Sebastião Teixeira Gomes
O custo de produção é um instrumento poderoso para o administrador da atividade leiteira. Entretanto, seu cálculo envolve algumas questões simples, outras nem tanto, razão pela qual seu uso é pouco praticado. Para facilitar o entendimento do custo de produção de leite, este artigo foi escrito, na forma de perguntas e respostas.
1) Pergunta: Por que calcular o custo do leite?
Resposta: O resultado do cálculo do custo de produção, quando comparado com o da renda bruta, permite saber se a atividade está dando lucro ou prejuízo, além de identificar os componentes de maior peso no custo, aos quais o administrador deve ficar mais atento.
2) Pergunta: O custo de produção também não serve para que o produtor possa reivindicar o preço do leite?
Resposta: Quando o preço do leite era tabelado pelo governo, esta era uma prática comum. Elaboravam-se planilhas de custo do leite, que eram encaminhadas ao governo, e solicitava-se que o preço cobrisse os custos. Com o fim do tabelamento, em 1991, o sentido mudou. A partir do preço do leite dado pelo mercado, elaboram-se planilhas de custo para indicar os ajustamentos necessários ao sistema de produção, para atender àquele preço. Se, por exemplo, o preço do mercado é de R$ 0,30/litro, não justifica um produtor, que consegue R$ 0,25/litro de custo, ir à indústria e solicitar o abaixamento de seu preço. Do mesmo modo, se outro produtor tiver um custo R$ 0,35/litro, pouco adiantará ele ir à indústria e pedir para pagar-lhe o equivalente a seu custo de produção.
3) Pergunta: O produtor não pode fazer nada em relação ao preço do leite?
Resposta: Pode e deve. Acontece que as reivindicações de maior preço têm maior chance de sucesso quando encaminhadas coletivamente. Em geral, os maiores efeitos acontecem quando se busca expandir a demanda, por exemplo, mediante programas sociais que distribuem leite e quando inibem importações, com preços artificialmente reduzidos, como aconteceu recentemente.
4) Pergunta: Qual é o período de cálculo do custo de produção?
Resposta: O ideal é que seja um ano, de modo a englobar o plantio e a colheita das culturas. Podem-se também determinar os custos com períodos menores, observando-se alguns cuidados metodológicos. Por exemplo, pode-se calcular o custo dos períodos das águas ou da seca. Entretanto, os custos com alimentação, nas águas (silagem), devem ser transportados para o período da seca, época em que a silagem será consumida. No fluxo de caixa, os gastos com silagem são anotados quando eles acontecem e, no custo de produção, quando a silagem é consumida.
5) Pergunta: Qual a diferença entre fluxo de caixa e custo de produção?
Resposta: O fluxo de caixa indica a relação das entradas e saídas financeiras. Se, por exemplo, num determinado ano, o produtor comprar um trator por R$ 40.000,00, este valor entrará, integralmente, no fluxo de caixa (saídas). No custo de produção são apropriados apenas a depreciação do trator e os juros sobre o capital investido.
6) Pergunta: O período é importante na interpretação do custo?
Resposta: É importantíssimo. Devem-se conhecer os objetivos do produtor para fazer uma interpretação correta dos resultados. Por exemplo, para um produtor que estará iniciando um programa de inseminação artificial, o objetivo não termina em um ano. Os benefícios da inseminação começarão a aparecer no período de dois a três anos. A avaliação dos custos e dos benefícios deverá considerar esse período.
7) Pergunta: O produtor gasta R$ 10,00/saco no plantio do milho e o utiliza para compor a ração das vacas. Entretanto, o preço de mercado é R$ 7,00/saco. No custo de produção de leite devem-se considerar R$ 10,00 ou R$ 7,00 por saco de milho?
Resposta: Deve escolher a alternativa que for realizada. Se, para a ração, o produtor comprar o milho, devem-se considerar R$ 7,00/saco. Entretanto, se ele plantar o milho e utilizá-lo na ração, devem-se considerar R$ 10,00/saco; ainda que o preço de mercado seja R$ 7,00/saco.
8) Pergunta: Existem casos de dupla contagem no custo de produção?
Resposta: A dupla contagem dos custos é um erro freqüente, que deve ser evitado. Alguns exemplos: a) O produtor possui trator e são considerados os custos desse trator em reparos, depreciação, combustível, lubrificante e juros sobre o capital empatado. Mesmo assim, quando se calcula o custo de formação ou de manutenção das forrageiras, os custos de serviços mecânicos são considerados como se fossem alugados. O correto é apropriar-se apenas dos custos do próprio trator; b) Quando parte ou todo concentrado é produzido na fazenda, deve-se considerar seu custo de produção, sem repetir os custos, como se os concentrados fossem comprados.
