Os Produtores precisam de mais eficiência ..... ou mais poder econômico?

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Por André Zeitlin e Massaru Kashiwagi

O artigo que transcrevemos abaixo foi publicado na revista Hoard's Dairyman, em novembro/2001, e embora esteja analisando estudos realizados no mercado americano, é o retrato fiel do panorama atual brasileiro, sem tirar, nem por.

Esta tradução livre foi feita por André Zeitlin e Massaru Kashiwagi, que pedem desculpas pela sintetização do texto original, feita exclusivamente com o objetivo de tornar a leitura mais fácil e menos cansativa, procurando porém preservar o espírito e a orientação didática do autor.

Esperamos que a leitura deste artigo possa motivar os produtores de leite a começar a agir, buscando prioritariamente a formação de "musculatura", com o objetivo de criar as condições mínimas necessárias para recuperar e garantir nosso espaço neste mercado tão desigual. Vamos parar com as lamentações e procurar a união que é fundamental para a defesa de nossos interesses comuns.

Os Produtores precisam de mais eficiência ..... ou mais poder econômico ?

O professor e extensionista Richard A Levins, da Universidade de Minnesota, USA, questiona neste artigo da Hoard's Dairyman se os produtores de leite precisam avançar em eficiência ou em poder econômico.

Reconhece que, como a maioria dos produtores, ele sempre advogou a eficiência como a base para a prosperidade da fazenda leiteira: mais vacas, melhores vacas, melhor manejo, a última tecnologia, etc.

Entretanto, descreve como foi profundamente abalado nesta convicção, quando o palestrante de um seminário, usando poucas palavras, disse:

"Eficiência é o conselho do rico para o pobre"

Esta não foi seguramente uma frase leviana, e me levou a pensar bastante nela, diz o articulista. O palestrante, Dr. Ron Cotterill e sua equipe da Universidade de Connecticut, vem estudando o relacionamento econômico da cadeia produtiva do leite por muitos anos. E seus estudos demonstram como as indústrias estão usando o músculo e não a eficiência, para manter seus lucros.

Enquanto os produtores de leite buscam a melhoria contínua da eficiência como forma de sobreviver a preços cada vez mais baixos, as indústrias tornam-se maiores e mais poderosas, conseguindo desta forma manter suas margens de lucro e dependendo cada vez menos da eficiência.

Até os chavões sobre "agregação de valor" tornam-se inócuos quando as indústrias parecem elefantes negociando com os produtores que parecem formigas e que sem nenhuma condição de negociação, perdem o ganho econômico conseguido com a melhoria da eficiência.

Para que serve o poder econômico? Pode ser usado para manipular preços, influenciar termos de contratos e até para determinar como as "regras do jogo" serão estabelecidas pelas instâncias governamentais, quando for o caso. Serve enfim, para quem tem o poder garantir lucros, não disponíveis para quem não o tem.

Porque os produtores carecem de poder econômico? Quanto a isto os economistas concordam: a competição mina o poder econômico, e os produtores são seguramente os que mais competem entre si, e esta competição em um mundo de gigantes trabalha contra a renda dos produtores de várias formas. Por exemplo:

* Porque os produtores avidamente adotam novas tecnologias, que trazem benefícios de curto prazo para alguns e malefícios a médio prazo para todos? A resposta é competição entre si!

* Porque produzem continuamente mais do que os mercados podem comprar a preços decentes? Novamente, competição entre si!

* E porque têm tão pouco poder econômico que perdem margens continuamente para os gigantes do agribusiness? A resposta é a mesma: competição entre si !

Uma organização de produtores com força suficiente, sem competir entre si, poderia garantir aos produtores relações mais justas com processadores e varejistas, bem como leis que melhor protegessem seus interesses e maior prioridade nas casas legislativas, apenas para citar alguns exemplos.

A primeira restrição a este nível de organização costuma ser o grande número de produtores. Existem cerca de 100 mil produtores de leite nos USA, e parece ser muita gente para se conseguir organizar de forma efetiva em uma unidade associativa. Mas será mesmo? A Federação Americana de Professores tem 1 milhão de associados. É preciso lembrar que há inúmeros exemplos de organizações de classe que ultrapassam 1 milhão de membros. Além disso para ficar apenas na questão dos números, há boas e más noticias. A má notícia é que menor número de produtores significa menor importância política para a classe. Enquanto isso, os fazendeiros continuam a esperar alguma ajuda do governo. A boa notícia é que a redução do número de produtores torna mais fácil construir e consolidar uma associação economicamente forte. Organizar 100 mil produtores pode não ser uma tarefa fácil, mas a experiência de muitas outras associações em condições parecidas, mostram que não é impossível.

O número de produtores não é o único obstáculo à organização da classe, ou esta poderia ser reduzida a uma questão de tempo apenas. A independência dos produtores é outra dificuldade, talvez mais séria. Alguém já comparou a tentativa de organizar os produtores a recolher sapos numa carriola de mão: eles não param de pular para fora....

A esperança pode estar numa nova geração de produtores, em menor número, melhor educados e melhor conectados com tecnologias de informação. Esta nova geração sabe que está lidando com gigantes, embora possa não saber ainda o que fazer a respeito. Mais cedo ou mais tarde a questão da independência será reduzida para a seguinte questão: você prefere assinar um contrato com um gigante do processamento, ou com seus companheiros produtores? Você será mais independente assinando um contrato redigido nos termos do gigante, ou trabalhando em conjunto com seus companheiros para conseguir os melhores termos possíveis dos gigantes sentados do outro lado da mesa?

Isto tudo significa que está na hora de fazermos uma releitura da máxima "cresça ou desapareça". Temos que reconhecer que nenhum produtor conseguirá ser, individualmente, grande o suficiente para negociar satisfatoriamente com os gigantes. A grandeza só virá quando os produtores forem capazes de atuar conjuntamente, a nível nacional, por preços mais justos.
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