Sabe-se que a mão de obra é um dos grandes gargalos que, atualmente, impede a melhoria da produtividade e qualidade do leite. Entretanto, o desenvolvimento das habilidades e capacidades dos funcionários envolvidos com a atividade leiteira representa um dos métodos mais eficientes e sustentáveis de atingir estes objetivos. Eficiente porque com baixo investimento pode-se provocar verdadeiras revoluções nos sistemas de produção e sustentáveis pois o conhecimento adquirido simplesmente não é passageiro; ele permanece e tende a acumular-se.
Sabemos que a baixa qualificação da mão-de-obra não ocorre somente nas propriedades leiteiras mas, com certeza, é uma característica bem particular deste setor. A causa para este fato está relacionada a aspectos históricos, principalmente ligados aos fatores culturais e com a grande dependência destes produtores com os ditos "formadores de conhecimento" presentes nas Universidades, órgãos de extensão e técnicos em geral (conforme exposto no artigo "Novas abordagens para os programas de treinamento e educação rural").
Este artigo visa, desta maneira, dar subsídios para compreender as diferentes formas de trabalhar em programas de treinamento, objetivando sempre o compromisso, a participação e a motivação de todos os envolvidos no programa.
Para cumprir com tal objetivo, torna-se necessário comentar um pouco sobre as bases pedagógicas nas quais são estruturados os programas educativos. Nesta altura, o leitor pode estar quase desistindo do texto acreditando que isso é coisa de professor ou de extensionistas... Na verdade, é extremamente difícil encontrar algum profissional que não atue, pelo menos parte do tempo, com transferência de informações. Desde o profissional de campo até os executivos de empresas, todos de alguma forma atuam nesta área (seja para passar uma informação técnica ao produtor ou mesmo para transmitir os resultados financeiros da empresa aos demais membros da administração). E engana-se quem acredita que falte mão de obra para o trabalho de extensão. Talvez nunca o produtor tenha sido visitado por tantos "vendedores de pacotes". O que ocorre é que estes vendedores, agora, fazem parte de empresas privadas.
Sendo assim, para comentar sobre as bases pedagógicas dos programas de treinamento e educação, não podemos deixar de citar duas correntes de pensamento que influenciaram e ainda influenciam na prática do dia a dia. A primeira é o "benhavorismo" e a segunda o "construtivismo". Estas teorias têm em F.B. Skiner e Jean Piaget, respectivamente, seus principais nomes. Vejamos o que cada um tem para explicar sobre o comportamento de ensinar e aprender novas informações.
O aprendizado, segundo Skiner, se dá através do tão conhecido estímulo/resposta, ou seja, pela indução de comportamentos positivos ou ações desejadas através de uma recompensa. Para que fique mais claro, para Skiner não havia a existência de um ser pensante, sendo as atitudes das pessoas um fato relacionado com o estímulo externo que lhe era dado. Estímulos específicos para resposta únicas e específicas àquele estímulo. Em palavras mais próximas do nosso meio, podemos dar como exemplo o seguimento de um protocolo de boas práticas de manejo de ordenha, onde cada ponto alcançado pelo funcionário (respostas e ações adequadas presentes no protocolo) é recompensada com uma premiação, seja ela um dia de folga, uma bonificação, um avental novo, entre outros. No dia a dia do trabalho de assistência técnica, Skiner também está presente, uma vez que, via de regra, a forma de "convencer" um produtor a adotar alguma prática (comportamento desejado), é deixar claro os benefícios que esta prática pode trazer (estímulo). Especialistas em motivação mostram ainda que estímulos financeiros podem não ser os principais, destacando-se neste sentido o sentimento afetivo de fazer parte de um grupo, a segurança domiciliar e no emprego entre outros aspectos. Esta com certeza foi e continua sendo a abordagem mais utilizada em todos os níveis de transferência de informações, desde a educação formal da escola (quem não estudou horas e horas só para tirar um 10 ao final do ano letivo?) até a educação não formal representada pela assistência técnica.
Este tipo de atitude, focada na ação única como conseqüência a um estímulo, na qual independe o nível de conhecimento da pessoa, pode levar a uma fragilidade do sistema, ou seja, as pessoas sempre vão estar dependentes de um estímulo externo para praticar uma ação, desde a mudança de pequenas a grandes coisas presentes no seu universo, gerando uma incapacidade da resolução de novos problemas. Esta é a base para a inércia cultural e social vivenciada hoje em grande parte do campo no Brasil - para pessoas acostumadas a terem as respostas na mão e a resolução de seus problemas ditadas por profissionais de fora é extremamente difícil assumir uma postura criativa e independente.
No entanto, surge quase ao mesmo tempo, uma outra teoria, denominada construtivismo e que tem em Jean Piaget seu referencial teórico. Para este autor, além da importância dos estímulos ambientais (externos), o aprendizado e o conhecimento são construídos também com a participação ativa das pessoas, ou seja, para Piaget, é a união dos estímulos ambientais + participação ativa das pessoas que forma o conhecimento e ações desta pessoa sobre determinado assunto.
Desta maneira, para estes autores, o indivíduo possui várias estruturas mentais que vão formar a inteligência. Quando ele se depara com coisas novas ainda não criadas em sua mente, pode ocorrer dois fenômenos: achar que já tinha o conhecimento sobre aquilo, aprendendo de maneira errada, ou criar uma nova estrutura no cérebro para entender aquela nova informação. Ë assim que ocorre o aprendizado de coisas novas, construindo novas estruturas mentais (por isso a corrente foi chamada de construtivismo).