9) Pergunta: De que modo os componentes do custo podem ser classificados?
Resposta: A divisão clássica dos componentes do custo diz respeito aos custos variáveis (aqueles que variam com a produção) e aos custos fixos (aqueles que não variam com a produção). À primeira vista, esta classificação é fácil de ser praticada; entretanto, isto não é verdadeiro, porque um fator de produção pode ser considerado como variável ou fixo, dependendo da unidade de tempo. No caso da produção de leite, os custos com ordenhador constituem um bom exemplo, os quais podem ser fixos no curto prazo ou variáveis, no longo prazo.
Outra maneira de classificar os componentes do custos é a de custos operacionais efetivo e total.
10) Pergunta: Quais são os componentes do custo operacional efetivo?
Resposta: São aqueles que implicam desembolso do produtor, tais como mão-de-obra contratada, concentrados, fertilizantes, sementes, medicamentos, sais minerais, reparos de benfeitorias, consertos de máquinas, impostos e taxas, energia elétrica, combustível, inseminação artificial e outros desta natureza.
A renda bruta menos o custo operacional efetivo é igual à margem bruta. Mesmo no curtíssimo prazo, a margem bruta deve ser positiva.
11) Pergunta: Quais são os componentes do custo operacional total?
Resposta: O custo operacional efetivo mais a mão-de-obra familiar e as depreciações de benfeitorias, máquinas e forrageiras não-anuais.
A renda bruta menos o custo operacional total é igual à margem líquida. No curto prazo, a margem líquida pode ser negativa; mesmo assim, o produtor pode ter motivos para continuar na atividade. O que não deve acontecer é a margem líquida permanecer negativa no médio prazo. Isto leva ao empobrecimento do produtor.
12) Pergunta: Finalmente, quais são os componentes do custo total?
Resposta: O custo operacional total mais os juros sobre o capital em benfeitorias, máquinas, rebanho e formação de forrageiras não-anuais.
A renda bruta menos o custo total é igual ao lucro. No curto prazo, o lucro pode ser negativo e o produtor pode ter motivos para continuar na atividade. O que não deve acontecer é o lucro permanecer negativo no longo prazo. Isto leva ao empobrecimento do produtor.
13) Pergunta: A terra não entra no custo de produção?
Resposta: Não há consenso sobre como tratar o capital investido em terra no custo de produção. Alguns o consideram, outros não. Recomendo considerar os custos do que está sobre a terra (pasto, capineira, canaviais), de modo a manter a fertilidade do solo. São consideradas as depreciações das forrageiras não-anuais e os juros sobre o custo de formação, além dos custos anuais de manutenção das forrageiras.
14) Pergunta: Como se calcula a depreciação de uma benfeitoria ou máquina?
Resposta: Existem vários métodos; o mais usado é o da depreciação linear, cuja fórmula é a seguinte:
Da = (VN - VR) ÷ N,
em que
Da = depreciação anual,
VN = valor novo,
VR = valor residual ou de sucata, e
N = vida útil em número de anos
O número de anos de vida útil depende de como a benfeitoria e a máquina são utilizadas. Em geral, são considerados parâmetros médios fornecidos pela engenharia agrícola. Quando a vida real da benfeitoria ou da máquina já ultrapassou o valor médio, deve-se ajustar este número à vida real.
15) Pergunta: Calcula-se a depreciação de reprodutores, de animais de serviços e de vacas?
Resposta: No cálculo da depreciação de reprodutores e animais de serviço, deve-se utilizar a mesma fórmula de depreciação de benfeitorias e máquinas.
Quanto à depreciação de vacas, depende de como está sendo calculado o custo de produção do leite. Se o cálculo engloba todo o rebanho, inclusive as novilhas, não se determina a depreciação das vacas. Isto porque as novilhas são recriadas para substituírem as vacas. O custo de recria da novilha corresponde ao da depreciação da vaca. Entretanto, se o cálculo do custo de produção de leite considerar apenas a categoria vaca, a depreciação delas será um dos componentes do custo de produção.
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Sebastião Teixeira Gomes é Professor titular da Universidade Federal de Viçosa
1 Trabalho escrito em 18-03-2001
Perguntas e respostas sobre o custo de produção de leite (parte 1)1
Publicado por: MilkPoint
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