Os limites da vaca

Concursos leiteiros estão merecendo destaque especial nas exposições agropecuárias em alguns estados do Brasil.

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Os concursos leiteiros estão merecendo destaque especial nas exposições agropecuárias em alguns estados do Brasil.

Há registros de desempenhos fantásticos – vacas produzindo até mais de 70 kg de leite/dia, para orgulho dos criadores. Além de afagar o ego de alguns ou a vaidade de outros, e catapultar o preço de venda dos animais premiados, quais seriam as vantagens objetivas desses concursos?

Quando criança de 3 ou 4 anos, diante de fatos, constatações ou notícias para ela de difícil interpretação, uma de minhas filhas costumava indagar curiosa – mas...isto é bom ou é ruim? Pois a mesma pergunta me assalta quando me deparo com relatos de produções leiteiras individuais extremamente elevadas.

Argumentação e respostas

Na busca de argumentação e respostas, simulei uma situação.

Vaca holandesa, 550 kg de peso vivo, segunda lactação, condição corporal 02, produção diária de 70 kg de leite no pico da lactação.

De acordo com o NRC 1989 (defasado, eu sei), os requerimentos nutritivos diários desse animal seriam os seguintes – ingestão de matéria seca (IMS): 29,3 kg; 59,6 Mcal de energia (ENL) ou seja, uma concentração de 2,03 Mcal/kg de MS na dieta; 6,65 kg de proteína bruta ou 22,6% na dieta; 252 g de Ca e 158 g de P. É obvio que, em termos práticos, não há como elaborar uma dieta capaz de atender requerimentos tão elevados. O animal passa então a mobilizar à exaustão suas próprias reservas corporais de energia, proteína e minerais para atender a essas demandas exageradas. Daí para a manifestação clínica ou sub-clínica de desordens metabólicas é meio passo. Não é a toa que problemas como cetose, acidose ruminal, torções de abomaso, anorexia, ausência de cios, acentuados desequilíbrios na relação serviços/prenhez, metrites, mastites, etc... estão, com freqüência cada vez maior, presentes na rotina das propriedades leiteiras. Nesses animais, a linha que separa a saúde da doença é tênue, quase imperceptível.

É interessante observar que muitos desses concursos leiteiros limitam-se apenas a avaliar o item produção diária como elemento de competição. Outros critérios, não menos importantes, como período parto/concepção, intervalo entre partos, histórico reprodutivo e sanitário, persistência e produção total da lactação, qualidade do leite (sólidos totais e CCS) e custos de produção são sonegados ou ignorados.

Vacas estrelas

Por oportuno, quero esclarecer que, de nenhuma forma, me posiciono contra os avanços da ciência genética nem das práticas de seleção e melhoramento. No entanto, considerando que o processo produtivo da pecuária leiteira é resultante da interação dinâmica dos segmentos alimentação, reprodução, qualidade genética e sanidade, devidamente gerenciados pelo homem, o desenvolvimento exacerbado de um segmento isolado certamente provocará desequilíbrios no processo, com prejuízos ao objetivo final. E, é inegável, que ultimamente os avanços na área da genética vêm sendo obtidos numa velocidade muito superior aos das áreas de nutrição, reprodução e sanidade.

Quando concursos ou competições privilegiam de forma unilateral um segmento isolado do processo produtivo, estão colaborando para intensificação desse indesejável desequilíbrio.

Sabe-se, por exemplo, que existe um certo grau de antagonismo entre produção leiteira e o desempenho reprodutivo.

Considerando que a lactação é uma conseqüência do parto, é indispensável que se busque um ponto de equilíbrio entre as performances produtiva e reprodutiva, sem prejuízos à saúde e a longevidade dos animais. Parece-me que é sob esta ótica que devemos definir qual é o perfil de animal que desejamos para o rebanho leiteiro nacional – vacas saudáveis, com bons desempenhos produtivo e reprodutivo (representados por lactações anuais durante 5 ou 6 anos consecutivos), produzindo leite com boa qualidade e baixos custos ou, as “vacas-estrelas” com excelentes desempenhos nos concursos leiteiros, com freqüência sob o efeito de aditivos ou hormônios, mas com elevado grau de predisposição a problemas nas áreas da saúde e reprodução que implicam em acentuados incrementos nos custos de produção.

Sugestões

Para não ficar apenas na posição de crítico, atrevo-me a registrar algumas sugestões aos organizadores de concursos leiteiros:

* Deverão participar apenas vacas sob controle leiteiro oficial.

* O item produção deverá ser avaliado por desempenhos em lactações de 305 dias (passadas ou projetadas de acordo com os recursos estatísticos validados pela pesquisa).

* O histórico do desempenho reprodutivo terá peso importante na pontuação final.

* Deverão ser avaliados itens relativos a qualidade do leite (teores de proteína e gordura, sólidos totais, bem como a contagem de células somáticas).

Conclusão

Para concluir, é necessário que se consolide entre os produtores leiteiros o princípio de que, sob o ponto de vista administrativo e econômico, a avaliação das médias de rebanho é muito mais importante do que o desempenho eventual desta ou daquela vaca de forma individual.

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1 Escreve regularmente no Informativo A Nata do Leite, editado pela Scot Consultoria
scotconsultoria@scotconsultoria.com.br

Telefone: (17) 3343-5111
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Material escrito por:

Otaliz de Vargas Montardo

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marquim
MARQUIM

AIMORÉS - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 14/11/2012

Eu discordo totalmente do artigo que da sugesto~es aos organizadores de torneios leiteiro,pois se vcs não sabem a maioria dos torneios leiteiros são feitos pra animar o pequeno produtor a não deixar a vida dificil no campo e ir pra cidade,em busca de coisa melhor ,com essa sua sugestão vai ter torneio so pros grandes produtores,e os pequenos?nem todos tem condição de manter alguem todo mes em sua propriedade fazendo controle leiteiro não.
Leovegildo Lopes de Matos
LEOVEGILDO LOPES DE MATOS

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 04/03/2002

Parabenizo o Dr. Otaliz Montardo pela clarividência e coragem ao comentar sobre esses concursos leiteiros. Esses têm mais de esporte e hobby do que de pecuária leiteira e os resultados são os mostrados pelo Dr. Otaliz, animais cada vez com menor eficiência alimentar, reprodutiva e econômica.
Renato Fonseca
RENATO FONSECA

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 05/12/2001

Parabéns pelo artigo. Entretanto, eu perguntaria ao autor: se este artigo fosse escrito há 20 ou 30 anos atrás, não escreveria artigo semelhante sobre desempenhos "fantásticos" de vacas com produção de 40 litros/dia, ou, quem sabe, daqui há 15 anos, escreverá sobre as vacas de torneio que produzem 100 litros/dia. Pesquisar o limite de produção do animal é um objetivo tão válido quanto pesquisar melhorias na nutrição, no desempenho reprodutivo, etc., desde que de forma eticamente responsável.

Joaquim Rezende Pereira
JOAQUIM REZENDE PEREIRA

OUTRO - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 26/11/2001

Achei excelente o artigo, muito esclarecedor. Parabéns.

Qual a sua dúvida hoje?