Um funcionário que trabalha na ordenha pode ter um conhecimento sobre o que é limpeza de tetos diferente daquele que o técnico considera correto. Uma conversa entre eles sobre como é importante a realização da limpeza pode levar o funcionário a seguir três atitudes:
- a) achar que a limpeza que o técnico fala se assemelha aquela que ele já realiza (aprender de maneira errada),
b) achar que a nova idéia não tem nada a ver com seu conceito de limpeza (refutar a idéia),
c) utilizar os pontos que se assemelham com o seu conhecimento, somado com as informações diferentes que está recebendo, criando assim um novo conceito sobre limpeza de tetos (conhecimento adequado).
As teorias de Skiner e Piaget foram, com o passar dos anos, sendo transformadas em ação pelos seus seguidores.
Para os seguidores de Skiner, um importante passo é a identificação dos principais estímulos positivos voltados para um público específico, ou seja, o que mais estimularia este público a cumprir determinadas ações. Em seguida, é traçado um plano de treinamento que caminha das ações mais simples até ações mais complexas, sempre com uma bonificação para cada fase cumprida. Este é o modelo usualmente implementado, variando-se o tipo de estímulo dado somente.
Já para os seguidores de Piaget é de extrema importância que seja avaliado o conhecimento do assunto (estruturas mentais já formadas pelas pessoas) e a inserção destas pessoas no meio onde vivem para que, assim, haja uma adaptação desta informação no contexto das pessoas, que poderão construir, com base em sua história, uma nova informação. Desta maneira, as pessoas saberão como usar e se é necessário usar esta informação dentro do seu próprio contexto, possuindo uma visão crítica e conseguindo resolver os seus próprios problemas. Não envolve uma ação única e já direcionada para uma resposta pré-formada.
É interessante avaliar, a luz destas teorias, o atual momento da pecuária leiteira no país. Longe de fazer análises sobre a eficácia e efetividade de cada programa de treinamento, pois podemos identificar ótimos programas baseados em quaisquer destas teorias (e o contrário também é válido), o que interessa avaliar são as conseqüências de cada um para o atual cenário da pecuária leiteira no Brasil.
Observa-se que historicamente os programas de treinamento rural tiveram na teoria de estímulo/resposta sua base principal. Conhecimentos mais profundos sobre o público alvo destes programas foram pesquisados não na tentativa de entender e aceitar esta realidade em particular, mas simplesmente como uma ferramenta para identificar quais os melhores estímulos para motivar o público alvo. Como já mencionado, muito do sentimento de impotência existente no campo pode ter se fortalecido graças a esta filosofia de trabalho, que diga-se de passagem, foi e continua sendo extremamente eficiente para a transmissão de conhecimentos pontuais.
No entanto, também é de conhecimento geral que vivemos um momento de transição dentro da pecuária leiteira. Transição cultural (profissionalização do setor, discussão sobre a sustentabilidade), transição social (diminuição ou não dos produtores? O que está acontecendo na realidade e o que é desejável para o país?) e transição econômica (quem sobreviverá a este direcionamento? A pequena produção diversificada, o produtor especializado e dito profissional?). Em momentos de transição é difícil falar em respostas prontas, em comportamentos padronizados e milagrosos que serão as respostas para produtores do Norte ao Sul do país.
Na busca da sustentabilidade, em um quadro complexo como este, talvez seja prioritário o desenvolvimento do espírito crítico e de comportamentos criativos. E desde já é importante caracterizar a sustentabilidade da produção em todos os seus aspectos, incluindo a preservação ambiental, o reforço as culturas locais e desenvolvimento cultural, o aspecto social e também a sustentabilidade econômica (que depende também do nível tecnológico da produção). Este é o guia que garante a rentabilidade e permanência de qualquer atividade.
Desta forma, cabe ao profissional ligado diretamente ao produtor o seu desenvolvimento sustentável. E vamos mais além. O único profissional existente que possui condições de auxiliar neste processo, pelo seu nível de contato com esta população, é justamente o extensionista. A omissão pode ter como preço o abandono e o fracasso de ambos. O fórum de discussão do social é aqui, junto com a discussão sobre tecnologias e sistemas de produção. Uma coisa não está separada da outra, devendo, pois, serem tratadas em conjunto. A separação das discussões reflete a tentativa de fugir dos verdadeiros problemas do setor. Mais um mecanismo de opressão e permanência do status quo.
Ou mudamos as atitudes realizadas no sentido de promover a sustentabilidade, ou pagamos conscientemente ou não, o preço. Nós ainda temos liberdade de escolha (coisa que milhares de produtores no país não têm), mas temos que ser responsáveis pelas escolhas que fazemos.
Ações motivacionais, despreocupadas com o desenvolvimento cultural e social são apenas "enfeites", que embelezam mas não tiram o aspecto repugnante do atraso e opressão cultural e social. É necessário engajamento. É necessário a realização de programas baseados em teorias que têm como foco o sujeito pensante. O estímulo ao capital social. É interessante que, desta forma, independe o conteúdo dos programas de treinamento e educação. O que vale é a forma em que é apresentado. Observa-se que muitas pessoas e instituições acreditam, por estar passando conceitos da moda (cooperativismo, associativismo, produção a baixo custo), estarem prestando um favor enorme ao setor. Não tirando os méritos de todas estas tecnologias e inovações, trata-se muitas vezes da repetição dos mesmos procedimentos realizados historicamente no país.
É neste sentido que precisamos fazer uma análise de nossa participação dentro de um processo de treinamento. Será que queremos criar pessoas pensantes e motivadas a resolverem quaisquer tipos de problemas ou queremos mudar o mundo criando pessoas que só sabem imitar a nossa forma de responder aos desafios?
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1Diretores do Instituto Fernando Costa