O sonho da estabilidade do preço do leite

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Sebastião Teixeira Gomes 1

Há anos, produtores e analistas do mercado de lácteos reivindicam a estabilidade do preço do leite. Evidentemente que o preço considerado, em tal reivindicação, é o preço real ou corrigido por algum índice de inflação, ou seja, o preço deflacionado. Com a estabilidade do preço buscava-se a estabilidade das receitas, na hipótese da mesma produção diária.

Durante muitos anos argumentava-se também que a variação do preço do leite, durante o ano, era reflexo da sazonalidade da produção. No verão, maior produção e menor preço e, no inverno, menor produção e maior preço.

Acontece que, nos últimos anos, a sazonalidade da produção reduziu muito e, mesmo assim, a variação do preço, durante o ano, continuou elevada, sem acompanhar, no mesmo ritmo, o comportamento da produção, conforme indica o gráfico 1. De 1995 a 2002, o coeficiente de variação da produção (desvio-padrão dividido pela média vezes cem) reduziu 6,48% ao ano e o do preço reduziu apenas 0,61% ao ano (taxa não-significativa). Isto frustrou quem acreditava que a redução da sazonalidade de produção iria causar estabilidade do preço do leite. A análise das razões desse comportamento do mercado é o objetivo principal deste artigo.

Na explicação de tal comportamento, um ponto importante diz respeito à mudança na geografia da produção. Mais do que a mudança geográfica em si, foi a mudança na tecnologia de produção das novas regiões produtoras de leite. Os exemplos mais significativos aconteceram nos estados de São Paulo e Goiás e, em Minas Gerais, nas regiões do Sul de Minas e Triangulo e Alto Paranaíba.

Enquanto em São Paulo e no Sul de Minas predominam sistemas de produção com poucas diferenças tecnológicas durante o ano, em Goiás e nas regiões do Triangulo e Alto Paranaíba predominam sistemas com tecnologias diferentes, no verão e no inverno. Nessas regiões, no verão, a alimentação do rebanho tem como base o pasto, com pequena suplementação de ração concentrada e sem suplementação de volumosos. No inverno, há maior suplementação com concentrados, mais cana com uréia ou silagem, em alguns casos. Em outras palavras, os sistemas de produção de leite adotados em São Paulo e no Sul de Minas são menos flexíveis que os de Goiás e das regiões do Triangulo e Alto Paranaíba.

A flexibilidade dos sistemas de produção é decorrente do comportamento dos preços relativos, ou seja, da relação preço do leite/preço de insumo. Em razão do elevado peso que a ração concentrada tem sobre o custo de produção, a relação preço do leite/preço da ração, orienta a flexibilidade da tecnologia. Em média, no verão, com a venda de 100 litros de leite o produtor pode comprar 2,5 sacos de ração, de 40 quilos cada. No inverno, com a mesma venda de 100 litros ele pode comprar 3,5 sacos de ração. Se mantida a mesma quantidade de ração/vaca durante todo o ano, o custo da suplementação, em equivalente litros de leite, será maior no verão, indicando a necessidade de ajustamentos neste período.

Gráfico 1 - Coeficientes de variação do preço e da produção de leite


Nos últimos anos, as regiões que mais aumentaram a produção foram aquelas com sistemas mais flexíveis, que já respondem pela maior parte da produção nacional. Não se deve esquecer que tais regiões aumentaram suas participações na produção do país, mas, ao mesmo tempo, reduziram a sazonalidade da produção e aumentaram a produtividade. Isto indica que a maior flexibilidade do sistema de produção não significou retrocesso tecnológico.

Retornando à questão da variação do preço do leite, durante o ano, ela tem acompanhado a variação dos custos de produção dos sistemas flexíveis. No verão, os custos e os preços são menores que os do inverno. Tal comportamento leva à estabilidade da margem bruta/litro (preço menos custo operacional/litro) e, até mesmo, da margem bruta mensal, em razão da queda da sazonalidade.

A predominância de sistemas de produção com tecnologias diferentes durante o ano (leia-se custos diferentes) faz com que a variação do preço cause redução da sazonalidade. Na hipótese de mesmo preço durante todo o ano, a produção estaria concentrada no verão, época de menor custo de produção. Portanto, o mercado está indicando que a relação causal é de variação de preço para redução de sazonalidade e não de redução de sazonalidade para variação de preço.

Duas questões finais: 1) Em razão do clima e da disponibilidade de recursos produtivos, a tendência da produção de leite no Brasil irá caminhar, cada vez mais, para sistemas flexíveis de tecnologia e de custos. Isto representa grandes dificuldades para modelos que adotam a mesma tecnologia durante todo o ano; 2) O sonho da estabilidade do preço do leite dificilmente se concretizará, mesmo que alguns instrumentos de política agrícola que busquem sua efetivação sejam implementados. Com certeza, as forças do mercado prevalecerão.
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1Professor Titular da Universidade Federal de Viçosa.
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