crise na pecuária de leite brasileira, com a produção formal, aquela sob inspeção federal, praticamente estagnada. O crescimento da produção brasileira foi feito pela produção informal, aquela sem controle sanitário, pois grande número de produtores passou para a informalidade para poder sobreviver. A produção de leite informal cresceu cerca de 150% no período 1990 a 2000, com a participação do leite informal sobre o total da produção passando de cerca de 25% em 1990 para 45% em 2000.
Parece que estão querendo fazer com os produtores brasileiros, que trabalham no sistema de inspeção federal, a mesma coisa que o inglês quis fazer com seu cavalo: acostumá-lo a trabalhar sem comer. Só que quando o inglês estava quase conseguindo seu objetivo, o cavalo morreu.
E se a crise é grave para a pecuária brasileira, é extremamente mais grave para a pecuária paulista por razões tais como:
- Vantagens fiscais favorecem laticínios de outros estados e até os laticínios de São Paulo a comprarem leite de produtores de outros estados.
- Para o mercado de São Paulo, que representa 30% do mercado brasileiro, entram produtos de qualidade muito inferior aos que aqui são produzidos. Isto obriga um achatamento de preços ao produtor paulista para que os produtos produzidos possam competir em preço com os produtos de qualidade inferior que vem de fora.
- A Secretaria de Agricultura e o Governo do Estado de São Paulo não se preocupam com a pecuária de leite paulista. Um exemplo disso, é que há mais de seis meses que lideranças de produtores de leite paulista tentam agendar uma reunião com o Governador par discutir reivindicações apresentadas em relatório entregue ao Secretário e ao Governador.
O resultado disso é o esfacelamento da pecuária de leite paulista. Já fomos o primeiro produtor, caímos para o segundo lugar, caímos para o terceiro lugar. E em 2000 novamente caímos, agora para o quarto lugar. Até onde iremos cair ?
De 1977 a 1999, a Embral realizou 96 leilões de liquidação de planteis leiteiros, vendendo 26.388 fêmeas. Em 2000, mesmo ocorrendo uma pequena melhora dos preços ao produtor, a Embral em 34 leilões de liquidação vendeu 15.275 fêmeas, ou seja, quase 60% das venda nos três anos anteriores. Das 41.663 fêmeas vendidas pela Embral de 19977 a 2000, 87% foram para outros estados. Mas a festa de liquidações continua: em 2001, em 45 leilões a Embral vendeu 11.704 fêmeas, e a previsão é vender cerca de 10.000 fêmeas só no primeiro semestre de 2002.
E notem que existem outras firmas de leilões fazendo liquidação de plantéis leiteiros paulistas. A imprensa noticiou alguns produtores que liquidaram diretamente seus plantéis. E muitos outros produtores, que por ser de menor porte ou por terem matrizes de valor genético de menos destaque, liquidaram seus plantéis no anonimato, até mesmo vendendo seus animais para o gancho.
O resultado é que os produtores paulistas, de cerca de 80.000, encolheram para cerca de 55.000. Foram perdidos cerca de 100.000 a 150.000 empregos diretos na produção. Hoje os produtores paulistas ainda mantém cerca de 200.000 a 300.000 empregos diretos. Quantos empregos São Paulo ainda vai perder na produção de leite ?
E de quem é a culpa ?
Muitos têm criticado duramente à omissão dos políticos paulistas, que se defendem dizendo que os produtores não são organizados e não lutam por suas reivindicações. Também muitas críticas têm sido feitas às lideranças de produtores paulistas, que se defendem dizendo que os produtores não participam. Os produtores choram que são explorados, que não tem poder de negociação frente ao oligopsônio dos compradores, caracterizados pelos grandes laticínios e supermercados.
A Leite São Paulo está sendo fundada, não para achar de quem é a culpa, que é o bode expiatório. A Leite São Paulo está sendo fundada como uma tentativa para acabar com as desculpas, pelo menos no Estado de São Paulo.
Fundada formalmente em 22 de março passado, em assembléia na cidade de São Carlos, a Associação dos Produtores de Leite do Estado de São Paulo - Leite São Paulo, nasce de um esforço de lideranças de produtores de leite de várias partes do Estado de São Paulo.
A Leite São Paulo tem por objetivo fortalecer a categoria dos produtores de leite paulistas, representando-os junto a organismos do poder público, somando esforços com outras entidades de representação de produtores, promovendo o aglutinamento dos produtores em associações e cooperativas, de forma a facilitar a absorção de tecnologia, colaborando para a redução de custos e para obtenção de melhores condições de comercialização do leite.
Para atingir este objetivo, a Leite São Paulo quer que os produtores não apenas se associem à entidade, mas efetivamente participem ativamente da mesma, definindo democraticamente os rumos da Leite São Paulo. A Leite São Paulo nasce com a finalidade de ser uma organização com ação descentralizada, forte em suas bases.
Para isso a Leite São Paulo terá, alem de uma Diretoria Executiva, Diretorias Regionais junto as principais bacias leiteiras, de forma a estabelecer efetivos canais de participação, articulação e mobilização dos produtores paulistas.
Mas a Leite São Paulo, esta tentativa acabar com as desculpas para os graves problemas da pecuária de leite paulista, terá sucesso ?
Dependerá fundamentalmente do produtor de leite paulista. Se os produtores leite não apenas aderirem a associação, mas efetivamente participarem da Leite São Paulo, recebendo informações e manifestando suas opiniões, ajudando a construir uma associação organizada e forte em suas bases, o sucesso será inevitável. Se cada filiado pensar, não o que a associação pode fazer por ele, mas sim o que ele pode fazer pela associação, estaremos agindo unidos e articulados, e o sucesso virá e beneficiará a todos os associados.
E o sucesso da Leite São Paulo não interessa apenas aos produtores de leite, mas a todos os paulistas, posto que viabilidade da produção de leite em São Paulo tem uma importância econômica, mas principalmente social.
Finalizo expressando um pensamento que acredito que motivou lideranças de vária de várias partes do estado a fundarem esta associação: A Leite São Paulo é uma oportunidade para que os produtores paulistas, sejam eles grandes, médios e pequenos, possam contribuir manter a viabilidade da produção de leite em São Paulo, permanecendo na atividade a que se dedicam, e contribuindo para um Estado mais rico e socialmente mais justo.
Caro produtor de leite paulista, você quer continuar isolado, enfraquecido, queixando-se dos resultados da produção de leite ? Aproveite esta oportunidade e dê sua contribuição, participando da Leite São Paulo, incentivando outros produtores da sua região a participar, e assim fazer da união a força que permitirá os produtores serem respeitados dentro do agronegócio do leite.
Informações sobre filiação ou outros esclarecimentos sobre a Leite São Paulo poderão ser obtidos através do e-mail marcellofilho@mpc.com.br
Por que fundamos a Leite São Paulo
Publicado por: Marcello de Moura Campos Filho
Publicado em: - 6 minutos de leitura
Material escrito por:
Marcello de Moura Campos Filho
Membro da Aplec (Associação dos Produtores de Leite do Centro Sul Paulista ) Presidente da Associação dos Técnicos e Produtores de Leite do Estado de São Paulo - Leite São Paulo
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ROBERTO DE CASTRO
SÃO PAULO - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 22/04/2002
Sr. Marcello, parabenizo pela fundação da Leite São Paulo em primeiro lugar, mas gostaria de comentar ser o óleo diesel um produto derivado do petróleo, portanto importado, não sendo base para cálculo de nosso leite totalmente nacional. Penso que devemos seguir pela porcentagem do valor do leite pago pelo consumidor final. Este sim seria um caminho mais palpável. Um grande abraço e parabéns pelos artigos publicados.

FERNANDO CERÊSA NETO
BRASÍLIA - DISTRITO FEDERAL - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 10/04/2002
Acho louvável o esforço para a fundação da Leite São Paulo. Este esforço, entretanto, deveria aglutinar produtores de outros estados, pois o mal que afeta pecuaristas paulistas estende-se por todo o País. Se aprofundado o estudo do desemprego no segmento a nível Brasil, ver-se-á o mal que os laticínios (nacionais e principalmente multinacionais) estão fazendo ao nosso povo.